Crianças preferem o tráfico à escola no Rio

RIO – O maior acesso ao ensino público não ajudou a retirar crianças e adolescentes de favelas no Rio do caminho do tráfico de drogas. A conclusão é de uma pesquisa inédita do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (IETS), encomendada pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), que ouviu 50 menores e jovens, entre 12 e 33 anos, de 12 comunidades carentes da cidade, empregados no mercado ilegal de entorpecentes.

Segundo André Urani, presidente do IETS, um dos motivos do abandono escolar é a percepção pelos entrevistados de que o grau de escolaridade não significa, automaticamente, retorno financeiro em futuro próximo. “Eles sabem que a qualidade do ensino oferecido em uma escola pública não é a mesma que a de colégio particular. Muitas vezes, meninos de escolas privadas, com apenas o ensino fundamental completo, têm mais conhecimento do que garotos que concluíram o ensino médio numa unidade pública”, acredita.

“É uma competição social muito desigual.” A redução da idade de ingresso no tráfico também é fator preponderante no desestímulo.

Precoces – Até a primeira metade dos anos 90, a aceitação de crianças não era uma estratégia comum aos traficantes cariocas, como reflete a resposta dos 10 maiores de 18 anos entrevistados pelo IETS. A maior parte (60%) começou a traficar entre 14 e 16 anos. A pesquisa mostra, porém, que essa realidade mudou, a partir de 1995. Dos 40 menores ouvidos, 45% disseram ter iniciado a vida na contravenção, com 13 ou 14 anos.

O que assusta, no entanto, é a participação de crianças ainda mais novas.

Seis meninos contaram ter começado no tráfico aos 12 anos, cinco aos 11 e dois aos 10 anos. Houve ainda um garoto que revelou ter virado traficante aos 8 anos e outros dois, aos 9.

“O ingresso no tráfico dificulta, das mais variadas formas, a permanência na escola. Mesmo quando gosta da instituição, como declaram vários entrevistados, a rotina de trabalho e as atitudes exigidas na rede social do comércio de drogas impedem a permanência”, afirmam os pesquisadores. Em outras palavras: o tráfico exige ação, movimento, disponibilidade de ficar ligado o tempo inteiro, enquanto a escola requer concentração, o cumprimento de tarefas ordenadas e sistemáticas – atividades cognitivas difíceis até mesmo para alguns meninos das classes média e alta.

Os pesquisadores consideram que a mudança de atitude dos criminosos, com emprego cada vez maior de crianças, deve-se primeiramente ao custo menor em caso de prisão ou de extorsão da polícia. “Nesse aspecto, a maioridade penal aos 18 anos cria o que se pode chamar de efeito perverso: a ação efetivada para resolver um problema termina por causar outro de igual complexidade.”

O segundo motivo da contratação de mão-de-obra infanto-juvenil é a disponibilidade para o crime. “Crianças e adolescentes são trabalhadores que não discutem as ordens de seu chefe. São mais destemidos em relação aos adultos e, por isso, atuam com mais disposição no enfrentamento com a polícia”, diz Urani. Além disso, a reposição no mercado de trabalho, em caso de morte, é mais fácil. “Há muitas crianças dispostas a ingressar no tráfico.”

O estudo do IETS não se restringiu à educação. Segundo Urani, a idéia principal do levantamento era recolher todas as informações a respeito das condições de vida de crianças e adolescentes empregadas no tráfico.

Juntamente com a escolaridade, os pesquisadores investigaram vínculos familiares e religiosos dos menores traficantes, sua cor de pele, remuneração e seus hábitos, como o uso ou não de drogas.

Os motivos que os levaram a ingressar no mundo ilegal e a sua permanência também foram estudados. No total, realizaram-se cem entrevistas em 12 favelas, durante os últimos três meses. Além dos 50 meninos e jovens traficantes – 40 menores de idade e 10 maiores -, foram ouvidos policiais, parentes, funcionários da Justiça, diretoras de escolas públicas e crianças moradoras de comunidades carentes.

A pesquisa identificou justificativas distintas para explicar os motivos que levaram esses garotos a entrar no tráfico. Os menores de 18 anos apontaram, em primeiro lugar, a identidade com o grupo, seguida da adrenalina natural à atividade. Ajudar a família e o desejo de ganhar dinheiro foi a terceira principal justificativa. Para os mais velhos, entre 19 e 33 anos, a necessidade de ganhar dinheiro foi a principal razão que os levou ao tráfico, seguida da adrenalina e, por fim, da identidade com o grupo. Tanto para um grupo quanto para outro, o desejo de prestígio e poder aparece em quarto lugar.

“Sem dúvida, a necessidade de ganhar dinheiro para poder consumir está na base dessa inserção no tráfico, que claro também é motivada por múltiplos fatores, como a desestruturação familiar e a pobreza”, pondera Urani. “Mas um jovem não consegue aceitar ver seu pai recebendo no mercado formal, por mês, aquilo que ele pode tirar em uma semana no movimento.”

Remuneração – No quadro de remuneração do tráfico, levantado pelo IETS, um olheiro (vigia), cargo mais baixo na hierarquia do comércio ilegal de drogas, ganha entre R$ 600,00 e R$ 1 mil por semana, com carga horária variável entre 40 e 72 horas. Já o embalador da droga (endolador) recebe de R$ 300,00 a R$ 1.400,00 por semana, enquanto o vapor (vendedor), entre R$ 1.900,00 e R$ 3 mil.

Um soldado, que tem a função de dar segurança aos traficantes e ao dono da boca, ganha entre R$ 1.200 e R$ 2 mil. Os maiores salários ficam com o gerente (de R$ 2 mil a R$ 4 mil) e com o dono da boca, que pode tirar, no mínimo, R$ 10 mil, chegando até a R$ 15 mil por semana.

Fonte: Estado de S.Paulo – Cidade