EUA ligam traficantes a terroristas

WASHINGTON. Os depoimentos diante da câmera são dramáticos, mas é como se ocorressem durante uma conversa de bar. “Eu ajudei a matar uma família na Colômbia”, diz um garoto de não mais do que 13 anos, com traços de origem latina. “Eu ajudei a seqüestrar pais de família”, afirma uma adolescente, sem qualquer constrangimento. “Eu ajudei a ensinar crianças a praticar assassinatos”, confessa outra. “Eu ajudei um terrorista a conseguir um passaporte falso”, diz outro, igualmente jovem.

Todos representam jovens americanos, de várias classes sociais, usuários de drogas. Surpreendentemente, cada um diz ao final que, ao consumir drogas, só queria se divertir, não tinha a intenção de fazer mal a quem quer que fosse. O filme é uma das mais duras peças da campanha antidrogas dos EUA. Com um custo de US$ 180 milhões nos próximos cinco anos, ela mostra que o tráfico ajuda a manter organizações terroristas, a exemplo do que ocorre na Colômbia.

A campanha está causando mais uma polêmica nos Estados Unidos. Que pai gostaria de saber que, além de usuário de drogas, seu filho ajuda, com o vício, a sustentar financeiramente organizações cujos integrantes explodem edifícios como os do World Trade Center, matando milhares de pessoas?

Mas é esse justamente o objetivo dos encarregados da política americana de combate às drogas: chocar os pais e envergonhar os usuários. De acordo com pesquisa da ONG Partnership for a Drug-Free America (Parceria por uma América Livre de Drogas), 62% dos pais ouvidos disseram que a informação de que o uso de drogas ilegais financia atividades terroristas os ajudaria a falar sobre drogas com os filhos. A mesma pesquisa garante que 59% dos adolescentes entre 12 e 17 anos estariam menos propensos a usar drogas se soubessem que os traficantes estão associados a terroristas.

Em outro filme da campanha, intitulado AK-47 (o fuzil soviético preferido por traficantes do mundo inteiro), a câmera vai exibindo os equipamentos usados por terroristas, com o custo de cada um deles: identidade falsa, US$ 3.000; computador, US$ 1.200; celular, U$ 200; explosivos plásticos, U$ 1.200; e, por fim, um fuzil AK-47, US$ 250. “Onde os terroristas conseguem dinheiro?”, pergunta o locutor, em off. “Se você compra drogas, parte do dinheiro usado por eles poderia ter vindo de você”, encerra o locutor.

— As drogas não apenas destroem nossas famílias, como também financiam nossos inimigos. Como já disse o presidente George W. Bush, quem renuncia às drogas ajuda a luta contra o terrorismo internacional — afirma John P. Walters, o novo diretor do Escritório Nacional da Política de Controle de Drogas, desde dezembro à frente da agência que maneja um orçamento anual de US$ 19 bilhões.

De acordo com a Estratégia Nacional de Controle de Drogas, apresentada por Bush há cerca de duas semanas, o objetivo é reduzir o uso de drogas ilegais em pelo menos 10% a cada dois anos e 25% nos próximos cinco anos.

EUA listam 12 organizações ligadas ao terror

A estratégia do governo é colocar os inimigos — traficantes e terroristas — todos juntos. O czar antidrogas John P. Walters diz que quase a metade de 28 organizações terroristas estrangeiras tem algum tipo de ligação com o tráfico internacional de drogas, segundo um relatório do Departamento de Estado dos EUA. As 12 organizações terroristas acusadas de receber dinheiro do tráfico são: Farc, ELN e AUC e Sendero Luminoso (Peru), na América Latina; ETA, na Europa; no Oriente Médio, o Hezbollah e a Jihad Islâmica; o Grupo Abu Sayyaf, nas Filipinas; o Movimento Islâmico do Uzbequistão, o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) e os Tigres da Libertação da Pátria Tamil, no Sri Lanka, na Ásia; e obviamente a al-Qaeda, de Osama bin Laden, uma rede mundial.

O secretário-assistente para Assuntos de Tráfico Internacional de Drogas e de Segurança Pública, Rand Beers, declarou na semana passada em Washington que não é segredo que o governo americano está considerando as relações entre tráfico e terror e que isso pode vir a influir numa mudança de foco da política americana de combate às drogas em países como a Colômbia.
*Viajou a convite do Departamento de Estado dos EUA
Fonte: O Globo