| Site
Antidrogas e UNODC

Novo
relatório do UNODC: Mercado mundial de drogas mostra sinais de
contenção
Mas América do Sul registra aumento de consumo de
cocaína, maconha e anfetaminas
Brasília e
Viena, 26 de junho - Há alguns anos
parecia que o mundo caminhava rumo a uma epidemia de abuso de
drogas. Mas há cada vez mais indícios de que o problema está sendo
controlado, disse o Diretor Executivo do Escritório das Nações
Unidas contra drogas e Crime (UNODC), Antonio Maria Costa nesta
terça-feira. "Os dados mais recentes que colhemos mundialmente
mostram que a dependência de drogas tem diminuído", disse Costa no
lançamento do Relatório Mundial de Drogas 2007, realizado pelo UNODC
simultaneamente em Viena, Áustria, e em diversos países. No Brasil o
relatório foi lançado no UNODC em Brasília, pelo Representante
Regional para o Brasil e Cone Sul, Giovanni Quaglia.
Cerca de 5% (4,8%)
da população mundial entre 15 e 64 anos usam drogas a cada ano; são
cerca de 200 milhões de pessoas. Mais da metade consome pelo menos
uma vez por mês. Aproximadamente 25 milhões de pessoas são
dependentes químicos. As drogas consideradas mais problemáticas no
mundo são os opiáceos (especialmente a heroína), consumidos
especialmente na Ásia e na Europa. A segunda é a cocaína. Na América
do Sul, a cocaína é a droga que mais leva à busca de tratamentos por
dependência. Na África, a maior demanda por tratamento decorre do
uso de cannabis em forma de erva (maconha) ou resina (haxixe).
Estabilidade
O Relatório mostra
que os mercados de drogas ilícitas se mantiveram estáveis entre
2005-6. "Para a maioria das drogas - cocaína, heroína, cannabis e
anfetaminas - há sinais de estabilidade em relação à produção,
tráfico e consumo", disse Costa.
O consumo de
cocaína na Europa ainda é menor que na América do Norte. Mas em
2005, pela primeira vez, a Espanha registrou prevalência anual do
uso de cocaína maior que nos Estados Unidos.
Na América do Sul,
inclusive no Brasil, há registros de aumento no consumo de maconha e
de cocaína. Para o Representante Regional do UNODC para o Brasil e
Cone Sul, Giovanni Quaglia, as drogas têm que ser tratadas como
questão de saúde pública. "É preciso trabalhar mais na prevenção e
oferecer serviços a quem busca tratamento contra a dependência. E
funciona. A Suécia, por exemplo, gasta 30% a mais em prevenção e tem
30% menos usuários de drogas que a média européia", disse Quaglia.
Diminuem
plantações de coca
O plantio de coca
na região andina continua diminuindo. Colômbia, Peru e Bolívia são
os maiores produtores mundiais. Entre 2000-2006 a área global de
plantio da folha de coca diminuiu 29% e está em 159,000 hectares.
Isso ocorreu principalmente por causa da redução na área de plantio
na Colômbia. Mas houve ligeiro aumento na região de plantio na
Bolívia e no Peru - apesar de ainda estarem bem abaixo dos níveis
encontrados há uma década. A Bolívia também registrou aumento no
consumo de cocaína. No âmbito global, o uso de cocaína se
estabilizou, apesar de ter havido redução do uso nos Estados Unidos
com aumento no consumo na Europa.
Mas a contenção na
plantação da folha de coca entre 2000-2006 não levou à diminuição da
produção de cocaína. Especialistas atribuem isso ao aprimoramento
nas técnicas de produção da droga, com uso de fertilizantes,
pesticidas e tecnologia para aumentar a produtividade. A produção
total de cocaína tem se mantido estável nos últimos anos [1.008
toneladas métricas (mt) em 2004; 980 mt em 2005; 984mt em 2006]
Contenção de
estimulantes do grupo anfetamínico
Como a fabricação
das anfetaminas é feita ilegalmente, mas com uso de precursores
químicos lícitos, a produção global só pode ser medida
indiretamente. Ainda assim, o mercado de estimulantes do grupo
anfetamínico, como o ecstasy, também mostra sinais de contenção em
diversos países (produção global em 2005 = 480mt). As apreensões de
laboratórios de estimulantes do grupo anfetamínico e de precursores
diminuiu drasticamente, provavelmente como resultado do
aprimoramento do controle de precursores bem como redução na
produção doméstica em mercados importantes, como os Estados Unidos.
