O mundo das drogas

O dia 26 de junho foi escolhido pelas Nações Unidas como data destinada à reflexão sobre o tema das drogas ilícitas e de abuso. No Brasil, institui-se uma semana nacional, que teve início no último dia 19.

O quadro internacional apresenta-se preocupante este ano. Um quadro desfavorável ao Brasil e aos demais países do Terceiro Mundo. E tudo devido às conseqüências derivadas da canhestra política do ex-presidente dos Estados Unidos Bill Clinton.

No seu governo, ele estabeleceu como prioridade a redução de oferta; tentou evitar a qualquer custo o ingresso de cocaína e heroína nos EUA e designou o general McCaffrey para executar a política traçada. Trilhou-se, então, a via da militarização, voltada a isolar ou aniquilar os centros produtores da América do Sul.

A cooperação internacional acabou utilizada como disfarce para pressões e intromissões nos países de cultivo e processamento de cocaína e heroína – países como Colômbia, Peru e Bolívia. Em outras palavras, acreditou Clinton que, eliminando os centros produtores, ficariam os norte-americanos livres das drogas. Como medida complementar, procurou bloquear as rotas de escoamentos e infestou os países de trânsito com disfarçados agentes da CIA (agência de inteligência) e da DEA (agência antidrogas dos EUA) – quanto a isso houve formais protestos dos então secretários antidrogas brasileiro e argentino.

A supracitada política produziu um efeito perverso. Basta notar não terem os norte-americanos abandonado a toxicomania: continuam campeões mundiais de consumo, apenas trocaram a cocaína e a heroína pelas drogas sintéticas. E, por ironia, essas drogas são produzidas por eles próprios, em laboratórios clandestinos. 

No último ano do governo Clinton, os norte-americanos aderiram às metanfetaminas, que agem no sistema nervoso central e aumentam a atividade cerebral. Além do ecstasy, apareceram os potentes nexus-erox e flatlyner, também usados como substitutos da cocaína e da heroína. Nesse mercado de drogas de síntese, as máfias exploram as novidades: basta a adição de uma molécula para se obter outra "droga de embalo". Sempre surgem nos EUA drogas diferentes para o tráfico, incluídas aí as chamadas exóticas, preparadas com fórmulas asiáticas.

Tal situação levou o presidente George W. Bush a abandonar o projeto de seu antecessor e a optar por ações no próprio território norte-americano. 
Nos países do Terceiro Mundo, entretanto, aumentaram as ofertas de cocaína e heroína, drogas refugadas pelos norte-americanos.

O relatório final deixado por Clinton sobre o assunto ressaltou ter o consumo de cocaína, no ano 2000, caído 50% nos EUA. Antes da redução, o mercado dessa droga movimentava cerca de US$ 50 bilhões por ano. Pelas estimativas, os europeus, em 99, consumiram 300 toneladas de cocaína; os norte-americanos, pouco menos de 500 toneladas.

Vale lembrar, também, que 2,5 milhões de camponeses continuam se dedicando ao cultivo da folha de coca. Colhem anualmente 300 mil toneladas de folhas de coca, que processadas, resultam em 880 toneladas por ano de cocaína. Por outro lado, o cultivo da papoula transformou a Colômbia no terceiro maior produtor mundial de heroína. No ano de 1999, cerca de 90% de sua produção destinou-se aos EUA.

Na "Cow Jones" das drogas, nome dado à informal bolsa européia, os preços da cocaína e da heroína continuam em queda. Em Londres, o grama da cocaína restou cotado em US$75, valendo US$ 50 nas praças de Paris, Milão e Bruxelas.

O crime organizado transnacional continua buscando mercados substitutos para as sobras de cocaína e heroína.

No Brasil, já são sentidos os aumentos da oferta e da demanda da cocaína – pouco se sabe sobre a heroína. Nos países ricos, existem drogas de síntese para tudo. A droga do videogame é o "ice" reciclado. Nas saunas, usa-se o "popper", inglês. Para as festas e as discotecas, há o nexus-erox ou o flatlyner.

O ecstasy líquido, padrão GB e GBL, vem sendo misturado às bebidas alcoólicas. São encontrados, ainda, diversos alucinógenos tipo DMT. Até o velho tetrahidrocanabinol, princípio ativo da maconha, acabou sintetizado: chama-se nabilone e o princípio ativo encontrado no denominado colírio de marijuana.

Wálter Fanganiello Maierovitch, 54, é juiz aposentado do Tribunal de Alçada Criminal de São Paulo, presidente do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais Giovanni Falcone e professor visitante da Universidade de Georgetown (EUA). Foi secretário nacional antidrogas (1999-2000).
Fonte: Folha de São Paulo – Opinião  – Tendências/Debates – 26/06/2001