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Outros
nomes
Chá do Santo Daime, yajé, caapi, vinho de deus. Na linguagem
Quéchua, aya significa espírito ou ancestral, e huasca
significa vinho ou chá.
Aparência
Os métodos de preparo variam conforme a tradição de cada
local e da ocasião em que o consumo se dá. De qualquer
maneira, o processo é longo e leva quase um dia para o
preparo. As diversas beberagens geralmente contêm talos
socados do cipó caapi (Banisteriopsis caapi) mais as folhas
da chacrona (Psichotria viridis).
Efeitos
O chá de Santo Daime é um alucinógeno. Tal propriedade se
deve à presença nas folhas da chacrona de uma substância
alucinógena denominada N,N-dimetiltriptamina (DMT). O DMT é
destruído pelo organismo por meio da enzima monoaminaoxidase
(MAO). No entanto, o caapi possui uma substância capaz de
bloquear os efeitos da MAO: a harmalina. Desse modo, o DMT
tem sua ação alucinógena intensificada e prolongada.
Outras plantas amazônicas também possuem DMT e são
utilizadas por diversas tribos indígenas como um modo de
experiência religiosa. Entre estas estão a jurema (Mimosa
hostilis) e o yopo (Anadenanthera colubrina). A jurema é
consumida na forma de chá, enquanto as sementes do yopo são
maceradas e seu pó, consumido pela via intranasal
(cheirado).
Caráter religioso e sintomatologia
Seu consumo está associado a práticas religiosas e parece
ser utilizada por tribos indígenas da Amazônia desde 2000
a.C. As seitas religiosas mais conhecidas no Brasil são o
Santo Daime e a União do Vegetal. Os efeitos, desse modo,
estão bastante relacionados aos rituais religiosos onde se
dá o consumo, baseados na crença da possibilidade de contato
com outros planos espirituais. Há semelhança entre os
efeitos da ayahusca e alucinógenos, como o LSD.
Riscos à saúde
Pode haver sensação de medo e perda do controle, levando a
reações de pânico. O consumo do chá pode desencadear quadros
psicóticos permanentes em pessoas predispostas a essas
doenças ou desencadear novas crises em indivíduos portadores
de doenças psiquiátricas (transtorno bipolar,
esquizofrenia).
História
da Ayahuasca
Profª
Drª Ana Cecília Marques 1
Hamer Nastasy Palhares 2
A
Ayahuasca é conhecida em diferentes culturas pelos seguintes
nomes: yajé, caapi, natema, pindé, kahi, mihi, dápa, bejuco
de oro, vine of gold, vine of the spirits, vine of the soul
e a transliteração para a língua portuguesa resultou em hoasca.
Também é conhecida amplamente no Brasil como "chá do Santo
Daime" ou "vegetal". Na linguagem Quechua, aya significa espírito
ou ancestral, e huasca significa vinho ou chá (Luna & Amaringo,
1991; Grob et al., 1996). Este nome, tanto se aplica à bebida
preparada por meio da mistura da Banisteriopsis caapi e da
Psichotria viridis, quanto à primeira das plantas. Apesar
das variações acerca das plantas usadas, farmacologicamente,
boa parte delas são similares. Nesta revisão, o termo ayahuasca
será usado para designar a bebida resultante da decocção destas
duas plantas combinação.
As diversas preparações geralmente contêm talos socados da
Banisteriopsis caapi ou espécies correlatas mais as folhas
da Psichotria viridis. As plantas adicionadas à Ayahuasca
ajudam a maximizar as experiências de estimulação visual e
as sensações de contato com forças e locais sobrenaturais
e divinos. Os métodos de preparo variam conforme o grupo,
como um chá quente ou amassando-se junto à água fria, deixando-se
em descanso por aproximadamente 24 horas. É um processo longo
que leva quase um dia para o preparo, o que torna a "tecnologia"
de produção insuficiente para a produção de grandes quantidades
(Karniol & Seibel, Parecer do Grupo de Trabalho, 1986).
História
As origens do uso da Ayahuasca na bacia Amazônica remontam
à Pré-história. Não é possível afirmar quando tal prática
teve origem, no entanto, há evidências arqueológicas através
de potes, desenhos que levam a crer que o uso de plantas alucinógenas
ocorra desde 2.000 a.C.
No século XVI, há relatos de que os espanhóis e portugueses,
detentores das florestas do Novo Mundo, observaram a utilização
de bebidas na cultura indígena e recriminaram-na: "quando
bêbados, perdem o sentido, porque a bebida é muito poderosa,
por meio dela comunicam-se com o demônio, porque eles ficam
sem julgamento, e apresentam várias alucinações que eles atribuem
a um deus que vive dentro destas plantas" (Guerra, 1971).
