Artigos

Mudança de comportamento  Artigos sobre drogas e alcool - Site Antidrogas


Os hábitos dos boêmios da capital federal estão mudando. A lei de tolerância zero à combinação álcool e direção, em vigor desde 20 de junho, estão fazendo com que os notívagos pensem em formas de respeitá-la sem abrir mão da cervejinha. São várias as formas para tanto. O Correio encontrou pessoas que contratam serviço de transporte, apelam para a boa vontade da irmã, aumentam o horário de trabalho do motorista da família e até mesmo pedem uma força à amiga de todas as horas — a própria mãe.

Para quem não pode contar com nenhuma dessas opções, alguns empresários da cidade aproveitaram a nova oportunidade de negócio e já começaram a distribuir panfletos com a propaganda de um novo serviço. Proprietários de bares e restaurantes nas asas Norte e Sul fecharam convênio com uma empresa que oferece motoristas para levar em casa àqueles que não querem abrir mão da bebida e também não estão dispostos a desrespeitar a legislação.

O preço do serviço, disponível para moradores de todo o DF, varia de R$ 10 a R$ 30. O transporte do cliente é feito em seu próprio carro, escoltado por um motociclista. Depois de deixar o cliente em casa, o motorista retorna de carona na moto. O proprietário da empresa responsável pela chamada "Escolta Amiga" garante que a idéia já se tornou um sucesso. "A procura de bares e restaurantes pelo serviço tem sido muito grande. Vamos estender o número de estabelecimentos atendidos", garante.

Considerado uma droga lícita, o álcool está presente em lares brasileiros e faz parte do cotidiano familiar. Para a professora do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB) Suely Guimarães, a mudança de comportamentos arraigados na cultura nacional é mais complicada do que parece. "O costume de beber e dirigir diminuirá agora no começo da legislação por conta da rigidez na fiscalização. Mas se o controle deixar de ser feito, os velhos hábitos retornarão", explica.

A psicóloga acredita que somente em longo prazo o costume de beber e pegar o carro se transformará. "Uma campanha de educação e conscientização das crianças hoje pode contribuir para a mudança de cultura, mas em curto prazo é muito difícil. Se não houver um trabalho intensivo de preparação das futuras gerações, todo esse esforço será inócuo", avalia.

Histórias de boteco
A "irmãtorista" responsável
Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press

As saídas entre irmãos se tornaram ainda mais freqüentes com a lei seca. O analista de sistemas Daniel Matos, 24 anos, e a professora Uiara Matos, 26, fazem questão de dizer que os programas em família sempre foram comuns. No entanto, no último mês, as saídas ganharam um novo componente, Uiara é a responsável oficial pelo transporte do irmão no final da noite que, em troca, paga as despesas da "irmãtorista". A proposta partiu de Daniel, diante da constatação de que a irmã, apesar de gostar, não fazia questão de ingerir bebidas alcoólicas em festas, shows e bares.

O analista de sistemas admite que o comportamento da irmã não é compartilhado. "Não consigo ir para a balada e ficar sem beber, é bom para entrar no clima da noite. Vi que ela não gostava tanto e resolvi fazer a proposta. Mas sinceramente não sei ainda quem está ganhando com essa história", conta. Pelo menos três vezes na semana, o ritual se repete. Os irmãos, que têm os mesmos gostos musicais, decidem o destino e partem rumo ao local escolhido — sempre no carro dele. No final da noite, Daniel paga a conta da irmã e ela assume o volante, garantindo a segurança de todos na volta para casa.

Uiara já se acostumou em servir de amiga da vez também para os amigos e não se importa com a função assumida em definitivo após a nova lei. "Não tenho problemas em sair e me manter sóbria. Antes da lei seria impensável um homem admitir que não estava bem e pedir ajuda. No dia em que eu quiser beber, vamos voltar de táxi", sentencia.

Como muitas das casas noturnas da cidade não cobram a entrada de mulheres, Uiara fez um acordo com o irmão. Além de ter as despesas pagas, Daniel se comprometeu a comprar um abadá para o carnaval fora de época de Brasília. Daniel aceitou a reivindicação e vai pagar.

A turma do transporte alternativo
Kleber Lima/CB/D.A Press

O consultor em relações internacionais Sebastião Ferreira Júnior, 31 anos, adora a vida noturna da cidade. Não dispensa um programa com os amigos. Bares e boates são os locais mais freqüentados por ele e os amigos Marcos Vinícius Spíndola, 30, e José Ricardo Matos, 35. Após a lei seca, a idéia de assumir o risco de beber e dirigir fez com que a turma optasse por uma saída mais conveniente e confortável. Pelo menos duas vezes por semana, os amigos contratam um serviço de van para transitar pela noite de Brasília.

O motorista é um antigo conhecido dos rapazes e oferece o serviço completo com direito a mordomias, como televisão, aparelho de DVD e de ar condicionado. No pacote, a facilidade de ser apanhado em casa, poder fazer um passeio pelos bares e boates preferidos da turma e, ao final da noite, ser levado de volta ao lar com segurança. Todo esse conforto tem seu preço — R$ 50 por pessoa. "Temos a liberdade de poder ir para onde quisermos sem nos preocupar com blitzes. Fazemos um roteiro e vamos passando por todos os lugares para escolher a melhor opção. Depois, o motorista nos deixa na porta de casa", diz Sebastião.

