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Por que amor sem limites pode gerar filhos drogados   Notícias sobre drogas e alcool - Site Antidrogas

A intenção dos pais é a melhor possível: criar os filhos com o poder da livre escolha. Na escola, desde que seja bom aluno (e com a mensalidade em dia), a liberdade continua. Assim, vivendo sem limites, o adolescente pode se tornar mais uma vítima da droga. A análise é do psicoterapeuta Içami Tiba, que aborda o problema do jovem viciado no livro “Anjos Caídos”.

Especialista no campo da adolescência e conflitos familiares há trinta anos, o psicoterapeuta de jovens e conferencista Içami Tiba lançou este mês o livro “Anjos Caídos – Como prevenir e eliminar as drogas na vida do adolescente” (Editora Gente).

Autor de uma série de livros especializados, nesta entrevista exclusiva para o Jornal da Tarde, o professor Tiba ensina como pais e educadores devem se unir no combate e, principalmente, na prevenção da grande vilã deste final de milênio: a droga na adolescência. O Dr Tiba é membro da equipe técnica da Associação Parceria Contra Drogas, para a qual será destinado o direito autoral de seu livro. “Onde reina a ignorância sobram preconceitos e condutas inadequadas”, afirma o conceituado psicoterapeuta.

Jornal da Tarde – O senhor afirma que existem 98 milhões de brasileiros afetados negativamente pelo abuso de drogas...

Dr. Içami Tiba - Dificilmente um drogado deixa de afetar a família. Eles acabam comprometendo não só a si próprios como a seus familiares, além das outras vítimas que ele faz em seu caminho, na escola, no clube. Esse raciocínio que abrange quase a metade da população brasileira é de fato isso mesmo. Uma escola que possua um traficante, ou um mini-traficante, já está vivenciando o problema. Quando o drogado diz “a vida é minha, faço dela o que eu quiser”, é a maior mentira. A vida é dele, mas sempre afeta no mínimo, o pai ou a mãe.

Quais são os sinais em casa?

Um forte componente está ligado à educação permissiva e tolerante. Isso favorece que os filhos não tenham compromissos: “eu tenho vontade, eu posso, pois meus pais me sustentam nessa vontade”. N adolescência ele ganha as ruas e convive com a família, então faz fora de casa o que estava acostumado a fazer em casa. Só que agora sem ajuda dos pais. Nas ruas, ele não está preocupado com responsabilidade, pois não possui esse antecedente em sua formação. O uso da droga estará regido pelo princípio da vontade.

E a família?

Normalmente, por mais bem constituída que ela seja, isso não impede que o filho experimente drogas. Porém a família desestruturada não segura a barra. Na família bem constituída há uma quantidade menor de experimentadores e o número de recuperados é maior.

Em família de pais separados, ou aonde há caso de viuvez, o número de drogados é maior?

Não é o fato de serem separados, mas o fato de serem mal separados, ou mal casados, ou mal viventes. A pessoa que vive mal desde pequena começa a desacreditar dos relacionamentos humanos. Se uma família é bem separada, o pai desquitou, mas não “despaizou”, ele pode até ter outra família, mas resolveu as questões da ex-mulher, que pode também ter constituído nova família, os filhos crescem bem. Hoje a separação dos pais já não é mais uma marca trágica na vida dos filhos.

O crack chegou à classe média?

Infelizmente, sim. O crack é uma seqüência do pessoal da fumaça. É bastante comum ver pessoas que pulam da maconha para o crack. No nível de escalada é raro ver um pulo do cigarro para o crack. Quem da cocaína vai para o crack, em geral, é por falta de dinheiro. Mas acabam gastando mais, porque o efeito é mais efêmero e vicia mais.

E a merla?

A merla existe há três anos, mas ainda está circunscrita à região de Brasília. A maioria de seus usuários são rapazes. É um subproduto do crack com substâncias ainda mais nocivas. A merla é a pasta básica da cocaína adicionada a substâncias como benzina, querosene, água de bateria de carro... Tem uma coloração amarelo amarronzada e cheira forte. É colocada em cima do cigarro ou da maconha e logo o efeito das outras drogas é potencializado. É altamente perigosa, quem entra na merla dificilmente consegue se recuperar. Em Brasília, a juventude está usando merla à vontade.


