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Vícios

Do prazer à dor
As
drogas ilegais não são as únicas substâncias a provocar dependência;
existem também os loucos por sexo, chocolate, jogos e mesmo por
compras
Quem nunca se divertiu ao consumir álcool ou tentou esquecer algum
problema tomando um porre que atire a primeira pedra. Se não foi
com álcool, pode ter sido com o cigarro, com drogas ilícitas e até
mesmo com chocolate e café. Ou ainda, numa fúria consumista, no
shopping ou em um sexo bem feito. O fato é: a busca pelo prazer
nos move, tendemos a repetir ações agradáveis e às vezes é nesse
prazer que encontramos uma forma de fugir das dificuldades. O problema
é quando o "gostar muito" se transforma em dependência, e o prazer
se transforma em dor.
Não são apenas os consumidores de drogas ilícitas (cocaína, heroína,
maconha...) ou lícitas (cigarro e álcool) que estão sujeitos a isso.
Sexo, jogo, compras e comida também podem ser alvo de compulsão
e os seus dependentes apresentam os mesmos sintomas de quem se vicia
em substâncias químicas. Os especialistas são categóricos ao dizer
que não existe sociedade sem drogas - isso se estende, para todo
tipo de substância psicoativa, ou seja, que afete o funcionamento
do cérebro (o que inclui também a cafeína, presente no café, na
Coca-Cola e no chocolate). Mas é possível ir além: talvez não exista
sociedade sem vícios - sejam eles por drogas ou por comportamentos.
Faz parte da história da humanidade buscar substâncias psicotrópicas.
Acredita-se que o consumo de ópio, álcool e Cannabis já ocorria
de 3.000 a 4.000 anos antes de Cristo.
"O fenômeno de dependência de drogas é algo que se prende à condição
humana com diversas finalidades, desde a de apaziguar as dores,
as angústias, as tristezas, até o de elevar aos deuses", escrevem
os psiquiatras Antônio Pacheco Palha e João Romildo Bueno no prefácio
do livro "Dependência de Drogas", que compila textos de 54 especialistas
no assunto. "Assim sendo", continuam eles, "é natural que, enquanto
houver dor, angústia, frustração, abatimento e dúvidas o homem irá
continuar o uso de drogas ".
Mas não é só a busca de um alívio que leva a esse consumo. "Existem
dois tipos de vício: um que serve para alterar a percepção de uma
realidade intolerável e outro que passa só pela questão do prazer",
afirma o psiquiatra Dartiu Xavier, coordenador do Proad (Programa
de Orientação e Atendimento a Dependentes), da Unifesp (Universidade
Federal de São Paulo).
Tudo pela recompensa
É o prazer que explica por que é possível ficar dependente de coisas
tão diferentes como drogas, chocolate, café, jogo, sexo ou compras.
Análises de mapeamento mostram que há uma região no cérebro, conhecida
como sistema de recompensa, que é ativada por substâncias presentes
tanto nas drogas quanto no nosso próprio corpo (hormônios e neurotransmissores)
e que são liberadas quando passamos por estresse, excitação, alegria
etc.
"Tudo o que é bom a gente quer repetir. Isso porque o cérebro se
lembra que gostou e pede mais", explica a neurocientista Suzana
Herculano Houzel, autora do livro "Sexo, Drogas, Rock´n´roll e Chocolate
- O cérebro e os prazeres da vida cotidiana". Esse comportamento
do cérebro é que nos faz ter motivação para tocar a vida.
O que intriga é por qual razão uma boa parcela dos usuários se contenta
com o consumo recreativo de drogas e a prática saudável de sexo,
por exemplo, enquanto outros tantos caem na dependência. A explicação
da neurociência é que, diante de certos comportamentos ou consumo
excessivo de uma substância, o sistema de recompensa é ativado ao
extremo e, por proteção, acaba se dessenbilizando. Fazendo uma comparação
bem simples, é o mesmo que ocorre com o elástico esticado além do
limite e que não volta mais ao normal.
"Na próxima vez, aquele mesmo comportamento vai resultar em uma
ativação menor do sistema de recompensa, em um prazer menor, e,
para conseguir o mesmo grau de prazer que se conseguia antes, vai
ser preciso mais daquilo. Jogar mais, fazer mais sexo, usar mais
droga, comer mais chocolate", diz Suzana.
O problema é que essa dessensibilização do sistema de recompensa
gera uma espécie de déficit de satisfação. Imagine que, no estado
natural, todos temos um nível médio de ativação do sistema de recompensa.
