Guerra Global

Cocaína e heroína, as drogas que mais matam no mundo, movimentam bilhões de dólares, incentivam a guerrilha e controlam os países mais pobres

Entre todas as substâncias ilegais, duas são as que causam mais impacto econômico e social no planeta. As drogas em questão são a cocaína e a heroína: além de serem as que mais matam seus usuários, elas são também as que mais movimentam dinheiro na produção e no tráfico e, em conseqüência, no combate a ale. Além disso, são as que demandam mais gastos no tratamento de dependentes e, segundo especialistas, as que mais prejudicam os países produtores. Como se não bastassem essas más notícias, o combate ao consumo e à produção obteve poucos resultados nos últimos anos, indicando um futuro tenebroso. 
O tráfico dessas substâncias envolve uma teia, uma "cadeia industrial" que começa nos agricultores pobres, sem incentivo para se dedicar a lavouras lícitas, e passa por uma série de empregos diretos, como gente de laboratórios clandestinos, transportadores e revendedores, e indiretos, como encarregados da lavagem de dinheiro e dos sistemas de corrupção. Em 2002, a produção mundial de cocaína foi de 800 toneladas; a de heroína, de cerca de 450 toneladas. Essa produção chega a um enorme público consumidor, espalhado por todo o mundo, e movimenta somas impressionantes de dinheiro.
Segundo estimativas da ONU, cerca de 14 milhões de pessoas usaram cocaína entre os anos de 2000 e 2001; a heroína teve um "público consumidor" de 9,5 milhões de usuários no mesmo período. Quando se fala de gastos, as somas envolvidas são contadas anualmente na casa dos bilhões de dólares. Estima-se que os usuários dos EUA e da Europa Ocidental, maiores consumidores mundiais de cocaína e heroína, tenham desembolsado US$80 bilhões para adquirir essas substâncias.

Lucros Desiguais

Com toda essa quantia em circulação, os lucros com o narcotráfico se tornam gigantescos. No entanto, muito pouco disso cai nas mãos dos plantadores empobrecidos. Na "porta da fazenda", a colheita de folha de coca (base para a cocaína) e de papoula (base para a heroína e para o ópio) em países como Colômbia, Peru, Bolívia, Afeganistão e Mianmar, gerou no ano passado apenas US$ 1,1 bilhão para os agricultores. Ou seja, menos de 1,5% do total dos lucros. A maior parte do valor restante engorda as contas bancárias dos grandes traficantes, no elo final da corrente. 
Além de provocar um aumento na criminalidade comum, com a formação de quadrilhas de transportadores e de distribuidores, esse mercado ilegal traz conseqüências ainda mais profundas na sociedades em que atua. Nos países consumidores, o impacto na saúde pública pode ser medido pelos gastos com tratamento de dependentes. Só em 2000, eles chegaram a US$ 15 bilhões. "Há muito menos usuários de cocaína e heroína do que os de maconha (que são 163 milhões, segundo a ONU), mas eles representam um problema social muito mais grave e de tratamento muito mais complexo", comenta o psiquiatra Fernando Altério, especialista em tratamento de dependentes.
Além disso, os americanos estimam que a perda de produtividade de sua economia em conseqüência dessas drogas pode ter chegado a US$ 110 bilhões. As soluções para esse problema são difíceis. "Uma opção mais barata para o combate ao tráfico é subsidiar programas de incentivo à troca de cultivo da coca e da papoula por produtos legais", afirma Antonio Maria Costa, diretor-executivo do Escritório da ONU de Combate às Drogas e ao Crime (Unodc, na sigla em inglês).
Mas é nos países produtores que o narcotráfico mostra seu maior poder destruidor. "Com os lucros, os grupos criminosos vão adquirindo mais influência nas sociedades de seus países, interferindo até na condução da política econômica de alguns deles", afirma o economista Eduardo Brandão, estudioso das relações do narcotráfico. Segundo Brandão, essas redes criminosas ditam até mesmo os rumos das políticas púbicas de alguns países. "Havendo uma poderosa rede de submundo, dominando uma economia informal, fica realmente muito mais difícil para o Estado governar", conclui.

Guerrilha e o tráfico

O tráfico também floresce quando o Estado está mais desestabilizado. É o que ocorre no caso de uma guerra civil. Os exemplos de Colômbia e Mianmar são característicos: grupos rebeldes tiram proveito do narcotráfico como uma maneira de sustentar a luta revolucionária.
E não há tendência política que escape. Na Colômbia, maior produtor mundial de cocaína, tanto grupos guerrilheiros de esquerda, como as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e o ELN (Exército de Libertação Nacional), quanto de direita, como as AUC (Autodefesas Unidas da Colômbia), mantêm vínculos com plantações de coca e com o refino da matéria-prima. Em troca de proteção, as Farc chegam a cobrar dos traficantes o que chamam de "imposto revolucionário", que acaba se tornando uma das maiores fontes de renda do grupo.