“Um sinal de que o filho está usando drogas é que ele
fica muito agressivo com a mãe. Ele a agride
porque ela é a primeira que nota as mudanças.
Começou a agredir a mãe e mudar o comportamento,
olho vivo”


Quais os disfarces do adolescente que consome drogas?

São disfarces físicos e comportamentais. Os primeiros são elementos que combatem os sinais que a droga provoca, como perfumes, balas. Chiclete contra a secura de boca. Colírio para o olho vermelho. Começam a usar coisas que nunca usaram antes, como ventiladores, bom-ar, incenso no quarto, para tirar a “marofa”: fumaça da maconha. Na questão dos disfarces comportamentais, eles começam a testar os pais. Quando os pais dão um aperto, defendem a idéia do uso da droga. No começo, nunca confessam que estão usando. Só vão dizer depois de um ano, dois, quando já dançaram. Dão respostas do estilo: “Essa maconha é do meu amigo” – sempre dizendo que é dos outros. Ou: “Você bebe, por que não posso fumar maconha?” Os pais ficam desarmados com o questionamento do filho, tipo: “Você confia mais nele do que em mim, seu filho?” Outro sinal é que o adolescente fica muito agressivo com a mãe. Ela é a primeira que ele agride, pois ela, em geral, é a primeira que nota as mudanças. Começou a agredir a mãe e a mudar o comportamento, olho vivo.

Como abordar a questão da droga sem falsos moralismos? Somos da geração baby-boomers e até os presidentes Fernando Henrique e Bill Clinton confessaram ter experimentado maconha.

Há trinta anos havia uma bandeira que unia as pessoas que usavam maconha. Havia uma certa justificativa. Hoje, o uso da maconha é totalmente diferente. É simplesmente para satisfazer o indivíduo, além do que a maconha de hoje é muito mais forte. O simples fato de se fumar, se você tem uma bandeira, modifica o uso. É caso das religiões que usam drogas alucinógenas porque está inscrita que o valor mais forte é a religião em si. Quando a droga é usada para o bel-prazer é altamente viciante. A maconha tem um processo progressivo. No começo é por farra, depois nos finais de semana e, daqui a pouco, todos os dias.

E as gangues?

Venho observando a violência escolar crescer em São Paulo. Colégios bons são dominados por gangues. Elas dominam territórios e muitas são intocáveis. Muitas vezes a diretoria nem sabe que elas existem. Os componentes que propiciam sua formação são três: 1) Uso de droga e briga de território. 2) A falta de conseqüência pelos atos dos jovens. 3) A facilidade em se obter armas. Se a escola não está atenta, uma gangue surgirá lá dentro.

O que sugere?

Todo agrupamento humano necessita de uma organização. Sem um bom coordenador, sub-coordenadores surgirão. Sugiro que criemos uma instância policial que tenha autoridade para que as gangues paguem por seus atos com serviços comunitários. Se o jovem feriu alguém, vai prestar serviços num hospital. Se pixou parede, vai deixa-la limpa. É importante que o jovem arque com o que faz. Não adianta o pai querer pagar multa, porque não está educando, está, isto sim, prejudicando o filho. A escola está impotente perante as gangues porque não existe lei que a ajude nisso.

O senhor diz que a religiosidade é um elemento fundamental...

É a religiosidade onde cada um dos membros da família sente que pertence àquela comunidade chamada família. Ou seja, não adianta fazer uma coisa boa só para mim. Se for ruim para a família não posso fazer. Se isso não é aprendido em casa, ele vai aprender na escola. Quando a classe em si tem um valor maior que o indivíduo, já está sendo exercida uma religiosidade, uma hierarquia de valores onde o jovem não se coloca na ponta superior.

Isso acontece com o drogado?

O drogado se coloca no ápice, ele fala: “a vida é minha, faço dela o que eu quiser”, independentemente de estar machucando a família.

E o mea culpa dos pais?

O mea culpa dos pais só favorece o uso das drogas. Não existe quem não tenha errado, mas isso não justifica tolerância aos erros do filho. Não se pode repousar no mea culpa e deixar o filho fazer o que quer. Chamo isso de erros de amor.

