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Áreas
de Risco

Além
de ser um "corredor" para o tráfico, o Brasil enfrenta graves problemas
com o consumo da heroína ao país
Ainda são poucas as estatísticas para determinar as quantidades
de cocaína e heroína efetivamente consumidas no Brasil e para traçar
um perfil mais profundo dos usuários, mas é possível dizer que o
país já deixou de ser apenas um corredor de exportação para os grandes
produtores da América Andina. Mais do que isso, estamos nos tornando
um mercado preferencial e uma base de importantes "parceiros" dos
narcotraficantes.
O Brasil fornece aos laboratórios clandestinos da Colômbia, da Bolívia
e do Peru os insumos básicos para a fabricação da cocaína. Na década
passada, o território brasileiro chegou a ser considerado como o
de maior trânsito mundial de éter e acetona. Esses produtos são
facilmente contrabandeados pela porosa fronteira amazônica, seguindo
o sentido inverso das rotas de trânsito de drogas para o Brasil.
E, como se não bastasse, a cocaína também passou por uma grande
popularização no país, principalmente pelo uso, entre as camadas
mais pobres da população, de sua forma mais letal: o crack.
Segundo o Cebrid (Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas
Psicotrópicas), da Unifesp, os usuários de cocaína estão espalhados
por todas as classes sociais. Antes, seu consumo era sinal de status.
Por ser muito cara, ela era usada por executivos, artistas e atletas.
Hoje, o baixo custo do crack, uma variação da cocaína, permite que
pessoas de classes menos favorecidas tenham acesso à droga. O crack
está presente entre meninos de rua, estudantes e adultos, sem grupo
ou idade específica.
Há também outros dois fatores para a popularização da cocaína no
Terceiro Mundo. Em primeiro lugar, seu preço despencou no mercado
internacional: há duas décadas, o grama chegava a US$ 100; hoje,
não passa de US$ 5. Além disso, houve o aumento do consumo de drogas
sintéticas, como o ecstasy, no EUA e na Europa, o que reduziu a
procura pela cocaína nessas regiões.
Violência Urbana
Um levantamento sobre o uso de drogas entre estudantes de 1º e 2º
graus em dez capitais brasileiras, realizados pelo Cebrid em 1997,
revelou que 2% dos estudantes já fizeram uso de cocaína em algum
momento da vida e 0,8% faz uso freqüente da droga. Esse mercado
potencial extrapola o campo da saúde pública e acende um problema
de segurança: os varejistas e atravessadores de drogas passaram
nas últimas décadas a dominar áreas urbanas pobres, aproveitando-se
da ausência de um Estado atuante e da falta de perspectivas sociais.
"Os morros se tornaram um símbolo da incapacidade do Estado de suprir
as necessidades do cidadão", diz o sociólogo Humberto Dias. "Esse
vácuo foi ocupado pelos pequenos e médios traficantes, já que a
venda de drogas e a marginalidade se tornaram formas de ascensão
social".
O tráfico muitas vezes emprega menores de idade, criando uma situação
ainda mais delicada nas grandes cidades. Em São Paulo, o comércio
de drogas já é a segunda maior causa de internação na Febem (Fundação
Estadual do Bem-Estar do Menor), atrás apenas do roubo qualificado.
Para Dias, há ainda outra agravante: o tráfico de armas: "A violência
na luta pelo controle do narcotráfico alimenta e é alimentada pelo
tráfico de armas. Isso multiplica o problema de forma vertiginosa".
Crack e Heroína
Um outro dado preocupante é o uso crescente do crack. Na análise
da população de meninos de rua em seis capitais brasileiras, feita
pelo Cebrid, o crack mostra-se extremamente significativo em São
Paulo, onde 47% dos entrevistados já fizeram uso pelo menos uma
vez da substância.
Apesar de crack e cocaína serem ambos obtidos a partir da pasta-base
de coca, o primeiro é significativamente mais barato, já que é um
produto mais grosseiro. A pasta-base é obtida pela mistura das folhas
esmagadas com querosene e ácido sulfúrico diluído. Para ser transformada
em pó, essa pasta passa por outras etapas de produção, nas quais
são usados o éter, a acetona e o ácido clorídrico - que são insumos
caros.
Para fabricar a pedra, a pasta apenas é misturada ao bicarbonato
de sódio, numa operação bastante simples. O nome "crack" vem do
barulho que essas pedras fazem ao serem queimadas em cachimbos improvisados.
Além de mais barato, o efeito do crack é muito mais rápido e mais
forte do que o da cocaína cheirada ou injetada. Ao ser fumado, ele
atinge o cérebro em cerca de oito segundos, após passar pelos pulmões
e pelo coração. Vicia com apenas três ou quatro doses. O efeito
dura de 1 a 2 minutos. Segundo o psiquiatra Ronaldo Laranjeira,
diretor da Unidade de Álcool e Drogas da Unifesp, o crack é a droga
com maior capacidade de criar dependência.
Mas, como não poderia deixar de acontecer num país de extremas desigualdades
sociais, o Brasil mostra que também tem mercado para uma droga bem
mais cara: a heroína. Tudo indica que seu consumo cresceu no país,
junto com o aumento de 12% da produção na vizinha Colômbia, que
hoje detém 1% da produção mundial. Como explicar esse incremento?
"Promissores mercados próximos para um produto de alto valor", diz
o economista Eduardo Brandão. O grama de heroína custa, no mercado
internacional, cerca de US$ 200.
Ainda é cedo para afirmar que ela será uma "droga da moda" no Brasil.
Mas, segundo Brandão, como a tecnologia de produção avança rapidamente,
"é preciso cuidado para que a heroína não vire também uma droga
popular".
Crack
Princípio Ativo: Cocaína, extraída da planta Erytronxylon
coca
Como age: O crack, cocaína sob a forma de pedras, é fumado
pelo usuário. No pulmão, ele é absorvido com rapidez e chega ao
cérebro em cerca de 8 segundos, enquanto que a cocaína, sob a forma
de pó, leva de 10 a 15 minutos para agir. Assim como a cocaína,
o crack produz sensações de poder, euforia e desinibição, mas seu
efeito só dura cerca de 2 minutos (ao contrário dos 45 minutos causados
pelo pó). Por isso, é a droga que mais causa dependência.
Danos ao organismo: O crack produz insônia, falta de apetite
e hiperatividade. Seu uso prolongado causa sensação de perseguição
e irritabilidade, o que leva o usuário a agir de forma violenta.
Além de distúrbios cardiovasculares, a droga causa danos permanentes
no cérebro e complicações respiratórias, envolvendo bronquite e
tosse persistente

Consumo
de crack em cachimbo improvisado

Usuários
da droga na região de São Paulo conhecida como cracolândia
Fonte: Revista Galileu Especial nº3 - Agosto/2003
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