A Ásia é a grande consumidora mundial de anfetaminas: 55% dos
consumidores mundiais são asiáticos. A maior parte continua sendo
produzida na Europa, especialmente na Holanda. No âmbito
sub-regional, o maior índice de prevalência de uso de anfetaminas na
América do Sul foi registrado no Brasil.
Dentre as
apreensões de estimulantes do grupo anfetamínico, a maioria é de
metanfetaminas. Entre 2000-2005, 49% das apreensões foram de
metanfetaminas, 15% foram de anfetaminas e 14% foram de ecstasy. A
tendência é de aumento na proporção de anfetaminas e queda na de
metanfetaminas, o que reflete maior controle sobre os principais
precursores das metanfetaminas: efedrina e pseudo-efedrina.
A apreensão de
cannabis e estimulantes do grupo anfetamínico tem se mostrado
difícil diante da complexidade do tráfico das drogas sintéticas. "A
polícia deve buscar laboratórios caseiros de drogas sintéticas e de
plantações de maconha em casas e galpões, mesmo em cidades ricas",
alertou Costa.
Em relação ao
consumo, a demanda por estimulantes do grupo anfetamínico, que havia
aumentado fortemente na maioria dos países na década de 1990, agora
mostra sinais de estabilização. Hoje há um mercado mundial de
anfetaminas de cerca de 25 milhões de pessoas.
Contenção na
produção de maconha e haxixe
Pela primeira vez
em décadas, as estatísticas globais não mostram aumento da produção
mundial e do consumo da cannabis (maconha e haxixe). "Com o aumento
da potência da cannabis, há muito mais usuários de maconha e haxixe
que vêm buscado tratamento contra a dependência. Esta é uma
importante questão de saúde pública", disse o Diretor Executivo do
UNODC.
Ópio: aumento
alarmante na produção
A produção de ópio
no Afeganistão continua sendo um grave problema para o país, para a
região e para outras partes do mundo. O plantio de papoula para a
produção de ópio aumentou drasticamente em 2006, o que suprimiu o
sucesso das ações de erradicação da plantação e produção em países
vizinhos no Sudeste asiático, como Laos e Mianmar. O aumento da
produção em 50% resultou em recorde na produção mundial de heroína:
606 mt. O recorde anterior era do ano de 1999 (576 mt). "No
Afeganistão, o ópio se tornou uma questão de segurança", disse o
diretor do UNODC. Cerca de 92% da heroína mundial vêm das papoulas
plantadas no Afeganistão.
"A província de
Helmand, ao Sul do Afeganistão, gravemente ameaçada pela
insurgência, está se tornando o maior provedor de ópio do mundo, com
plantações ilícitas maiores que a de todas as outras no resto do
país juntas. Se somássemos plantações de países como Mianmar e
Colômbia, a área de plantio de papoula em Helmand continuaria
maior", acrescentou Costa. "É preciso romper com o ciclo e extrair a
droga e a insurgência no país. Só assim será possível conter a fonte
de ópio e trazer segurança à região", disse Costa.
Além da Rússia,
Índia e em partes da África, países vizinhos do Afeganistão têm
enfrentado aumento no consumo de heroína, entre eles o Paquistão,
Irã e Ásia Central. Em muitas áreas há altos índices de pobreza, o
que amplia a vulnerabilidade da população aos riscos do uso de
drogas, como infecção por HIV e outras doenças.
Mais apreensões
Mundialmente,
esforços coordenados de segurança pública aumentaram o volume de
apreensões de drogas. Mais de 42% da cocaína produzidas no mundo
estão sendo apreendidas (em 2000 o volume de apreensões era de 24%).
Em relação à heroína, mais de um quarto da produção mundial está
sendo apreendida (em comparação com 15% de apreensões em 1999). Na
América do Sul, no Caribe e na América Central ocorreram 58% de
todas as apreensões mundiais de cocaína no ano de 2005.
O volume de
apreensões de droga no Oeste e Centro da Europa foi quatro vezes
maior em 2005 que no ano 2000. A Espanha é a principal porta de
entrada da cocaína na Europa. Carregamentos para a Espanha têm sido
freqüentemente registrados com origem na Venezuela, Brasil e outros
países incluindo Equador, República Dominicana, Argentina e México.
Em relação à
cannabis (maconha e haxixe) houve queda nas apreensões, devido à
erradicação de plantações, à estabilização da demanda e a diminuição
do tráfico transnacional de maconha. Essa queda constante também
pode indicar que a demanda tem sido mais atendida pelo aumento da
produção doméstica. No caso do haxixe houve queda nas apreensões por
causa da queda na produção no Marrocos.