E a autoridade dos pais?

Os pais têm autoridade sim. Não é porque o pai fuma que vai deixar o filho. Dizer “sou um fumante, não consigo largar, então, vou deixar meu filho fumar”, está errado.

Há uma incidência maior de viciados em famílias de fumantes?

O risco existe para adolescentes de família de fumantes e não-fumantes. Quando um dos dois fuma o risco é maior. Quando os dois fumam por prazer, é quase certo. Com esses modelos, o jovem, internamente, está se preparando para fumar.

E o papel da escola?
A escola é segunda chance que o individuo tem para se tornar mais saudável como ser humano. Se a educação em casa é cheia de erros de amor, a escola é a oportunidade para ele se recuperar. Mas também a escola perdeu muito de sua autoridade e se tornou, como a família, bastante permissiva e tolerante. É no caso das escolas particulares, quem paga – o pai do aluno – é o patrão. Em termos psicopedagógicos, o valor da escola é a nota. Então, aluno que tira boa nota e o pai é bom pagante, pode fazer o que quiser. Com isso a escola capacita os alunos profissionalmente, mas não os capacita para a vida. É importante ensinar respeito, pois o dinheiro não pode ficar acima do individuo.

O que a escola deve fazer para se capacitar?

Acredito que a escola tenha de se atualizar muito e ensinar cidadania e religiosidade – não uma seita religiosa. A escola tem que entender que o aluno que picha está faltando com a cidadania. No meu livro “Ensinar Aprendendo” falo sobre a educação a seis mãos: escola, pai e mãe. E seis mãos porque tem que haver a mão do amor e mão da razão. Os pais em geral dão muito amor, mas não colocam limites. A escola desenvolve o raciocínio, mas não desenvolve o relacionamento humano. Quando a escola percebe o problema de droga de um aluno tem de junto aos pais, procurar uma saída. Não adianta expulsar, o pai tirar filho da escola. O que resolve é enfrentar o problema. A escola tem essa oportunidade, pois está junto ao jovem em áreas que a família não chega, pois a convivência familiar na adolescência é muito restrita.

O senhor afirma que o adolescente ser um esportista não lhe garante imunidade ao vício...

Porque existem esportes que são mais para curtir, como o surfe, skate e capoeira. A maconha em pequena quantidade exacerba essa curtição. E, todos os esportes há aqueles que usam droga numa porcentagem que varia de 5% a 10%. Mas naqueles esportes que mencionei a incidência chega a 30% ou mais dos praticantes e, por mais surpreendente que seja, no pólo aquático inclusive. No caso do surfe e do skate chega a quase 50%. É uma ilusão dos pais achar que vão combater a droga com esporte e que filho esportista não vai usar droga.

E o jiu-jitsu?

É um esporte anticidadania. Foi feito um levantamento no Rio de Janeiro em 200 academias, somente 15% eram federadas, as outras eram só para preparar jovens para briga, são os chamados pit-boys, em alusão ao pit-bull.

A criança que inicia atividade esportiva desde cedo tem menos chance de se ligar às drogas?

Essa é outra surpresa. As pessoas que usam droga parecem desconsiderar o que acontece na infância. No caso da natação, que é um esporte que os médicos recomendam, quando o garoto chega à puberdade, na maioria das vezes ele larga, pois não quer mais fazer coisas impostas pelos pais. Mas os esportes competitivos podem favorecer muito o lado da formação humana e do cidadão e fazer com que o jovem não use droga.

Como prevenir que o jovem siga o caminho da droga?

Como esse caminho está ligado em usufruir o prazer sem arcar com as conseqüências, a família tem que educar baseando-se em coerência, constância e conseqüência. Os pais têm de criar contratos de conseqüência. Ou seja: produziu bem, vai receber pelo esforço feito. Não fez, sofre a conseqüência por não ter feito.Não é castigo, pois a conseqüência é a própria pessoa que está produzindo. Castigo é o outro que dá. Dessa maneira, o adolescente vai perceber o prejuízo que está tendo.

Mas com essa pressão ele não pode fugir para a rua?

