56% dos usuários de crack morrem assassinados

O homicídio é a principal forma de mortalidade entre os usuários de crack.

Segundo pesquisa desenvolvida pelo psiquiatra Marcelo Ribeiro de Araújo, 56,5% dos usuários são assassinados, contra apenas 10% dos que morrem por overdose. Os resultados apontam que o crack mata muito mais por causa do contexto social em que o usuário está inserido do que pelos efeitos destrutivos da droga no organismo. “O tráfico é o grande responsável pela morte relacionada ao crack”, diz Araújo.

Araújo avaliou a mortalidade de usuários de crack com base no acompanhamento de 131 pessoas (dos quais 116 eram homens) que passaram entre 1992 e 1994 pela Clínica de Desintoxicação em Álcool e Drogas do Hospital Geral de Taipas, na zona norte da cidade. Em 1998 e 1999 procurou estes antigos pacientes ou seus familiares para uma nova avaliação. Das 124 pessoas encontradas, 23 tinham morrido. Com base nesse histórico, elaborou as estatísticas para sua tese de mestrado, concluída recentemente.

O contexto social de exclusão, em que esses usuários estavam inseridos, é apontado como o maior fator de mortalidade. A Aids aparece como segundo fator gerador de mortes, com 26,1%. “É aquele velho discurso de que precisamos diminuir a exclusão social”, constata Araújo. Ele explica que esta pesquisa, inédita, segundo ele, ajuda a elaborar estratégias de combate ao uso de drogas ou recuperação de drogados.

“Não adianta reprimir pura e simplesmente”, defende. Araújo diz que esse modelo não funciona, porque o crack não atua só na dependência biológica. “O usuário organiza um estilo de vida em torno dessa substância. Por isso temos que atuar na educação e criar opções sociais e de lazer para essas pessoas.”

Para ele, a solução na recuperação de dependentes é combinar atendimento clínico, psicoterápico e de terapia ocupacional, dando opções de lazer e atividades que ajudem o paciente a se reinserir na sociedade.

A pesquisa também mostra que 16 ex-pacientes foram presos. A notícia boa é que cerca de 40% dos entrevistados largaram as drogas e mais de 70% estavam empregados em 1999.

Projeto Quixote atua no contexto social

Antes de a pesquisa ser concluída, pessoas ligadas ao Projeto Quixote, que oferece atividades de lazer e assistência clínica e psicoterápica a jovens em situação de risco social desde 1996, já apostavam em caminhos alternativos de recuperação. “Não apostamos em respostas médicas, mas criamos outro circuito de sociabilidade para esses jovens”, diz a coordenadora e psiquiatra Graziela Bedoian.

Graziela explica que, para livrar os jovens das drogas, é preciso quebrar o circuito de violência em que ele está inserido e recuperar sua auto-estima.

“Ele vive um contexto em que as relações de poder, amizade, emprego e proteção estão ligadas à droga e precisamos dar a ele outros valores.”

“Nunca precisamos internar um jovem por causa de drogas e nenhuma das mortes que ficamos sabendo foi causada por overdose, mas por brigas”, diz Graziela.

Já passaram pela entidade cerca de 1,5 mil jovens, dos quais 67% já usaram algum tipo de droga – o crack é a terceira substância mais citada.

Fonte: Jornal da Tarde – Geral