O problema do tóxico

O tóxico é, no momento, em muitos países problema de relevante importância. Tem-se discutido bastante a respeito do tema, principalmente revistas e jornais, que exploram o assunto com variado intuito, inclusive o sensacionalista.

Ultimamente, em nosso país, temos ouvido muito sobre o problema e também recebido literatura de países como o Estados Unidos da América do Norte, onde a situação nos parece bastante séria. 

Como qualquer questão, a do tóxico deve ser comentada nos seguintes aspectos:
– Origem
– Evolução e Importância
– Solução

Temos acompanhado alguns estudiosos do assunto e ouvimos conferências a respeito. Felizmente, no Brasil, o problema ainda não assumiu proporções alarmantes. Este fato não nos deve tranqüilizar em demasia, fazendo com que permaneçamos à margem da situação sem tornarmos atitude convincente para a sua solução.

A solução no momento é difícil e vai exigir trabalho intenso. Mesmo com programa bem planejado, acreditamos que só a longo prazo ela poderá vir.

Para nós, a resolução total não está nas campanhas e ligas antitóxicas. É evidente que estas desempenham papel importante no sentido de evitar a propagação do mal, visando, de modo especial, aos inocentes, que sem se aperceberem, são envolvidos pelos viciados inescrupulosos. Então, as campanhas de esclarecimento em instituições educacionais, orientando estudantes, professores e funcionários, impedem a propagação do vício nesses ambientes. Mesmo nesses locais, a luta contra o tóxico deverá ser criteriosa e feita de modo a não despertar o interesse pelo seu uso.

Nesses estabelecimentos, indivíduos especializados precisam esclarecer aos estudantes, professores e funcionários a respeito do mal que as drogas podem causar ao organismo.

As explicações devem ter caráter informativo e serem colocadas em programas de higiene ou de saúde pública; como meta da saúde pública deverá ter bases científicas e nunca serem expostas com cunho de moralidade ou de fruto proibido.

Como a juventude aceita facilmente a ciência, rejeitando tudo que é moralístico e autoritário (rejeição ao tipo de educação recebida), estas últimas formas de expor o problema tornam-se perigosas por levarem o jovem ao uso de tóxicos como forma de auto-afirmação e de rejeição aos princípios recebidos. Esta problemática tem toda sua explicação baseada na existência de substrato inconsciente, que age como motivação imperceptível de nossas condutas. 

Ponto de extraordinária importância é o que se refere ao fato de muitas palestras serem feitas em ambientes não adequadamente preparados para exposição de assuntos desta natureza.

Nós nos referimos aos comentários e conferências feitas a jovens, tais como os que se encontram em lares e associações filantrópicas diversas. Nesses locais, os perigos a que nos reportamos são maiores. As crianças e jovens que vivem em tais lugares, por si já se sentem marginalizados e, portanto, predispostos a aderirem aos mais variados vícios. A palestra, nestes casos, pode servir para chamar atenção para os tóxicos, visto que, ao ensinarmos, não resolvemos os problemas intrínsecos de cada um.

Nestes casos, deverá haver técnica indireta para tratar o problema e conscientizá-lo adequadamente.

Para conseguirmos tal objeto, necessitamos educar, primeiramente, o corpo docente dos colégios, escolas superiores e diretorias de orfanatos, orientando-os detalhadamente a respeito dos tóxicos e outros vícios. Conhecemos jovens internados em hospitais de psiquiatria que chegaram a cultivar maconha dentro do hospital.

Em outro grupo de jovens internados em nosocômio psiquiátrico, sempre havia um deles fugindo à noite para buscar psicotrópicos, maconha, cocaína, etc, que usavam clandestinamente durante o dia ou à noite dentro do hospital. Freqüentemente, funcionários introduzem, nos hospitais, bebidas alcoólicas destinadas a doentes internados, como já tivemos oportunidades de surpreender algumas vezes em hospitais de São Paulo. Precisamos identificar bem os funcionários de estabelecimentos que lidam com jovens e aqueles portadores de patologia mental, as personalidades psicopatas que inúmeras vezes funcionaram como veículos de distribuição de tóxicos, devem ser impedidos de exercerem qualquer função nesses locais. Tais indivíduos precisam ser afastados de qualquer maneira de ambientes escolares, mesmo de escolas superiores.

Se considerarmos a evolução do uso dos tóxicos, verificaremos que o seu aumento é significante, e que cada vez mais se alastra nas populações jovens.

Há pouco tempo, tomamos conhecimento de que a população norte-americana ficara estarrecida ao ver em seus vídeos, uma criança de 8 anos “autuada em flagrante” como viciado e traficante de cocaína. Tivemos oportunidade de constatar e analisar, em nosso consultório, um menino de 5 anos que fumava um maço de cigarros por dia. Verificamos que tal criança não tinha contato com outras da mesma idade, e a convivência somente com adultos levou-a à imitação dos mesmos, até no ato de fumar. Poucos dias após, foi-nos levada uma menina de 7 anos, que consumia razoável quantidade de cerveja por semana. Quando estudante, tivemos ensejo de tratar uma criança que tomava vários aperitivos ao dia, constituídos de puro aguardente.