A África na rota
do tráfico
Os traficantes
estão buscando novas rotas, principalmente pela África. "A África
está sendo alvo de traficantes de cocaína da América do Sul e do
contrabando de heroína da Ásia", disse Costa. "É uma ameaça que
precisa ser enfrentada rapidamente para conter o crime organizado, a
lavagem de dinheiro e a corrupção, e para prevenir o alastramento do
uso de drogas no continente africano. Isso pode gerar turbulências
sociais em países que já enfrentam tantas outras tragédias."
O tráfico via
África rumo à Europa está aumentando. O volume de apreensões na
África em 2005 foi seis vezes maior que no ano 2000. A cocaína
freqüentemente é traficada a países ao longo do Golfo da Guiné, de
onde é levada por "mulas" (pessoas que carregam a droga escondida no
corpo) a diversos destinos na Europa. Os países mais citados da rota
da cocaína que sai da América do Sul para a Europa via África são:
Brasil (mais citado que a Colômbia), Peru e Venezuela. Autoridades
na Guiné estimam que cerca de 60% da cocaína que chega ao país vem
do Brasil e 40% vêm direto da Colômbia.
Tráfico - Império
invisível ou mão invisível?
Este ano o
Relatório Mundial de Drogas traz estudos sobre as mudanças no
tráfico de drogas. O tráfico continua altamente organizado? Ou o
tráfico é muitas vezes resultado de ações independentes de um grande
número de pessoas reagindo à "mão invisível" de um mercado? É
difícil distinguir o controle centralizado da motivação comum, ou
mesmo de conhecer as regras que governam as ações do mercado de
drogas.
Os atores são
diversos: de pobres fazendeiros a influentes vendedores nas ruas das
grandes cidades. Mas o setor que tem mais lucro é o que lida com o
transporte internacional de drogas. Os fundos usados pelos grupos do
tráfico podem alimentar outras atividades criminosas e mesmo
insurgência política.
Grupos do tráfico
de drogas hoje estão situados em algum lugar de um espectro. De um
lado há ainda o crime organizado: grandes e grupos estruturados, que
costumam ser duradouros, muitas vezes equiparados às corporações
transnacionais. Mas também há associações pequenas, flexíveis e
transitórias. São provedores de serviços criminosos, também chamados
de redes criminosas, dos quais os grupos do Oeste Africano são
muitas vezes usados como exemplo. Provavelmente tanto os grupos
hierarquizados e estruturados, quanto os desestruturados,
responsáveis por ações criminosas, têm papel importante no tráfico
de drogas. Ainda não está muito claro que proporção do fluxo do
tráfico cada grupo comanda.
Segundo a Europol,
"Grupos do crime organizado estão se tornando freqüentemente
heterogêneos e, em termos de estrutura, organizados de forma
dinâmica, movendo-se mais na direção de 'redes soltas' que de 'monolitos
piramidais' ". Segundo as análises do UNODC, há pelo menos cinco
modos que indicam como está estruturado o tráfico de drogas numa
região ou numa rota: a proporção de apreensões totais que são
grandes volumes (indicam ações mais caras, arriscadas e
estruturadas); a diversidade de técnicas e rotas utilizadas (mais
organização); a nacionalidade dos que são presos em conexão com as
apreensões de drogas (mais cidadãos do país em que ocorreu a
apreensão mostra, em geral, estruturas de organização menos sólida);
diferenças regionais no preço e volatilidade nos países produtores
de coca e os níveis de consumo nos países de trânsito que fazem
parte das rotas do tráfico (na Colômbia, por exemplo, há imenso
volume de produção, mas o consumo é relativamente baixo, o que
indica que o crime é altamente organizado).
Desde o domínio
quase total dos cartéis de Cali e Medellín nas décadas de 1980 e
1990, o tráfico tem se tornado menos concentrado, mas ágil e
espalhado. Organizações envolvidas no tráfico de cocaína aos EUA têm
sido tradicionalmente organizadas. No auge, o cartel de Cali foi
tido como responsável por 80% de toda a cocaína traficada aos EUA,
que era - e ainda é - o maior consumidor mundial de cocaína. Os
cartéis foram sujeitos a forte intervenção durante as décadas de
1980 e 1990. Os ativos foram apreendidos e seus líderes foram
extraditados e postos em prisões. Em relação às organizações, a
estratégia funcionava, e os cartéis de Cali e Medellín foram
eliminados de forma efetiva.
No lugar deles
surgiram diversos grupos menores, de mais baixo perfil: os chamados
"cartéis baby" ( baby cartels, em inglês). Há estudiosos que
crêem haver centenas deles. Enquanto alguns conseguiram alcançar
mais relevância que outros, não há hoje organizações comparáveis aos
grupos de Cali e Medellín. De fato, grupos colombianos perderam seus
monopólios em relação ao tráfico de cocaína e atualmente a maior
parte das drogas entra pelos EUA das mãos do crime organizado
mexicano.
