Alegria triste

O nome seduz, mas esconde perigos. Um comprimido de ecstasy equivale a 6 horas de euforia e uma semana de depressão e insônia.
A sensação é de completo bem-estar. Você se sente agradável, sedutor, feliz e confiante. Um sentimento de magnanimidade o domina, e você é capaz de perdoar o inimigo que roubou sua namorada ou de conversar afetuosamente com a vizinha ranheta que ameaçou jogar veneno para seu cachorro várias vezes. Não há problemas, não há tristezas, não há depressão. Ao menos não nessa fase, que dura de seis a oito horas – embora seu organismo esteja trabalhando triplicado para mantê-lo vivo e você não tenha consciência disso. A conta desse serviço extra começa a ser paga no dia seguinte ou 48 horas depois de ter engolido um único comprimido de ecstasy.

A depressão infiltra-se em sua alma e em seu organismo por dias a fio. Aquela alegria transbordante transforma-se em tristeza profunda e interminável. As noites são de sono atormentado por repelões assustados. Tais sensações podem serpreendê-lo ainda cinco dias depois da noite de balada. São as sequelas do bombardeio de substância ativa do ecstasy – a poderosa e deletéria metilenodioximetanafetamina (MDMA), que desequilibra o funcionamento de seu cérebro. Seu corpo, então, arregimenta forças extras para reorganizar a bagunça que o comprimido armou. Leva dias para repor a plena produção dos neurônios e reestabelecê-los do breve, mas poderoso curto-circuito sofrido.

Sua alegria e inconsequência naquele momento de êxtase pouparam-no de racionalizar sobre os perigos que corria. Essa inconsequência, em si, já é um efeito colateral perigoso da droga. Sua temperatura corporal subiu de maneira mercurial e poderia ter ultrapassado a casa dos 40 graus. Você expeliu toda água do corpo e repôs o tanto que sua bexiga suportou. O caso é que nem sempre se tem sorte e sob superaquecimento muitos usuários da droga são sacudidos por convulsões e não sobrevivem até chegar ao hospital. Você sobreviveu? Ótimo: alguns morrem por hipertermia, com os neurônios literalmente fritos.

Isso é o ecstasy, muito prazer! Com o mesmo formato de uma aspirina e cores variáveis é a droga mais disseminada em boates e danceterias no mundo todo – apesar de ser ilegal. Sua sedução é falsa e perigosa. E parte de sua popularidade se deve à ignorância que os usuários têm a respeito de droga.
(Fonte: Revista VIP Exame- Abril 1998)