Luta Americana

O conflito colombiano tende a se internacionalizar cada vez mais: o países de fronteira, como o Brasil, tornaram-se áreas de comércio de produtos químicos usados na fabricação da cocaína, além de corredores para a exportação da droga. Outro importante ator nesse cenário são os EUA, maior consumidor de cocaína do mundo. Washington aplica US$ 2 bilhões no Plano Colômbia, um projeto de ajuda militar para que Bogotá combata o tráfico - e, de tabela, a guerrilha.
Parece uma "guerra" sem grandes avanços para Washington: mesmo a intervenção militar americana não impediu que o Afeganistão, na Ásia Central, voltasse a ser o maior produtor mundial de papoula. Os afegãos plantaram em 2002 uma área de 74 mil hectares para a papoula. Já na Colômbia, a área de plantio de coca caiu de 145 mil hectares em novembro de 2001 para 102 mil hectares em dezembro passado. Entretanto, o aumento da produtividade agrícola e da tecnologia de fabricação fez com que a produção de cocaína não caísse mais do que 3,3%. Ao que tudo indica, os danos causados por essas drogas ainda devem assombrar o mundo nos próximos anos.

Cocaína
A situação mundial
A área mundial de cultivo cai 18%...
- 2001 - 211 mil hectares
- 2002 - 173 mil hectares
...mas a produção só diminui 3,3%
- 2001 - 82 toneladas
- 2002 - 80 toneladas
Isso ocorre principalmente pelo incremento de técnicas de produção
Os grandes produtores
Colômbia
- 72% da produção mundial
Apesar de a área cultivada cair pelo segundo ano consecutivo (de 145 mil hectares em 2001 para 102 mil hectares em 2002), o páis continua responsável pela maior produção mundial de cocaína
Peru
- 20% da produção mundial
Responsável pela segunda maior produção de coca no ano passado, o país andino vem mostrando uma relativa estabilidade na área cultivada (52.500 hectares em 2002)
Bolívia
- 8% da produção mundial
Apesar do declínio contínuo na área cultivada entre 1996 (48.100 hectares) e 2000 (14.600 hectares), o plantio cresceu 23% no ano passado, mostrando um aumento pelo segundo ano consecutivo
Os grandes consumidores
EUA
É o país de maior consumo de cocaína. Em 2000, forma gastos US$ 36 bilhões para comprar cocaína e US$ 12 bilhões para a heroína. Essas drogas respondem por 76% do gasto dos americanos com substâncias ilícitas
Reino Unido
O país tem 20% dos consumidores de heroína e 29% dos consumidores de cocaína da Europa Ocidental. As duas drogas respondem por 68% dos gastos dos britânicos com substâncias ilícitas
Europa Ocidental
A região é a maior consumidora de heroína no mundo. Em 2000, os europeus ocidentais gastaram US$ 20 bilhões para adquirir heroína e US$ 12 bilhões para adquirir cocaína

 

Heroína
A situação mundial
O cultivo de papoula volta a crescer no mundo
Total de plantações:
2000 - 222 mil hectares
2001 - 144 mil hectares
2002 - 180 mil hectares
Heroína e Ópio
2000 - 470 toneladas
2001 - 160 toneladas
2002 - 450 toneladas
Os grandes consumidores*
Usuários de drogas ilícitas no mundo - 200 milhões
Maconha - 163 milhões
Anfetaminas - 34 milhões
Cocaína - 14 milhões
Opiáceos - 15 milhões
*O uso de uma substância não elimina o de outra

 

As rotas do tráfico
Brasil
O país é uma das principais rotas do tráfico da cocaína vinda da região andina, servindo de corredor para os EUA e para a Europa Ocidental. Mas não é só de corredor que o Brasil serve nessa rede internacional: os grandes produtores compram no país os produtos químicos necessários para a transformação da folha de coca em cocaína
México
Principal rota de entrada de maconha para os EUA, tem papel fundamental como corredor para a cocaína. Sua fronteira terrestre com o país facilita a criação de mais corredores.
Leste Europeu e Bálcãs
Porta de entrada da heroína e do ópio vindos da Ásia

 

O triângulo dourado (Mianmar, Laos e Tailândia) e a crescente dourada (Afeganistão e Paquistão)
A pouca fiscalização de fronteiras nessas principais regiões produtoras de heroína e ópio auxilia muito o tráfico
Afeganistão
- 76% da produção mundial
O fim do regime islâmico do Taleban, em 2002, liberou o plantio de papoula, antes reprimido. A falta de um poder central forte facilita o tráfico
Laos
- 2% da produção mundial
Cerca de 40 mil famílias tiram a maior parte de seu sustento desse plantio ilegal, que ocupa 12 mil hectares no país
Mianmar
- 18% da produção mundial
A produção da papoula no país teve uma redução de 26%. Grande parte disso graças a políticas do governo de substituição do cultivo



Oficiais colombianos analisam papoula de plantação ilegal durante
repressão à produção de heroína no país


Fonte: Revista Galileu Especial nº3 - Agosto/2003







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