A metade de
cocaína destinada aos EUA nunca chegou ao país
De acordo com
estimativas do governo dos EUA, do total de 450 mt de cocaína que
chegam ao país, 88% passam pela América Central/corredor do México;
cerca de 50% chegam pelo Pacífico e 38% via costa do Caribe e
América Central. Isso está alinhado com os registros de autoridades
colombianas - cerca de 60% das apreensões na Colômbia ocorreram em
portos; 60% no Pacífico e 40% no Atlântico. Em termos mais
concretos, seria o equivalente a 250 mt apreendidos no Pacífico e
200 mt apreendidos ao longo do mar do Caribe. Diante disso,
autoridades dos EUA estimam que 196 mt foram perdidos ou apreendidos
no caminho, 64 mt foram apreendidos na fronteira dos EUA em 2004. Ou
seja, a metade da cocaína destinada aos EUA nunca chegou ao país.
Ocorre uma espécie
de transbordamento da droga nos países que integram a rota, na
América Central e no Caribe, onde a droga é vendida por valor mais
baixo. Esta é uma espécie de ineficiência do mercado, justamente por
causa da rede difusa, inclusive com "mulas", que muitas vezes são
pagas com droga e não com dinheiro. Mas o consumo relativamente
baixo nesses países da rota do tráfico, na América Central, sugere
que o fluxo de drogas nessa região continua organizado, mas já não
nos padrões de Cali e Medellin.
HIV relacionado ao
uso de drogas
O uso de drogas
amplia as vulnerabilidades das pessoas e pode levar a práticas
arriscadas, como sexo sem preservativo, compartilhamento de seringas
e materiais que podem transmitir HIV, hepatites e outros. De acordo
com o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (UNAIDS), o
uso de drogas injetáveis contribuiu com a epidemia de HIV na Índia,
Indonésia, Irã, Líbia, Paquistão, Espanha, Ucrânia, Uruguai e
Vietnã. Na China, Ásia Central e diversos países do Leste europeu, o
uso de drogas injetáveis tem sido o modo mais citado de transmissão
de HIV nos últimos anos. Também é uma das principais causas de
infecção por HIV na América Latina.
Prevenção em
primeiro lugar
Por um lado, há
sinais crescentes de que tanto a oferta como a demanda por drogas
estão estáveis. Os países têm se esforçado reduzir os riscos das
drogas. Mas é preciso atenção, pois a situação pode rapidamente se
deteriorar. "Não podemos tirar o pé do freio. A prevenção às drogas,
aliada aos cuidados e atenção em saúde para os dependentes ainda são
questões vitais", disse Costa.
Precisa haver
enfrentamento das drogas no longo prazo e para isso são necessárias
intervenções preventivas, para tratar a questão na fonte, que são os
usuários de drogas. "A dependência é uma doença que precisa e pode
ser prevenida e tratada. Detectar o problema o mais rapidamente
possível, buscar terapias e integrar o tratamento de drogas nas
questões de saúde pública e programas de serviço social pode livrar
as pessoas da dependência." Tratar aqueles que sofrem por causa das
drogas é um investimento na saúde dos países, tanto como tratar o
HIV, a diabete ou a tuberculose", disse o Diretor Executivo.
Costa pediu que o
mundo mudasse a maneira de enfrentar as drogas para que se aja com
veemência na defesa da saúde das pessoas, tanto quanto na
erradicação de redes criminosas. "Esta é uma responsabilidade
compartilhada nacional e internacionalmente - entre países que
produzem e consumem, entre países vizinhos e entre todos os setores
da sociedade", disse Costa.
Saiba mais:
Os principais pontos do relatório
(arquivo Word em português)
O Brasil no Relatório
(arquivo Word em português)
Mensagem do Secretário Geral da ONU
(arquivo Word em português)
Mensagem do Diretor-Executivo do UNODC
(arquivo Word em português)
Baixe o relatório completo
(arquivo PDF em inglês)
Executive Summary (arquivo PDF em
inglês e
espanhol)
Veja a apresentação em Power Point em
português
Para mais informações por favor
entre em contato:
Carolina Gomma de Azevedo
Assessora de Comunicação - UNODC Brasil -
www.unodc.org.br
Tel: 55 61 3367-7353 (r 207) e 55 61
8143 4654
Carolina.Azevedo@unodc.org
Fonte Autorizada: UNODC
http://www.unodc.org/brazil/pt/about_us.html
|