Apesar de a iniciativa mostrar muitas vantagens, os amigos relatam algumas situações que consideram embaraçosas. "Quando chegamos à porta da boate, as pessoas ficam olhando como se fôssemos um bando de filhinhos da mamãe, mas não nos importamos porque foi um jeito seguro de continuarmos com as nossas baladas", conta Marcos Vinícius. Para quem acha o preço salgado, Sebastião apresenta números que derrubam o argumento. "Qualquer batida de pára-choque custa R$ 300 e isso acontece direto na noite. O valor de uma multa é R$ 957. Então, acredito que estamos fazendo uma grande economia, deixamos de correr riscos e, o melhor de tudo, com conforto", emenda.

Tempo extra ao volante
Zuleika de Souza/CB/D.A Press
Maurício da Silva agora leva o patrão aos compromissos à noite

A legislação que proíbe o consumo de álcool por condutores também trouxe mudanças para os profissionais da área de transporte. É o caso do motorista particular Maurício Luiz da Silva, 47 anos, que trabalha há oito anos em uma casa no Lago Sul. Além de transportar os integrantes da família para compromissos pessoais e profissionais, Maurício também se responsabiliza pelo pagamento de contas em bancos, serviços do escritório de advocacia do patrão e, algumas vezes, das compras para a casa. Desde a entrada em vigor da Lei Federal nº 11.705/08, ele acumulou uma nova função: acompanhar o chefe em compromissos à noite.

Logo após a sanção da lei, em 19 de junho, o patrão comentou com o motorista que passaria a precisar dos seus serviços na parte da noite. Maurício agora é responsável também por levar o chefe em compromissos sociais após as 18h, como coquetéis, jantares de negócios e aniversários. Engana-se quem pensa que o aumento da carga de serviço incomoda o motorista. "Tem um lado bom em toda essa história de eventualmente trabalhar mais. Sempre rola uma graninha a mais no final do mês, que ajuda no orçamento da família", afirma.

Para quem sustenta a mulher e os filhos com o emprego de motorista profissional, o texto da lei, embora rígido, veio em boa hora. "O mais importante é manter o trânsito seguro e, por conta disso, reduzir o número de pessoas vítimas de acidentes", defende. Quando quer beber depois do tradicional futebol com os amigos no Recanto das Emas, onde mora com a família, Maurício também pede o auxílio de alguém para assumir a direção. "Quando bebo, acabo recorrendo à minha mulher ou filha. Aliás, minha mulher ficou bastante feliz com essas mudanças. Ela acha que eu vou parar de beber depois do meu futebol", comenta, bem-humorado.

Protetora em todas as horas
Kleber Lima/CB/D.A Press

A funcionária pública Evelyn Hackbart, 27 anos, sempre foi notívaga. O programa favorito da moça: sentar com os amigos em um barzinho na Asa Sul, local em que foi criada e onde os pais ainda vivem. Depois do casamento, ela e o marido se mudaram para Águas Claras. Antes da lei, Evelyn saía da cidade quatro vezes por semana rumo ao Plano Piloto para o encontro com os amigos. Normalmente, voltava para casa dirigindo.

Agora, quando sente vontade de beber, Evelyn tem que colocar em prática uma logística nada fácil. Depois de sair do trabalho, ela deixa o carro em casa e vai de metrô para a estação da 108 Sul, onde a mãe Eliene Hackbart, 54, já a aguarda. O momento de pedir a conta é determinado pelo horário de funcionamento do metrô. Quando a hora se aproxima, a funcionária pública telefona para a mãe, que a busca onde estiver e a leva à estação. Só então a moça retorna para casa.

"Virei praticamente uma cinderela. Voltei à vida de adolescente e a depender da minha mãe. Meu horário de boteco mudou, tive que me adequar. No máximo, às 23h estou voltando para casa. Agora, mais do que nunca, virei adepta da happy hour", brinca Evelyn.

A mãe não se importa em transportar a filha nessas ocasiões e diz que sempre incentivou que Evelyn solicitasse sua ajuda quando estivesse sem condições de assumir o volante. "Não sou contra quem bebe, mas todos devem ter consciência de que não podem dirigir depois de beber. Sempre ensinei isso para as minhas filhas. Não existe coisa pior do que provocar a morte de outras pessoas que nada têm a ver com a irresponsabilidade de alguns motoristas", defende.

Os ensinamentos foram aplicados por Evelyn, que não hesita em entregar o carro a alguma amiga ou até mesmo pedir pela ajuda da mãe durante a madrugada. "Fico mais segura sabendo que ela não está dirigindo e tenho a consciência limpa de que faço o que está ao meu alcance", relata a mãe.

Punições
Administrativa
Condutores flagrados com teor alcoólico de 0,1 ou 0,2 miligrama de álcool por litro de ar expelido dos pulmões no exame do bafômetro são obrigados a pagar multa de R$ 957. Além disso, eles estão sujeitos a ter as carteiras de habilitação suspensas por um ano. O processo de suspensão, desde o flagrante em blitz até a decisão administrativa do Detran, pode demorar seis meses.

Criminal
Motoristas que abusarem da bebida e forem flagrados pelo bafômetro com teor alcoólico de 0,3 miligrama de álcool por litro de ar ou mais são encaminhados à delegacia. Além de pagar multa e poder ter a habilitação suspensa, eles são indiciados por dirigirem alcoolizados. O crime tem pena de seis meses a três anos de prisão. Em geral, os condutores são liberados após pagar fiança e respondem ao processo criminal em liberdade.
Autor: Lívia Nascimento, da Equipe do Correio
OBID Fonte: Correio Braziliense - DF (com alterações)







Publicidade









Apoio



Copiadora Campos
Art & Design

Toldos Campos
Toldos - Paineis - Adesivos





Mauricar
Dando mais saúde à vida de seu veículo