Amor Exigente Responde III

De quem os jovens recebem a droga?
Do pipoqueiro ou do baleiro é que não. Recebem do conhecido, do amigo e dos parentes. Nunca do inimigo.

A droga é coisa de marginal?
Não. Ela está em todos os extratos sociais e culturais. Quando encontramos um crackeiro notamos logo o estado de decadência e marginalidade que apresenta. Por trás desse estado encontramos um ser humano que há menos de seis meses era um estudante ou alguém que estava desempregado. Uma das primeiras coisas que ele fez ao optar pela droga e pela rua foi trocar o seu tênis caro e suas boas roupas por pedras de crack. A droga não é coisa de marginal. Ela leva à marginalidade.

O drogado é oriundo de famílias desfeitas (esta pergunta normalmente aparece como uma afirmação)?
Não necessariamente. Nos grupos de apoio encontramos filhos de pais separados e de famílias bem sucedidas, assim como encontramos não-usuários oriundos de ambas as situações. Uma coisa é certa: responsáveis em conflito favorecem o surgimento do usuário de drogas.

Quais as drogas mais usadas?
Disparadamente as chamadas drogas lícitas, as que são obtidas com nota fiscal – álcool, voláteis (cola, éter, solventes etc), comprimidos e xaropes. Só muito depois é que vêm as chamadas, indevidamente, drogas pesadas.
De acordo com pesquisas do Denarc, publicadas pelo O Estado de São Paulo em 4 de março de 1996, referentes a drogas ilícitas, o consumo entre os menores é o seguinte:
Maconha e cocaína 6,4%; Cocaína 25,4%; Crack 58,4%; Maconha 6,4%; Crack e Maconha 2,4% e Crack e Cocaína 0,8%. É bom ter presente que existe a droga da moda, que varia de região para região. A situação no Rio de Janeiro, em Porto Alegre ou em outras regiões.

Onde se inicia o uso de drogas?
Em primeiro lugar – destacadamente – no seio da família:
– facilidade de administrar remédios;
– baixa capacidade de suportar dores, mesmo que discretas;
– uso e abuso de fármacos por parte de adultos;
– cultura do álcool, que apregoa relaxamento, alergia, sucesso, vitória, etc
Em segundo lugar, após os 10 anos de idade, a iniciação se dá com a "turma", onde o uso do que se convencionou chamar de droga exerce a função de rito de passagem.

Filhos de pais alcóolicos têm mais propensão para ser alcoólicos?
Estatísticas demonstram que sim. Eles têm quatro vezes mais possibilidades de se tornar alcóolicos. Desconheço pesquisa em que se relaciona pai alcoólico e filho drogado, mas o número de drogados que têm pais alcóolicos é alarmante.
Quando um dos responsáveis pelo drogado é alcóolico o trabalho no grupo de apoio torna-se extremamente difícil. Normalmente se estabelece um quadro de co-dependência. Um quadro perverso.
O cônjuge, que foi impotente diante da situação de dependência do parceiro, ao saber que o filho passou a desenvolver dependência por alguma droga, resolve agir. Quem vem em socorro do filho dependente? O parceiro alcoólico. Conscientemente ou não, ele teme que o próximo a sofrer a ação inibidora seja ele. Desta forma, o filho drogado encontra no responsável alcoólico o seu maior parceiro e protetor. O alcoólico passa a depender da existência do drogado para que ele não seja incomodado. É ou não um caso perverso?

Há fatores sociais que levam uma pessoa a ser dependente de droga?
Não usaria o verbo levar pois, para mim, ele tem um caráter determinista. Usaria o verbo favorecer. Sem dúvida há situações que favorecem o surgimento do drogado, como miséria, injustiça social, prostituição, desemprego, situação constante de conflito, falta de saúde física e psíquica, depressão – dele ou de familiares -, estado permanente de frustração, negativismo, falta de acesso à escola, etc.

O drogado é fruto de má companhia? (Esta pergunta também aparece como afirmação)
Curto e objetivo: não existe má companhia. O indivíduo, livremente escolhe com quem conviver, em que "tribo" quer se enturmar. Quando uma mãe fala do outro como má companhia para seu filho está esquecendo de que seu filho também é má companhia para o outro. São farinha do mesmo saco.
Lembro-me da resposta dada pela mãe de uma garota que já havia "aprontado" muitas e boas, a respeito de um passeio que a filha faria com alguns colegas:
– Você já verificou com quem ela vai, já fez toda a investigação?
– Ora, pior que companhia que nossa filha…. não há.

Tirado do livro : "Mostrar Caminhos" do Professor José Neube Brigadâo
Colaboração de Vera Gelás