Quais seriam as causas de tais vícios? Estariam eles ligados a fatores ambientais ou físicos? Seriam determinados por fases transicionais da vida, como é a adolescência? O indivíduo seria viciado aos poucos, sem perceber, e, depois tornar-se-ia capaz de se libertar do vício? Teriam tais problemas origem remota? Estariam eles ligados à infância? Em caso afirmativo, qual seria a melhor solução?

Para nós, combater o vício ou o viciado não é a melhor solução. O viciado é apenas o terreno onde germina a semente do vício. A personalidade do viciado está predisposta ao vício. É o terreno propício para crescer a erva daninha do LSD, da maconha, do ópio, da cocaína, do álcool, etc. O que precisamos é modificar o terreno para que ele não tenha “nutrientes” que possibilitem a germinação da semente do vício.

Se queremos plantar arroz, temos que escolher terreno adequado para o plantio especificado. Caso o terreno não seja bom para semear, teremos de modificá-lo com adubos, alterando sua topografia ou suas drenagens para que o cultivo seja possível. No deserto também se pode cultivar; mesmo o terreno mais impróprio, se cuidadosamente zelado, poderá produzir alguma coisa. Também as pessoas geneticamente predispostas ao vício poderão ser desviadas dele se forem corretamente educadas.

Como o indivíduo poderá ser levado ao vício? Como ele poderia ser levado à delinqüência?

Muitos caminhos são possíveis, talvez, mas um se mostra para nós o mais provável.

Analisemos a criança desde o seu nascimento até a vida adulta.

O recém-nascido, quando tem fome, reclama seu alimento. Assim é que lactente, ao chegar a hora de mamar, chora, grita desesperadamente, até que a mamadeira lhe seja dada e sua fome saciada. Se tem sede, também não quer esperar um minuto; apenas deseja matar sua sede imediatamente. Não há agrado que o faça esperar, não há explicações que o convençam da demora. Mesmo a criança maior, quando deseja algo, não quer saber dos motivos que nos impede de atendê-la.

Uma criança de dois anos quer um pirulito; no instante em que ela faz o pedido, começou a chover. Por mais que lhe expliquemos que está chovendo, que não há guarda-chuva em casa, que não é possível sair para comprar o pirulito, ela não se convence, nem aceita explicação. Ela quer o pirulito e continua insistindo. 

Se, ao chegar a hora da mamadeira de um menino de 18 meses, o leite estiver “estragado” e dissermos a ele que terá de esperar algumas horas para a aquisição de outro leite, a criança não se conforma; e se deixarmos a mamadeira ao seu alcance, fatalmente tomará o leite sem medir o mal futuro para sua saúde, mesmo que este mal lhe seja detalhadamente explicado. Ele quer matar a fome naquele instante, não importando o resto.

Se dissermos à criança que precisa tomar uma injeção para se curar da amigdalite que lhe causa tanto mal-estar, ela jamais aceitará isto integralmente porque não está pensando no amanhã; apenas vive a dor da picada do momento.

Este quadro reativo emocional, este comportamento e esta maneira de ser caracterizam a imaturidade do ser humano e são próprios da infância. O imaturo não quer adiar um prazer para ter maior prazer no futuro. Não aceita deixar para depois ou se privar de uma satisfação para evitar desprazer posterior. Ele vive a satisfação do momento. Ele não sabe que outros existem; é egoísta, vive para si e, em resumo, usa os outros para obter alguma coisa.  

De início, é assim a criança. As frustrações bem orientadas vão moldando sua maneira de agir, de pensar. A maturidade emocional é quadro inverso do descrito. Ela adia um prazer, por maior que seja, para evitar desprazer maior posterior ou, então, prorrogar uma alegria em troca de futura e maior alegria. 

Há crianças que, devido à educação e em decorrência da formação licenciosa que tiveram, jamais sairão da imaturidade emocional para a maturidade. Elas se desenvolvem fisicamente, tornam-se homens ou mulheres somaticamente maduros. Amadurecem o corpo, mas permanecem bebês do ponto de vista emocional.

O jovem que promove desordens nas ruas com seu carro; o que ateia fogo às casas porque queria um Galaxie e este lhe foi negado é o mesmo bebê que grita desesperadamente pela mamadeira, quando tem fome; ele quer ser atendido, custe o que custar. É o “nenê emocional” que atira longe as coisas e não reconhece autoridade quando contrariado ou quando seus jogos não atingem o fim desejado.

Emocionalmente é um bebê que esbraveja, grita ou chora, quando não está satisfeito com o ambiente que o rodeia, por causa das frustrações que lhe são impostas.

