Cooperar, orientar e ensinar a família

Famílias despreparadas, desestruturadas e sem saber o que fazer, chegam diariamente aos grupos de apoio de Amor-Exigente procurando ajuda. Muitas vezes, sem querer, elas não conseguem receber a orientação e o carinho necessários porque elas mesmas não se ajudam e não se deixam ajudar. E o Amor-Exigente quer cooperar, orientar, ensinar os melhores caminhos para a recuperação. No 5o Congresso Nacional de AE, em Goiânia, no ano passado, a sala “Recuperação” apresentou dúvidas e queixas em relação à família do dependente químico. Quem responde é a pedagoga e coordenadora do grupo de AE de Marília, Vera Lúcia Lorenzetti Gelás. 

Os grupos têm sentido dificuldades em trabalhar a família. Quais são as principais e as melhores maneiras de lidar com ela? 
É necessário saber que o grupo não é tribunal de julgamento e, por isso, precisa respeitar a individualidade de cada participante. As pessoas do grupo precisam estar atentas a seus preconceitos e pré-julgamentos ao trabalhar com o comportamento inadequado que a família vem vivenciando. É preciso trabalhar tratando todos com consideração, respeito e paciência. Outra dificuldade é que muitos participantes dos grupos pensam ser os donos da verdade, com respostas e soluções para tudo, querem mudar o outro e não a si próprios, agindo com falta de humildade. Essas pessoas precisam ser levadas a perceber que sabem pouco diante do muito que ainda se tem que aprender, quando se trabalha com problemas de drogadição e co-dependência. Os participantes dos grupos devem ser transparentes. Saber que não estão ali representando um papel, mas que são cheios de defeitos e qualidades, e tudo isso deve dar retorno firme para a família começar a agir. A dificuldade é saber confrontar sem ofender, sem carregar culpa, o que poderia afastar a família. Em nosso grupo de Marília, por influência de Maria de Lourdes Ruiz, 11 anos de AE, coordenadora de grupo e voluntária, usamos muito o termo “bate e assopra”, ou seja, confrontamos e damos esperança, confrontamos e elogiamos o que já está caminhando bem. 

Qual deve ser o tratamento do grupo de apoio para a família conduzir o processo de recuperação? 
A família chega ao grupo desestruturada, com seus conflitos, medos, estresse, inseguranças, rancores, frustrações. Nesse contexto, é difícil começar a falar em colocar limites e disciplina. É preciso, então, de início, tratar essa família para que ela perca o medo, dando-lhe esperança através de testemunhos reais, ensinar-lhe a esquecer o rancor e as frustrações aprendendo a perdoar e encarando a vida de agora para frente, segundo a máxima “este é o primeiro dia da minha nova vida”. É também necessário ensinar pai e mãe a andarem juntos, falando a mesma língua, mesmo estando separados. Não só pais e mães, devemos incluir avós, padrinhos e tios. Todos podem ajudar. Para que a família consiga dar estes passos rumo ao maior equilíbrio emocional, ela precisa trabalhar a espiritualidade, pois só a força divina pode dar esperança, promover o perdão e o companheirismo, tão necessários no processo de recuperação. A família deve ser acolhida, amparada e motivada para a mudança. 

Os grupos notam falta de preparação da família para conduzir o processo. Como os grupos podem ajudar neste caso? 
A família, quase sempre, está despreparada para enfrentar o problema de drogadição de um ou mais de seus membros. Ela não conhece o processo, às vezes, minimiza o fato e/ou se desespera maximizando o problema. Sente-se culpada e, ao mesmo tempo, agride o filho. O grupo pode levá-la a parar para pensar, observar o que realmente está acontecendo, não tendo medo de enxergar a situação, informando-a sobre o submundo das drogas. Controlando suas emoções e estando consciente da real situação. A família deve ser orientada a planejar uma estratégia de ação, colocando limites, exigindo responsabilidades, tirando privilégios, mas sempre com afeto. O grupo vai incentivá-la a: agir, não só reagir com ameaças vazias e palavras agressivas; não permitir ser usada através de manipulação, tão comum entre os drogaditos e alcoolistas; não ter vergonha, não se sentir culpada, já que a culpa paralisa as pessoas e não deixa agir; se concentrar não só no que está errado, mas ver também o que há de bom na família para ser valorizado e estabelecer uma meta de vida que será alcançada através das pequenas metas semanais. 

Qual é a melhor maneira de lidar com a falta de persistência da família? 
As famílias não são perseverantes porque chegam ao grupo esperando uma solução rápida para seus problemas, uma resposta mágica, e isso elas não encontram, logo percebem que não é assim. O grupo deve dar a elas, de início, bastante esperança, através de testemunhos positivos dos participantes. Considerar que cada família tem seu ritmo e suas limitações próprias e, assim sendo, umas conseguem resultados mais rápidos e outras demoram mais. Dizer que o AE se faz com passos pequenos, mas firmes e constantes, e que a chegada do resultado positivo é certa. A família deve ser envolvida com afeto, respeito e deve sentir-se valorizada, não só pelas pequenas conquistas, mas também pelo fato de estarem presentes buscando um caminho, mesmo que tenham dificuldades de atingir as metas. É preciso sempre repetir que a presença delas no grupo é importante não só para elas, mas para os demais membros dos grupos. A pessoa que se sente valorizada em um ambiente, tende a voltar. 

Colaboração de Vera Gelás, coordenadora de AE em Marília