O uso destas plantas foi condenado pela Santa Inquisição em
1616, o cerimonial persistiu de forma escondida dos dominadores
Europeus. Os padres jesuítas descreveram o uso de "poções
diabólicas" pelos nativos do Peru no século XVII.
A história moderna da Ayahuasca começa em 1851 quando o botânico
inglês R. Spruce noticia o uso de bebidas que intoxicam entre
os índios Tukanoan, no Brasil. Estes convidaram-no a participar
de uma cerimônia que incluía a infusão que eles chamavam "caapi".
Spruce apenas tomou uma pequena quantidade daquela "nauseous
beverage", mas não se deu conta dos profundos efeitos que
ela teve sobre seus amigos. Os Tukanoans mostraram a Spruce
a planta da qual caapi derivava, e ele coletou espécies da
planta e das flores. Spruce chamou-a de Banisteria caapi,
e estudo posteriores levaram-no a concluir que caapi, yage
e ayahuasca eram nomes indígenas para a mesma poção feita
daquela videira.A Banisteria caapi de Spruce foi reclassificada
como Banisteriopsis caapi pelo taxonomista Morton em 1931.
Em 1858, Spruce encontrou a mesma planta sendo usada na tribo
Guahibo, na margem superior do rio Orinoco, na Colômbia e
Venezuela, e, no mesmo ano, entre os Záparos dos Andes Peruanos,
que denominavam-na Ayahuasca.
Simson's, em 1886 foi quem primeiro observou a mistura das
plantas na confecção da Ayahuasca.
Apesar da coleta e identificação da Ayahuasca datar de 1851,
os alcalóides já eram conhecidos desde a primeira metade do
século XIX, o que se deve à facilidade de extração dos mesmos,
bem como aos possíveis usos clínicos: logo, a Harmalina foi
isolada da Peganum harmala em 1840. Sete anos depois, a Harmina
foi identificada. A "telepatina" - harmina- foi identificada
na "yajé" em 1905 (Zerda e Bayon).
O começo do século vinte foi marcado por mais confusão do
que esclarecimentos acerca da Ayahuasca, muitos identificaram-na,
equivocadamente, do ponto de vista da botânica. Até que, em
1939, Chen & Chen descobriu que tanto a caapi, yagé e ayahuasca
eram a mesma bebida. Foram estes mesmos pesquisadores que
confirmaram que a harmina, telepatina e banisterina eram a
mesma substância.
Em 1957, Hochstein and Paradies encontraram, além de Harmina,
também Harmalina e Tetrahidroharmina.
Em 68, identificou-se a N,N dimetiltriptamina (DMT) como outro
alcalóide deste chá. Este já havia sido sintetizado em 1931
porém só foi identificado como substância natural em 1955,
na planta Piptadenia peregrina (Anadenanthera peregrina).
Os princípios da ação farmacológica da Ayahuasca foram traçados
na década de 60 e sugeriam a interação das beta-carbolinas
presentes na Banisteriopsis e do DMT proveniente da P. viridis.
O estudo de Rivier & Lindgren identificou os alcalóides presentes
na decocção em 1972, isto é: Harmina, Harmalina, Tetrahidroharmina
e Dimetiltriptamina.
Antropologia e uso da Ayahuasca
Plantas com propriedades alucinógenas vem sendo utilizadas
com finalidades místicas e religiosas em diferentes culturas
primitivas (Andritzky, 1989; Callaway, 1996; Desmerchelier,
1996; Luna, 1984). Há relatos do uso das poções em toda a
Amazônia, chegando à costa do Pacífico no Peru, Colômbia e
Equador, bem como na costa do Panamá, sendo que foi reconhecida
em pelo menos 72 tribos indígenas, com pelo menos 40 diferentes
nomes.
Entre as diversas tribos da bacia Amazônica, a Ayahuasca é
percebida como uma poção mágica inebriante, de origem divina,
que "facilita o desprendimento da alma de seu confinamento
corpóreo", voltando ao mesmo conforme a vontade e carregada
de conhecimentos sagrados. Entre os nativos é usada para propósitos
de cura, religião e para fornecer visões que são importantes
no planejamento de caçadas, prevenção contra espíritos malévolos,
bem como contra ataques de feras da floresta.
