Loucuras dentro da lei

Um longo passado de consumo e de abuso fazem do cigarro e do álcool drogas aceitas pela civilização ocidental, apesar de seus efeitos nocivos no corpo humano

Olhe em torno. Se você não estiver sozinho, é provável que alguém esteja fumando ou bebendo algo alcoólico a sua volta. Não é por menos: hoje, ambos os hábitos estão dentro da lei e são considerados "naturais" por muita gente.
Fumar está sendo cada vez mais proibido em lugares públicos, mas o ato em si continua perfeitamente legal. No caso do álcool, com a exceção de alguns países que seguem leis islâmicas estritas de proibição a bebidas alcoólicas, beber também não é contra a lei na maior parte do planeta. 
No entanto, tabagismo e alcoolismo são considerados não apenas doenças, mas verdadeiras epidemias globais. São drogas que causam dependência física: quanto mais alguém as usa, mais quer continuar usando, e em maior quantidade. 
A maior ironia sobre o uso do tabaco diz respeito à justificativa que os seus primeiros usuários deram para fumar em paz. As plantas da espécie conhecida pelo nome científico Nicotiana tabacum eram enroladas e fumadas porque teriam virtudes "medicinais", tanto para índios americanos que iniciaram o hábito, como para europeus que o introduziram no resto do mundo. 
Hoje se sabe que é justamente o contrário. Fumar faz mal tanto à saúde de indivíduos como das populações. É uma droga que vicia e mata lentamente, embora seu consumo seja legal como resultado de sua história. 
Depois que os europeus, liderados pelo navegador genovês Cristóvão Colombo, chegaram às Américas, várias plantas de importância global foram levadas para os demais continentes. Antes da expedição de Colombo, por exemplo, não havia tomate na Europa. E as batatas fritas só foram inventadas depois que foram levadas ao Velho Mundo, assim como a mandioca só se tornaria a dieta básica dos africanos depois que foi importada da América. 

Moda Européia

O mesmo vale para o tabaco. Ninguém fumava na Europa antes da era das grandes navegações. No século 16, os europeus se esforçaram para aprender como fumar ou cheirar tabaco (na forma de rapé). Os franceses foram alguns dos primeiros entusiastas. O gênero Nicotiana ao qual pertencem as várias espécies de tabaco - como a mais selvagem Nicotiana rustica - homenageia o embaixador francês em Lisboa, Jean Nicot, que teria sido em pioneiro a enviar sementes da planta para o seu país, por volta de 1550.
O diplomata francês também teve ser nome emprestado para um substância presente no tabaco, a nicotina, responsável por boa parte dos problemas que o hábito de fumar causa, pois ela provoca dependência ao agir no organismo.
O vício sempre esteve à frente das pesquisas que procuravam desmascarar seus efeitos. Já no século 19 se especulava que fumar causaria câncer, notadamante na boca. Mas só na segunda metade do século 20 que as provas científicas se acumulariam de modo incontestável, ligando o hábito de fumar principalmente ao câncer do pulmão. Essas provas sempre foram "contestadas" pelos interessados em perpetuar o tabagismo - os agricultores e os fabricantes de cigarros, charutos, fumo de rolo, rapé, etc.
Além do câncer, o cigarro causa outros efeitos nocivos ao organismo. Com ele, o pulmão tem de trabalhar mais intensamente. É produzido mais muco, que se torna em caldo de cultura para vírus e bactérias, aumentando a suscetibilidade a resfriados, bronquites e outras doenças respiratórias. A fumaça também enfraquece a ação de células que removem partículas estranhas das alvéolos pulmonares. 
O coração também tem que trabalhar mais por causa da fumaça nos pulmões. O batimento cardíaco pode aumentar em até 30% durante os primeiros dez minutos depois que a pessoa começa a fumar. E o monóxido de carbono, o mesmo gás incolor do escapamento dos automóveis, entra na corrente sanguínea e faz com que a pessoa receba menos oxigênio em órgãos vitais, como o cérebro. Quem fuma muito pode ter a capacidade de transporte de oxigênio do sangue diminuída em 15%.

Dificuldade em tragar

Fumar nunca foi algo fácil para principiantes. A idéia de aspirar a fumaça de um cilindro de papel com folhas queimando dentro não é de fato muito natural, como miríades de adolescentes aprenderam ao longo dos anos. Mas a pressão social para fazê-lo passou a ser muito grande em determinados momentos da história humana. Fumar se tornou um hábito chique e, ao mesmo tempo, coisa de homem, de macho, ou de mulheres modernas, emancipadas.
A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) deu impulso ao hábito. Cigarros aliviavam a tensão dos combatentes e dos milhões de civis pegos no fogo cruzado. Cigarros viraram moeda de troca. Soldados, especialmente os americanos, recebiam cigarros como parte normal de suas rações (oficiais também recebiam garrafas de uísque, ajudando a disseminar outro hábito viciante).
A indústria cultural acompanhou a tendência. Detetives durões como os vividos por Humphrey Borgat no cinema, ou mulheres desejáveis como Rita Hayworth tinham um copo de uísque em uma mão e um cigarro na outra.
Fumar, assim como beber alucinadamente, é um suicídio lento. Nesses dois casos, o pulmão e o fígado, respectivamente, vão sendo castigados até o momento em que pedem água.
Os dados mostram que o risco de desenvolver um câncer ligado ao tabaco - no pulmão, mas também na bexiga e no esôfago, por exemplo - aumenta de acordo como o número de cigarros fumados por dia e a duração do hábito. O conteúdo de alcatrão no cigarro também tem seu papel. Qual a dimensão básica do risco? Um fumante tem 20 a 30 vezes mais chance de morrer de câncer do pulmão do que um não-fumante. 

