A face do inimigo

Perto de 20 mil brasileiros morrem a cada ano, em decorrência do consumo de tóxicos ou de crimes relacionados com o tráfico. Nada apavora mais os pais de adolescentes do que a possibilidade do filho se envolver com drogas. Segundo pesquisa do Ibope, o problema é a quarta preocupação da nossa população, depois do desemprego, saúde e salário.

Na maioria dos casos, os jovens consumidores de drogas são bem nascidos, usam roupas de grife e estudam nos melhores colégios. Em Brasilia, a merla, derivada da cocaína, é o entorpecente da moda, e frequenta as rodas de meninos enturmados em guangues que, não raro, praticam delitos. No Rio, capital nacional do tráfico organizado, o crack é droga indesejada, e a cocaína reina absoluta, por ser mais cara e mais rentável para o traficante.

Nas periferias, principalmente nos subúrbios de São Paulo, a droga da hora é o crack, produzido a partir da pasta-base da cocaína. Mais espalhado do que no Rio, onde o tráfico se concentra nos morros, sendo, portanto, de difícil controle, o volume em circulação na capital paulista é, além de tudo, bem maior. Considerando o pior dos entorpecentes, por agir muito rápido, o crack mina a capacidade de reação de quem quer se livrar dele. Fumando cachimbos rudimentares, atua sobre os pulmões, invadindo a corrente sanguínea e chegando ao cérebro. Os danos à saúde são irreversíveis, e o vício é adquido muito mais rapidamente do que a dependência de outras drogas – é imediato, a partir do primeiro contato.

Se o envolvimento com drogas é uma das principais preocupações dos pais de adolescentes, essa é, pelo menos, uma questão sobre a qual os adultos podem influir de algum modo. Debaixo do nariz dos pais e professores, muitos adolescentes consomem álcool em festinhas, socialmente, e até dentro de casa. Apesar de constituírem drogas legalizadas, é através do abuso do álcool e do tabaco que drogas ilegais – mas perigosas, e até letais – acabam se introduzindo de forma irreversível no universo dos jovens.

Um levantamento do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (CEBRID) feito em 1997 revela que o percentual de adolescentes que já consumiram drogas entre 10 e os 12 anos de idade é altíssimo:

51.2% usaram álcool;
11% tabaco;
7.8% solventes;
2% ansiolíticos;
1.8% já usou anfetaminícos nessa faixa etária.

Nas 10 capitais pesquisadas, cresceu a tendência para uso frequente de maconha entre as crianças e adolescentes. O consumo de cocaína e de álcool também aumentou em seis capitais. O uso pesado de drogas, isto é, 20 vezes ou mais no mês, também experimentou um aumento nas dez capitais para a maconha e em oito capitais para o álcool.

Outra pesquisa, realizada em 1998 pelo Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Droga do Hospital das Clínicas, entre estudantes da Universidade de São Paulo, indicou que 31% dos alunos já haviam fumado maconha e 7% já tinham experimentado cocaína alguma vez na vida. Desde 1995, existe o Programa Prevenção e Tratamento do Uso de Álcool e Drogas da USP (Produsp), executado pelo grupo Interdísciplinar do HC.

É por isso que o governo federal resolveu engajar universidades – muitas com programas antidrogas já implantados, como a USP e a PUC – e entidades como CIEE, que lidam diretamente com os jovens – na luta contra os tóxicos. "Precisamos pensar nas futuras gerações, são elas que deverão levar o Brasil adiante", afirma Maierovitch.

(Fonte: Revista agitação – Ano V. nº 29 – Julho/Setembro 1999)