Afinal, beber vinho faz bem ao coração?

Há mais de quatro décadas, Klatsky e colaboradores publicaram a primeira pesquisa epidemiológica de impacto sobre o consumo de álcool e o risco de infarto do miocárdio, um estudo realizado com 120.000 pacientes de planos de saúde. Levantou-se então a possibilidade de que o consumo de álcool poderia reduzir o risco de doença arterial coronariana (DAC). Análises subsequentes demonstraram também que haviam associações diretas do consumo de álcool com hipertensão arterial e acidente vascular cerebral hemorrágico. Ao mesmo tempo, cresceram as evidências da relação entre o consumo nocivo de álcool e vários tipos de câncer.

A doença arterial coronariana (DAC) é o tipo mais comum de doença cardíaca e uma das principais causas de morte no mundo, representando mais de 13% de todas as mortes. Grande parte das revisões sistemáticas encontram associações positivas entre o consumo leve/moderado de álcool e o risco reduzido de DAC. Os efeitos protetores, entretanto, foram observados também em outras doenças, para as quais um papel causal do álcool não parece plausível (asma, resfriado comum, surdez, osteoporose, artrite, cirrose hepática). Isso levanta a questão de que o “consumo leve/moderado” possa ser apenas um dos inúmeros fatores relacionados ao estilo de vida que leva a uma proteção para a DAC, mas não necessariamente a causa.

A edição de maio da Journal of Studies on Alcohol and Drugs traz artigos e comentários sobre o tema, ainda controverso, do consumo moderado de álcool e a saúde cardiovascular, bem como a mortalidade geral. Alguns autores apoiam o efeito benéfico de quantidades baixas ou moderadas de álcool (uma ou duas doses por dia*), enquanto outros questionam a veracidade dessa associação.

O artigo publicado por Zhao e colaboradores, da Universidade de Victoria, Canadá, analisou 45 estudos anteriores sobre a relação entre o consumo de álcool e o risco para doenças cardiovasculares, e mostrou que existe uma série de vieses, como a escolha do grupo de referência, na maioria das vezes definido vagamente nos estudos como “abstêmio”, a idade dos participantes e a saúde cardíaca de base. Está bem estabelecido que ex-bebedores têm riscos de morbidade e mortalidade significativamente maiores do que os abstêmios ao longo da vida; no entanto, eles são frequentemente incluídos no grupo de abstêmios.

Também houve um contraste entre os estudos que incluíram participantes mais jovens ou mais velhos. O fato de não se observar proteção significativa em estudos com indivíduos mais jovens (enquanto nota-se uma proteção substancial quando os participantes são mais velhos) pode ser atribuído ao fato de que, em grupos compostos por indivíduos mais velhos, há exclusão dos bebedores moderados que tiveram problemas de saúde ou morreram em decorrência de outras doenças relacionadas ao álcool que ocorrem mais cedo na vida (lesões, câncer). Por exemplo, em um trabalho que mostrou o efeito cardioprotetor entre bebedores moderados, esse efeito só foi observado quando os indivíduos que apresentavam algum tipo de doença prévia ao estudo foram excluídos da análise.

Outro possível viés é o controle da saúde cardíaca dos participantes no início da pesquisa. Estudos que aplicaram este controle não encontraram evidências de proteção significativa para a DAC, em qualquer nível de consumo de álcool, enquanto para os que não controlaram este parâmetro verificou-se uma notável proteção.

A hipótese é que, se houver controle desses vieses, os efeitos de cardioproteção atribuídos ao consumo leve/moderado de álcool não serão tão exuberantes. Um comentário feito pelos Drs. Mukamal e Ding, da Universidade Harvard, EUA, contesta as considerações feitas pelo grupo do Dr. Zhao, e afirma que os métodos estatísticos utilizados em tal análise são inadequados e interpretados de forma parcial. O grupo do Dr. Zhao rebate as críticas e afirma que os métodos utilizados em sua análise são consistentes e contribuem para o crescente fundamento científico sobre a hipótese de que o consumo moderado de álcool protege contra a DAC.

Assim como em diversos campos, na pesquisa sobre os efeitos cardioprotetores do álcool há céticos dos dois lados desse debate. A questão é complexa e as pesquisas – e as discussões sobre seus resultados – são necessárias para que seja possível definir recomendações claras aos mais de 2 bilhões de consumidores de álcool no mundo.

*Uma dose diária (10-12 g de álcool puro) segundo a Organização Mundial de Saúde equivale a 330 ml de cerveja/chopp ou 100 ml de vinho e 30 ml de destilados
Fonte:CISA – Centro de Informações Sobre Saúde e Álcool