Antes da colonização européia, postula-se que as plantas inebriantes
eram amplamente usadas com fins de bruxaria, rituais religiosos,
cura e contato com forças sobrenaturais (Dobkin de Rios, 1972;
Harner, 1973)
Entre os Tukanoans, o yajé é responsável pela arquitetura
da tribo, pois as imagens geométricas induzidas pelo efeito
do chá desempenham um importante papel na estrutura da vida
cultural desta tribo, sendo que as experiências relacionadas
à Ayahuasca pertencem a uma realidade mais nobre que a ordinária
(Spruce, 1908).
Para os Cashinahua o uso da ayahuasca só deve ser feito em
condições extremas pois é considerada uma experiência desagradável
e amedrontadora. Os índios Jivaro do Equador, relatam que
a experiência com Ayahuasca é a vida real, ao passo que a
realidade cotidiana é apenas uma ilusão. As visões são guiadas
e manipuladas pelos xamãs, o que resulta em visões grupais
sintônicas, que são incluídas dentro dos rituais religiosos
próprios destas culturas.
O uso da Ayahuasca sobreviveu aos ataques das culturas dominadoras
e pouco a pouco espalhou-se para os mestiços chegando enfim
às pequenas cidades da região Amazônica. Nestas cidades o
uso da bebida foi redimensionado, sendo que os xamãs da Amazônia
Peruana referem-se a si mesmos como vegetalistas. Estes "plant-doctors"
ajudam as pessoas das áreas rurais e as populações pobres
da áreas suburbanas que geralmente não têm outras opções em
situações críticas na esfera da saúde física, mental e em
"problemas sobrenaturais" (Luna, L. E., 1984).
Tais vegetalistas apresentam a tendência a especializarem-se
em algumas poucas plantas e usam estes "ensinamentos" em sua
prática. Assim, há tabaqueiros que usam tabaco, "toeros" que
usam várias espécies de Brugmansia species; "catahueros" que
usam resinas da catahua (Hura crepitans), "perfumeros" que
usam diversas espécies de plantas com aromas fortes e por
fim os "ayahuasqueros" que se utilizam da ayahuasca em seus
rituais.
Os Xamãs usam a bebida em um contexto de cura. Eles tomam
a Ayahuasca para melhor diagnosticar a natureza da doença
do paciente. Vegetalistas podem receber o dom da cura por
meio de espíritos da floresta e seu papel é o de, muitas vezes,
intermediar a transmissão do conhecimento médico para o mundo
dos humanos, possibilitando assim a cura.
Os espíritos "plant teachers" são responsáveis por ensinarem
aos xamãs algumas músicas sobrenaturais chamadas "icaros",
tanto dentro das sessões de ayahuasca quanto durante os sonhos
que se seguem. Os "plant teachers" dão estas canções mágicas
aos xamãs ou vegetalistas então estes podem cantá-las ou sussurrá-las
durante a sessão de cura. Segundo a explicação dos xamãs,
quando uma pessoa se torna doente, seu "padrão energético
torna-se distorcido". Sob a influência da Ayahusca, o xamã
pode ver a distorção e corrigí-la através de massagens, sucção,
plantas medicinais, hidroterapia e restauração da alma do
doente.
A similaridade entre estes métodos xamãs e as técnicas orientais
podem ser notadas. De forma interessante, os xamãs escolhem
plantas medicinais baseados em características visuais, como
formas e cores. Por exemplo, uma planta que produz flores
de formas semelhantes a uma orelha podem e devem ser usadas
para tratamento de doenças relacionadas à orelha e audição.
Parte do treinamento dos xamãs, logo, envolve a prática de
reconhecer e aprender a respeito dos poderes das plantas e
dos animais e suas "virtudes escondidas".
É digno de nota o fato de que muitos xamãs não usam os ensinamentos
da Ayahuasca com pessoas que estejam doentes mentalmente.
Outra tentativa de uso curativo da Ayahuasca foi empreendido
na província de San Martin, no Peru, na década de 80, por
um grupo misto de médicos franceses e peruanos, na tentativa
de facilitar o tratamento da dependência química à pasta de
cocaína, sendo que não se conhece nenhum estudo científico
controlado, que possa corroborar este resultado (Mabit, 1996).
Ayahuasca e religião
No século passado, além do consumo da mistura entre as populações
indígenas, várias igrejas adotaram o uso da ayashuasca em
rituais sincréticos, especialmente no Brasil, onde os efeitos
psicoativos são acoplados a conceitos das doutrinas Judaica,
Cristã, Africana entre outras. As principais religiões deste
módulo incluem a UDV (União do Vegetal), CEFLURIS (Santo Daime),
Barquinha e o Alto Santo (Labilgalini Junior, 1998).