Ele é bebê, emocionalmente falando, apesar de ser homem fisicamente bem desenvolvido; ainda aqui, sua rebeldia se torna ainda mais perigosa, porque quando criança (fisicamente) não tinha força nem o raciocínio como molas propulsoras de sua vida emocional. Agora com o físico desenvolvido e a inteligência a ajudá-lo, projeta a “energia emocional” contra os que o cercam e contra a sociedade.

Como sempre foi atendido em todos os seus desejos (o que o fez estacionar na imaturidade), agora não entende o não , nunca suportando frustrações. O imaturo não aceita censuras e interpreta toda e qualquer conduto nesse sentido, como ameaça ao seu ego, como falta de amor. A frustração que o ameaça e o faz sentir-se não-amado gera a insegurança, a angústia e a fuga da realidade torna-se premente e inevitável.

Para evitar a incerteza e a censura, para adquirir forças a fim de enfrentar a situação criada, o imaturo se atira à bebida, aos entorpecentes, etc.

Como o LSD, ele pode viver fantasiosamente e fugir da experiência que o faz sofrer. A morfina anestesia-lhe a “alma”, propiciando menor dor ao seu ego ferido. “Precisa viver fora da realidade que o agride e, para isso, usa o vício.”

A insegurança poderá ser gerada por outro mecanismo e levar, da mesma maneira, o indivíduo ao vício.

Conhecemos um jovem cuja educação foi a mais severa possível. Tudo o que realizava desde menino precisava da autorização do pai. Mesmo depois de moço, todo o dinheiro ganho no trabalho era dado ao pai para que dissesse onde e quando deveria ser gasto.
Este jovem desenvolveu dependência em relação ao pai e não era mais capaz de decidir nada por si. Certa ocasião gostou de uma moça e solicitou ao seu pai licença para namorá-la. Esta lhe foi negada. Com o decorrer do tempo, começam a surgir situações em sua vida que o tornam inseguro e sofredor. Se ia a um baile e tinha vontade de dançar, não reunia coragem suficiente para convidar a moça à dança.

Se precisava falar com alguma pessoa, a coragem lhe faltava porque tinha medo de ser criticado e ridicularizado. 

O medo, a insegurança, a incerteza e a incapacidade de decidir por si as coisas levaram-no à angústia insuportável. Como meio de adquirir coragem, com a finalidade de enfrentar os problemas cotidianos, passou a usar o álcool em doses cada vez maiores; e nós o conhecemos em um hospital de psiquiatria, como alcoólatra crônico. 

Outro jovem, como o mesmo ritual evolutivo, encontramo-lo em hospital de psiquiatria por fazer uso do ópio, maconha e LSD.

Como substrato de todos os vícios, observamos a insegurança, pelo menos nos casos acima enumerados.

A mais profícua fonte de insegurança e, portanto, de consumidores de tóxicos, é a educação errada e falha em seus aspectos de assistência à criança, de uma maneira global. 

Outro fator terrível na geração de viciados e toxicômanos pode ser considerado. Porém, este fator não age na infância, mas sim diretamente no jovem. Este fator a que nos referimos é a guerra. O jovem sabe que vive agora, mas não tem certeza se continuará vivendo amanhã. Esta dúvida gera insegurança, que o leva ao suicídio inconsciente e lento, através do excesso de cigarros, de álcool e, posteriormente ou concomitantemente, aos mais variados tóxicos. 

Poderíamos ainda citar os que se tornam viciados porque, sem conhecer, são levados inocentemente por outros viciados, ou por curiosidade se tornam presas fáceis dos inescrupulosos traficantes. Acreditamos, todavia, que mesmo estes são predispostos, educacionalmente falando, e cremos que, para eles, as campanhas de esclarecimento tivessem efeito preventivo.

Finalmente, há um grupo de viciados que aí chegaram, não por insegurança, mas porque atingiram a fase seguinte, que é o descrédito total nos outros e em si próprios. Eles vivem o “caos emocional”, suas existência não têm mais significado. São totalmente desacreditados, não há mais esperança e, portanto, os tóxicos usados mais uma vez para o suicídio, consciente ou inconsciente. É também para fugiram ao nada que têm dentro de si. Estariam neste caso grande número de prostitutas e homossexuais, que odeiam tudo, até mesmo a si próprios. Os homossexuais odeiam tanto a si como a humanidade, que fazem do homossexualismo uma maneira simbólica de expressar o extermínio da espécie humana, tendo em vista que a perpetuação da espécie que repudiam não seria possível através de suas relações.

A prostituta odeia tudo, inclusive o sexo. Tanto isto é verdade, que o comercializou e deu-lhe um valor vil, que é o dinheiro.

A maneira de evitar os tóxicos e os toxicômanos está na boa formação e orientação da criança, no extermínio da guerra, no combate à desvalorização do ser humano.

Pais & Filhos
Relacionamento & Conduta
Dr. Adolpho Menezes de Mello