Álcool e Deuses

O álcool etílico tem um pedigree mais nobre, embora cause também enormes problemas de saúde. Se o tabaco é um vício relativamente recente na maior parte do planeta, o álcool é antiquíssimo - tão antigo quanto a própria civilização. 
Há milhares de anos homens e mulheres se embebedam com os produtos da fermentação e da destilação do álcool. Está na Bíblia dos cristãos e judeus, no livro do Gênesis, que Noé bebeu vinho e ficou de porre, terminando vergonhosamente pelado em sua tenda. Depois disso, ele teria se redimido da bebedeira com a famosa arca cheia dos animais que deveriam sobreviver a um dilúvio.
Noé não seria classificado de alcoólatra pelo seu mero porre e ressaca no dia seguinte. Para isso, seria preciso que o hábito continuasse sem controle e afetasse sua vida cotidiana, impedindo a pessoa de trabalhar e manter relações com os demais. Em casos extremos, o viciado em álcool sem acesso à bebida, tem alucinações, tremores e suores semelhantes às de um viciado em ópio. 
O efeito do álcool está diretamente relacionado com a concentração no sangue. Em uma pessoa de cerca de 75 Kg, uma concentração de 0,03% de álcool no sangue (provocada por um copo de vinho, por exemplo) já causa uma sensação de relaxamento. Triplicando-se a dose (0,09% de álcool no sangue), a fala e o controle dos músculos são afetados. 
Com 0,12%, a capacidade de raciocínio lógico é reduzida, e desaparecem as inibições e o autocontrole. Aos 0,18% a pessoa tem todo seu comportamento afetado, com pernas bambas e dificuldade em ficar acordada. Se o nível de álcool atinge 0,5% do volume do sangue, a pessoa entra em coma profundo, com alto risco de morte. Finalmente, se o índice chega a 1%, a parte do cérebro que controla a respiração deixa de funcionar, levando à morte. 

Processo Ancestral

Bebidas alcoólicas são comuns sob o ponto de vista histórico porque a base do processo é um fenômeno natural. Açúcares, estejam eles em frutas, seivas, mel ou cereais, fermentam - isto é, reações químicas produzem álcool etílico, tendo como resultado final o que se chama de "vinho" ou de "cerveja". Foi assim que o ser humano descobriu a embriaguez: acidentalmente. Aquele pote cheio de suco de uva que, de repente, ficou mais interessante...
O próximo passo foi decididamente humano: a invenção de uma técnica para destilar o fermentado, aumentando em muito a concentração de álcool. É por isso que uma cerveja pode ter 4,5% de álcool e um vinho chega a 13,5% enquanto uma vodka, gin, rum ou cachaça pode ultrapassar a casa dos 40%. 
Os efeitos do álcool tinham algo de religioso, de místico e mesmo de medicinal na história antiga. Por isso, bebidas fizeram e fazem parte de cerimônias de iniciação, de ritos de passagem, de casamentos. O casal que hoje brinda com champagne é um herdeiro direto do homem e da mulher das cavernas que tomavam sua proto-cerveja, seu proto-vinho. 

Bebida Medicinal 

Surgidas as primeiras civilizações, também aparece a mística do álcool como algo medicinal, como aconteceu na antiga Mesopotâmia - apesar de simultaneamente, e de modo bem prático, os antigos babilônios, sumérios e assírios também se preocuparem com os efeitos da embriaguez e legislarem a respeito. 
No código de leis do rei Hamurabi já havia regulamentos sobre o ato de beber - mas menos restritivos que a famosa "Lei Seca" americana, o período entre as guerras mundiais durante o qual a fabricação e venda de bebidas alcoólicas foram proibidas nos EUA, gerando, como subproduto indesejável, o gangsterismo de gente como o bandido Al Capone. 
Apesar das restrições eventuais, o vinho se espalhou pelo mundo. O deus grego Dionísio, chamado de Baco pelos romanos, personificava o vinho - e, apesar dessa fama pagã, o vinho tinto passou a simbolizar o sangue de Cristo na liturgia cristã, além dos clássicos bacanais, as orgias de sexo e vinho dos adoradores de Baco. 
Essas e outras múltiplas utilizações do álcool etílico tornaram seu consumo socialmente aceitável, senão desejado. E tornaram as sociedades mais frágeis aos abusos. Destilados ou fermentados baratos foram usados como mercadoria valiosa para aliciar populações vulneráveis, como índios americanos (incluindo os brasileiros), ou africanos. O álcool literalmente dissolveu culturas em várias partes do Terceiro Mundo. Cachaça brasileira, por exemplo, era mercadoria para compra de escravos na África.


Fonte: Revista Galileu Especial nº3 - Agosto/2003







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