O uso da hoasca dentro de tais contextos religiosos foi oficialmente
reconhecido e protegido pela lei no Brasil em 1987. Tais seitas
incluíram a Ayahuasca em seus rituais de comunhão como um
simbolismo comparável ao "pão e vinho". Estas igrejas argumentam
que a poção ajuda a promover concentração pronunciada e contato
direto com o plano espiritual. Segundo a União do Vegetal,
a beberagem é o "veículo, meio" da ação religiosa e não o
fim.
Calcula-se que o número de pessoas que fazem uso regular da
Hoasca (i.e., aproximadamente 1x/mês), na América do Sul,
excluindo-se as populações indígenas, poderia chegar a 15.000,
isto em 1997 (Luna, L. E., 1997).
A primeira destas igrejas começou a ser formada na década
de 1920 no Brasil, e hoje dois grupos, a União do Vegetal
(UDV or 'Herbal Union') e o Santo Daime, continuam em amplo
processo de crescimento. Estas igrejas neo-cristãs espalham-se
pelas áreas urbanas das grandes cidades, em rituais que se
repetem em geral uma vez por semana ou quinzena. Os membros
da igreja cultivam as plantas necessárias ao feitio do chá,
supervisionam seu preparo e estocagem. Em algumas religiões
não é incomum que membros da seita, dado a longa duração dos
cultos, tomem várias doses durante o curso de uma noite.
A UDV é a maior e mais organizada destas religiões e não permite
o uso de Ayahuasca por pessoas que não sejam membros já efetivos
da seita. É também contrária a uso de drogas bem como ao uso
da Ayahuasca fora do contexto religioso, pois a considera
"inadequada ao uso indiscriminado por parte de pessoas não-iniciadas
e sem a orientação de um dirigente religioso".
Enquanto o uso regular da Ayahuasca ocorre raramente entre
os indígenas- mesmo que a considerável porcentagem destes
tenham-na experimentado em alguma fase de suas vidas- entre
os membros das igrejas o consumo é estável numa base semanal
ou quinzenal, dentro dos contextos cerimoniais.
Dentro da perspectiva religiosa, o potencial de expansão das
seitas que usam ayahuasca é largo. Através da incorporação
de uma substância psicoativa de tal peso em cerimônias religiosas
podem ser alcançados efeitos nas práticas religiosas antes
inexeqüíveis.
Ayauhuasca e a expansão do consumo
É crescente o uso da Ayahuasca, inclusive nas Américas e Europa
(Callaway & Grob, 1998) o que se deve a vários fatores: o
volume de publicações literárias de impacto bem como a mídia
do depoimento de pessoas famosas (Cazenave, 2000); os "Works"
da seita Santo Daime em diferentes países; a facilidade de
aquisição de pacotes de turismo, o que por muitos é conhecido
por "drug tourism" onde os usuários, em busca de experiências
novas, aventuram-se por expedições floresta adentro onde são
realizados rituais em que é convidado a beber a Ayahuasca,
geralmente não inclusa no preço inicial. Tais pacotes podem
girar por volta de U$1100 a 1300, o que não é tão caro se
comparado a uma sessão de Ayahuasca que pode sair por U$800
no "underground" norte americano, conforme aferidos na internet.
Alguns destes sites dizem que o pacote não inclui o uso da
beberagem e que não se trata de "Ayahuasca tourism", no entanto,
recomendam, paradoxalmente, que as pessoas se abstenham de
alimentos que possam levar a interações medicamentosas com
os IMAO.
O crescente número de indivíduos que vem experimentando a
Ayahuasca de maneira descontextualizada, visitas a seitas
com o único intuito de conhecer a bebida, e a atual possibilidade
de se usar a Pharmahuasca: combinação sintética dos ingredientes
psicoativos da Ayahuasca (Ott, J. 1994; Ott, J. 1999). Outra
forma crescente de se usar a combinação de ingredientes ativos
da Ayahuasca é por meio da "Anahuasca", (Ayahuasca borealis),
ou seja, combinação de plantas que produzem resultados semelhantes:
esta possibilidade leva a incontáveis combinações de plantas
que poderiam produzir, em diferentes graus, o "Efeito Ayahuasca"
(Ott, J; 1999).
1
Departamento de Psicobiologia da Universidade Federal de São
Paulo
2 Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas (UNIAD) da Universidade
Federal de São Paulo
Fonte:Site
Álcool e Drogas sem Distorção (www.einstein.br/alcooledrogas)/Programa
Álcool e Drogas (PAD) do Hospital Israelita Albert Einstein |