Álcool é principal causa de internação por uso de drogas psicotrópicas

A dependência de álcool é a principal causa das internações psiquiátricas que acontecem em decorrência do uso de drogas psicotrópicas – aquelas que agem no sistema nervoso central, alterando o seu funcionamento. 

Um levantamento feito pelo Cebrid (Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas), da Unifesp, mostrou que a substância foi responsável, em média, por 90% das 726.429 internações registradas entre 1988 e 1999. 

Os dados foram obtidos de planilhas respondidas por 52% das cerca de 450 instituições brasileiras que atuam na área – hospitais psiquiátricos, clínicas particulares, hospitais gerais e comunidades terapêuticas – cadastradas no Cebrid, dando seqüência a levantamentos anteriores realizados pelo centro. 

A farmacêutica Ana Regina Noto, uma das autoras do estudo, explica que, entre outros motivos, o álcool continua sendo a maior causa de internações porque a sociedade não o enxerga como uma droga que causa dependência e prejuízos ao sistema nervoso central e ao organismo. “Além do agravante de ser uma droga permitida, seu uso é incentivado por propagandas cada vez mais sofisticadas”, afirma. 

De acordo com ela, a dependência se concretiza de maneira lenta, passando despercebida, e pode demorar cerca de dez anos para se manifestar. Isso explica os dados estatísticos de 1999, que mostram que 94% das internações de pessoas com mais de 30 anos foram decorrentes do uso do álcool. Já entre os jovens menores de 18 anos, 84% aconteceram por conta do uso de outras drogas.

Sai a maconha, entra a cocaína – De 1988 a 1999, a proporção de pacientes que foram internados devido ao uso de outros psicotrópicos também cresceu, passando de 4,7% para 15,5%. Nesses dez anos, a média ficou em 10%. A cocaína e seus derivados foram os maiores responsáveis por esse aumento, saltando de 0,8% para 4,6%. 

A maconha – que ocupou o primeiro lugar nos dois primeiros anos do trabalho (1988 e 1989) – perdeu seu posto para a cocaína em 1990, apesar de estudos populacionais apontarem um crescimento do consumo da primeira droga no Brasil. “Além de a sociedade ter se tornado mais permissiva em relação à maconha nos últimos anos, atualmente o tratamento para esses dependentes é predominantemente ambulatorial”, afirma a pesquisadora do estudo. 

Ana Regina aponta outro fator que contribui para camuflar dados epidemiológicos relacionados à maconha. 

Segundo ela, é muito comum encontrar pessoas que consomem várias drogas. Mas, ao lançar as notificações nos registros de internações, os profissionais de saúde dão prioridade apenas para as consideradas mais “fortes” ou, então, classificam essas pessoas como consumidoras de “múltiplas drogas”. “Esses profissionais não são preparados para fazer uma investigação mais precisa do paciente, antes de colocar o diagnóstico nesses registros”, explica.

Saúde pública – Dados do Ministério da Saúde apontam a dependência de álcool como a segunda causa de todas as internações psiquiátricas, ficando atrás apenas da esquizofrenia. 

Ana Regina Noto acredita que, para minimizar essa situação, é necessário criar campanhas de conscientização à população – como é feito com o tabaco – e estabelecer uma fiscalização mais rígida sobre a venda de bebidas alcoólicas a menores de idade. 

Dos 471 milhões de reais gastos com internações psiquiátricas no ano de 2000, 12% foram destinados às relacionadas ao álcool. 

Sueli Moreira Rodrigues, assessora da Área Técnica de Atenção a Trans­tornos Decorrentes do Abuso do Álcool e Outras Drogas do Ministério da Saúde, afirma que, há mais de três anos, o ministério vem auxiliando o Congresso Nacional nos projetos que visam ao aperfeiçoamento da lei 9.294/96. A lei regulamenta a propaganda de bebidas alcoólicas, proibindo anúncios daquelas com nível de concentração de álcool etílico acima dos “13° GL” (13 graus Gay Lussac), com algumas exceções. “Mas há todo um lobby para evitar mudanças nesse sentido”, diz. “Com isso, hoje a cerveja e o vinho ficam fora da proibição, podendo ter a publicidade e a propaganda livres para veiculação.” 

De acordo com ela, a fiscalização da venda e do consumo dessas drogas e a concretização de campanhas educativas também são de responsabilidade de outros órgãos governamentais. “Para evitar que o problema cresça cada vez mais, é preciso buscar uma ação conjunta dos ministérios da Saúde, da Educação e da Justiça”, afirma.
Fonte: Escola Paulista de Medicina