Entre os dependentes, o nível fica abaixo do normal. "É por isso
que a vida da pessoa passa a orbitar ao redor do vício, que vira
idéia fixa. Tudo o que a pessoa faz está centrado em como conseguir
mais daquela coisa", explica a neurocientista. "E não faz diferença
se é uma dependência química ou não-química. Todas passam pelo excesso
de ativação e dessenbilização do sistema de recompensa."
Mas o que leva algumas pessoas à perda do controle independe de
critérios simples, como a quantidade de droga ingerida. Para Xavier,
um dos motivos pode ser a existência de problemas psíquicos e emocionais
na vida do usuário. Em sua tese de doutorado, ele avaliou dependentes
de álcool e de cocaína e descobriu que 80% apresentavam algum distúrbio
nessa linha, sendo que 44% tinham depressão - a maioria adquirida
antes do consumo de drogas. "É como se a droga servisse de alívio
para os sintomas depressivos. Está aí a entrada para a dependência
química", afirma. Segundo o pesquisador, problemas na família são
outro fator de risco para a dependência. "Teoricamente não é possível
que uma pessoa sem problemas acabe se viciando", diz. Claro que
é preciso levar em conta qual droga está sendo consumida.
Dependência Psicológica
No caso da maconha, menos de 10% dos usuários ficam dependentes,
número que sobe para 60% com a cocaína e para 80% com o crack e
a heroína, de acordo com Xavier.
Além disso, o maior problema é a dependência psicológica. "A medicina
evoluiu tanto que é facílimo tirar alguém de uma dependência física,
mas o indivíduo recai por causa da psicológica".
Ele cita um estudo feito na década de 80, na Universidade Harvard,
nos EUA, que descreveu pessoas que usavam heroína, uma das drogas
que mais causa dependência, sem se viciar. Isso mostra que nem tudo
pode ser atribuído à droga. "Ela é um fator necessário para causar
dependência, mas não suficiente. É preciso ter a droga e mais um
monte de coisas", diz.
As dependências químicas e não-químicas estão tão arraigadas que
o tratamento acaba sendo bastante parecido. É nisso que aposta o
Proad, que criou, ao lado do ambulatório de drogas e álcool, um
local voltado para compulsivos por comida, sexo e jogo. "Uma das
hipóteses é de que existe um mecanismo central por trás de tudo,
independente de a pessoa ser dependente de jogo, droga, álcool ou
sexo. As formas de tratar são as mesmas."
Os médicos e psicólogos perceberam também que muitos usuários tendem
a transitar de uma droga para outra, e delas para um comportamento
compulsivo. "O indivíduo vai trocando de dependência e mascara o
problema dele independente do vício. O efeito é o mesmo. Em todos
os casos está por trás a busca do prazer e a perda do controle",
constata. Novamente a neurociência confirma: "A explicação é que
todos os vícios passam pelo mesmo lugar do cérebro. Cada um escolhe,
digamos, a sua droga de preferência, mas na falta dela, qualquer
outra serve para ativar o sistema de recompensa", diz Suzana Herculano-Houzel.
"Por isso, até os tratamentos pensam nesse todo. A recomendação
dos Alcoólicos Anônimos e dos Narcóticos Anônimos é abstinência
total, é a pessoa reconhecer que o vício se aplica a tudo".
Sociedade do Vício
Para Dartiu Xavier, essas múltiplas opções também são reflexo de
uma sociedade voltada para os vícios. "Tendemos a estimular esses
comportamentos, somos consumistas e de certo modo até hedonistas.
Tudo é voltado para a obtenção do prazer". Para ele, o comportamento
dos pais em exigir dos filhos desempenhos fantásticos em todos os
aspectos da vida colabora para uma fuga para as drogas. "Esperamos
que nossos filhos sejam muitos inteligentes, bonitos e satisfeitos
sexualmente. Essas sensações todas são percebidas por quem usa cocaína.
O modelo de mundo que a gente passa para as nossas crianças é o
de intoxicação por cocaína. A gente não ensina o mundo de verdade.
E depois eles ficam com a auto-estima lá em baixo, frustrados, e
a droga aparece como uma saída", dispara.
Assim pensa também o médico sanitarista Fábio Mesquita, pioneiro
na criação de programas pela redução de danos aos usuários de drogas.