Pode, mas vai sentir as conseqüências por ter fugido. Infelizmente esse sistema não existe na família brasileira.

E se a filha se apaixona por um usuário?

Não dá para garantir o futuro dessa filha. As pesquisas mostram que quando isso acontece, ela acaba usando drogas. Com um agravante: as mulheres são menos ousadas para experimentar, mas uma vez viciadas são mais persistentes no vício. O número de drogadas é menor que o dos homens, mas o número de viciadas é maior. Sua recuperação é muito mais complicada que a do drogado e elas têm recaídas freqüentes. O índice de suicídio por causa de drogas entre elas é maior do que entre os homens.

O que fazer?

Os pais têm de interferir drasticamente. Trazer o drogado para casa, avisar os pais dos amigos do seu filho que usa droga e saber o que eles estão tentando fazer.

Como é que os pais que fumam maconha ou cheiram devem agir em relação aos filhos devem dizer: “vamos fumar juntos?”

Jamais. É uma total irresponsabilidade da parte dos pais. Os pais podem pensar que maconha, cocaína não faz mal, mas eles estão em estágios diferentes da vida. Para o filho que está em fase de formação, o prejuízo é muito maior. Todo pai que fala assim é muito mais para amenizar o próprio vício do que propriamente por querer bem ao filho. Um pai que ama seu filho não quer ver seu filho drogado. Se o pai continua usando droga ocasionalmente, ele é um viciado igual aos outro, só que numa dose menor.

O que fazer quando o filho diz: “Não sou viciado. Paro quando quiser”

É a maior besteira que existe. Chama-se onipotência provocada pela droga. Quando ele acha que domina a droga, ele está no caminho de se viciar. Ele não vai querer parar enquanto estiver pensando assim. E quando ele quiser parar de fato não vai conseguir. Eles falam isso da boca para fora, pois eles mesmos não acreditam.

Quando está comprovado que o jovem está viciado, o que fazer?

O vício é uma doença e tem de ser tratado com especialistas que cuidem de vício e adolescência. Não adianta ser especialista só de vício, tem de ser especializado em vício na adolescência. O adolescente é diferente de um paciente adulto. Por mais que não queira, todo viciado tem de ser encaminhado para um tratamento.

Se os pais suspeitam que o filho está começando a fumar maconha, esse já é o momento para fazer um tratamento?

Sim, é preciso se preparar. O profissional vai orientar o que os pais devem fazer. Se o filho está usando uma droga, os pais têm de estar capacitados para saber dos efeitos e como proceder para enfrentar um inimigo que desconhecem. E devem dizer ao filho: “Estou suspeitando, não entendo disso, vou procurar uma pessoa que entenda”.Tem pai que acha que se puser o filho de castigo acaba com o problema. Como? Se nunca viram as drogas e não sabem como age? Pais com esse comportamento são altamente prejudiciais, pois passam a idéia para o filho que podem controlar a droga. O filho pensa: “Se eles que não entendem vão conseguir controlar, então por que eu que entendo a droga não vou conseguir?” Esses pais passam a falsa idéia de poder sobre a droga e o adolescente se vicia porque acha que tem poder sobre ela.

Para onde devem se dirigir às pessoas que não podem pagar especialistas?

Como o problema é universal, a própria sociedade vem organizando grupos de Auto-ajuda coordenados por ex-drogados ou pessoas que estiveram envolvidas com drogados. Todas as cidades têm grupos como AE (Amor Exigente) e NA (Narcóticos Anônimos). Em geral esses grupos se reúnem em igrejas.

E como nós, mães e pais, devemos agir?

Quando seu filho estiver num grupo onde alguém consume drogas, ele está muito próximo dela. Se não está consumindo, em breve poderá começar. Hoje não se isola o drogado. Avisam-se os pais para formar uma união entre eles. Os pais unidos chegam àquela turma – não no sentido de identificar quem está usando – mas se reunindo, estudando a droga. Isso se chama prevenção em rede. Vão ter pais contra. Para outros, tanto faz. Mas muitos vão agradecer.

Entrevista concedida ao “Jornal da Tarde” –– São Paulo – 09 de Maio de 1999






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