"O consumo de drogas hoje é uma epidemia e está relacionado a uma
vulnerabilidade social que faz com que as pessoas se apeguem a todo
tipo de coisa. As pessoas são bombardeadas com propaganda de cigarros,
de álcool e até mesmo de drogas ilícitas, que não estão na TV, mas
que chegam às pessoas. Por isso acredito que hoje seria praticamente
impossível, nesse contexto social, uma sociedade sem drogas".
Ele lembra que em 1998, a ONU fez uma assembléia especial sobre
drogas, quando foi proposto que até 2008 o mundo ficaria livre desse
problema. Nesse ano foi feito o primeiro balanço e se constatou
que cresceu o consumo. "Esse tipo de proposta é um delírio, completamente
irreal". Mas, se isso é uma condição inerente ao ser humano, como
ficam as pessoas totalmente proibidas de usar drogas - como ocorre
nas sociedades islâmicas mais radicais?
Para Mesquita, a repressão e a religiosidade "seguram" as pessoas,
mas na primeira oportunidade elas buscam outro tipo de prazer. "O
Afeganistão. por exemplo, logo que se libertou do regime Taleban
voltou a ter uma tremenda produção de ópio para exportação. Outro
bom exemplo é a Rússia, onde praticamente não havia consumo de drogas
durante o regime comunista e hoje é o país onde mais crescem os
casos de Aids por uso de drogas injetáveis".
Na contramão estão os dependentes convertidos pelas religiões evangélicas
que oferecem a Bíblia no lugar das drogas. "De certo modo, é como
se elas se viciassem em religião", brinca Mesquita. Elas assumem
um comprometimento emocional, psicológico de outra natureza, mas
também passam a dedicar sua vida 24 horas àquilo, só falam desse
assunto e só pensam nele".
Do mesmo modo que ocorre com as drogas.
Todos os caminhos levam ao sistema de recompensa
A palavra "vício" costuma ser aplicada só para os casos de dependência
de drogas, mas o que se caracteriza por esse desejo obsessivo, tolerância
e síndrome de abstinência também se aplica para comportamentos compulsivos.
Em todos os casos é ativado o sistema de recompensa do cérebro e,
em geral a quantidade de dopamina (neurotransmissor ligado ao prazer)
aumenta no núcleo acumbente (NAc), que é o centro do sistema. Como
resultado a dopamina circulante pode chegar a ser dez vezes maior
que a produzida por prazeres cotidianos, levando a um verdadeiro
êxtase.
Diante de tamanha ativação, o sistema de recompensa reage e diminui
a sua sensibilidade. A partir daí, para conseguir o mesmo prazer
inicial, o usuário tem de consumir cada vez mais. Veja abaixo como
cada droga interfere no circuito de prazer do cérebro:
Opiáceos e Opióides - Ópio, morfina e heroína ativam diretamente
os receptores das endorfinas (opióides do próprio corpo) no núcleo
acumbente. A função delas normalmente é regular o teor final de
dopamina no NAc. Com a ação das drogas, a produção de dopamina cresce,
o que leva a sensações de euforia e bem-estar.
Ecstasy - É uma anfetamina modificada, mas não age como uma
(liberando dopamina direto no NAc), e sim como a cocaína, impedindo
a reabsorção da dopamina. Essa ação é tão duradoura que o prazer
pode se prolongar por horas. A droga age também em vários outros
lugares do sistema límbico, inclusive o hipotálamo, que regula funções
vitais. É esse comportamento que pode desencadear problemas com
hipertermia e desidratação que podem levar à morte.
Cocaína e Crack - Impede a reabsorção da dopamina liberada
no núcleo acumbente em uma situação de prazer. A droga bloqueia
o processo de reciclagem da dopamina pelos neurônios aumentando
sua duração e seus efeitos nas sinapses, o que leva à sensação de
euforia característica da droga. O uso continuado danifica os neurônios
e pode levar à redução dos efeitos da dopamina, provocando depressão
e agressividade.
Álcool - Seu efeito vem de mais longe: ele age na origem
das fibras dopaminérgicas que chegam ao NAc, numa área no meio do
cérebro chamada área tegmental ventral (começo do circuito de prazer).
O álcool ativa diretamente os neurônios do VTA, que passam a liberar
mais dopamina sobre o NAc. O resultado, mais uma vez, é o aumento
da concentração de dopamina no NAc. O uso prolongado prejudica a
estrutura dos neurônios e afeta a comunicação entre eles.

Fonte: Revista Galileu Especial nº3 - Agosto/2003
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