Zona de guerra do tráfico

Menos de uma semana após a onda de violência praticada pelos “bondes” do tráfico na cidade, moradores do Catumbi e do Estácio viveram seis horas de terror, entre a noite de sábado e a madrugada de ontem, em mais uma batalha da guerra entre o Terceiro Comando (TC) e do Comando Vermelho (CV), pelo controle dos pontos de venda de drogas no Morro de São Carlos. A madrugada violenta terminou com a morte de quatro pessoas. Outras sete, entre elas uma criança de oito meses, foram vítimas de balas perdidas. A menos de um quilômetro da guerra, cerca de 35 mil pessoas assistiam ao show de Roger Waters na Praça da Apoteose. Foi a terceira vez em uma semana que traficantes levaram terror às ruas da cidade. Os outros casos foram no Morro do Cantagalo e na Ilha.

Policiais de diversos batalhões, que faziam a segurança do espetáculo, foram deslocados para tentar interromper a disputa entre as duas facções. Houve tiroteio entre traficantes e PMs nas ruas Navarro e São Carlos. Ontem de manhã, policiais do Batalhão de Operações Especiais (Bope) subiram os morros de São Carlos e da Mineira, mas nada encontraram. A operação teve o reforço de um helicóptero. O governador Anthony Garotinho solicitou ontem ao secretário de Segurança Pública, Josias Quintal, relatório sobre o confronto. O secretário estava em campanha eleitoral pelo interior.

— É a presença da polícia na rua que proporciona esses confrontos com os criminosos que antes, andavam tranqüilamente pela rua. O Getam, que é o comboio do bem, quando encontra o comboio do mal, tem que enfrentar — disse o governador.

Ferido no braço, bebê está internado

A primeira troca de tiros ocorreu no Estácio por volta das 22h30m de sábado, quando dois traficantes, que desciam a Rua Navarro, dispararam contra um carro da PM que fazia ronda. Um tiro atingiu de raspão o braço esquerdo de Igor Fernandes Santos Machado, de oito meses. A mãe de Igor, Mônica Mota dos Santos, 28 anos, teve fratura exposta no pé esquerdo. Os dois estavam, com José Fernando Albuquerque (ferido de raspão na perna), num bar da Rua Navarro.

Os três foram levados ao Hospital Souza Aguiar. Apenas a criança ainda continua internada. Segundo o boletim de ocorrência da 6 DP (Cidade Nova), os PMs Sérgio Luiz de Castro Vieira e Alexander dos Reis também ficaram feridos no confronto. O marido de Mônica, o taxista Walmir dos Santos Vieira, 38 anos, ficou revoltado com a polícia.

-— A PM deixou de ser caçador para ser a caça — disse, acrescentando que os policiais, na verdade, teriam fugido dos bandidos.

Um amigo de Walmir e Mônica, Leonardo Cardoso disse que os PMs não tentaram socorrer as vítimas.

— Um PM até se escondeu no banheiro do bar — contou Leonardo, que ajudou a socorrer os amigos.

Segundo testemunhas, por volta das 3h, houve nova troca de tiros, desta vez, entre os traficantes. Um “bonde” com integrantes do TC tentou invadir o Morro de São Carlos, que tem parte dos pontos de drogas sob domínio do CV.

— Moro por aqui há 30 anos e nunca tinha presenciado tantos tiros, gritos e correria — disse um morador, que não se identificou.

Os bandidos, armados com fuzis e com roupas camufladas, chegaram ao São Carlos em motos e carros. O grupo foi recebido a tiros por integrantes do CV, numa área descampada da favela. Os PMs do Posto de Policiamento Comunitário do São Carlos, surpreendidos pelos tiros, ficaram entrincheirados. Os soldados abandonaram as guaritas dos presídios do complexo da Frei Caneca para não serem vítimas dos marginais. Os gritos dos invasores apavoraram os moradores.

— Chegaram gritando “terceiro” e disparando contra tudo que viam pela frente. Parecia uma guerra — contou um comerciante.

Policiais do 1 BPM ( Estácio) trocaram tiros com um grupo de homens na esquina das ruas São Carlos e Estácio de Sá. O grupo perseguia e atirou em Felipe de Oliveira Silva, 32 anos, que vestia roupa camuflada. Os policiais socorreram Felipe próximo à Estação do Metrô do Estácio. Ele foi levado para o Souza Aguiar baleado no pescoço e nas nádegas. Seu estado é grave.

A jornalista Mônica Mendes Severo, de 41 anos, foi atingida nas costas por uma bala perdida, quando deixava a casa de amigos, no Estácio. Ela está internada no Souza Aguiar. O taxista José Roberto da Silva, 45 anos, foi rendido por cerca de 50 homens armados com fuzis, pistolas e metralhadoras, quando deixava um passageiro na subida do Morro de São Carlos.

Em depoimento, o taxista contou que os marginais colocaram o corpo do homem baleado e queimado no carro. Em seguido, o mandaram levar o corpo para o Souza Aguiar. O taxista foi obrigado a deixar todos os documentos com a quadrilha. Outros dois corpos foram levados ao hospital pelo motorista Luiz Carlos da Cruz, que dirigia a kombi MCV 1340. Ele contou que também havia sido rendido pelos traficantes, quando passava pelo Estácio. Apenas o corpo de Marcelo Luiz dos Santos Oliveira foi identificado.

Por volta das 6h, outro grupo de homens armados com fuzis atravessou a Rua Itapiru, no Catumbi, em direção ao Morro do Zinco, onde trocou tiros com soldados de uma patrulha. Às 7h, houve mais violência no Estácio: o comerciante Marcelo Santos Nascimento, de 29 anos, foi torturado e morto por bandidos do Morro do Fogueteiro.

Marcelo, segundo testemunhas, dono de uma loja de veículos na Tijuca, teria tido um relacionamento com a namorada de um bandido ligado ao traficante Wil, chefe do tráfico do morro. Conhecida como Kátia, ela teria chamado os traficantes, que balearam o comerciante. Marcelo foi levado para a favela, onde foi espancado até a morte. O corpo foi achado no Golf cinza (LIV- 0414), próximo à Rua Barão de Petrópolis. O carro foi roubado no dia 2, na Gávea.

De acordo com a polícia, os traficantes que assassinaram o comerciante já foram identificados. Amigos de Marcelo estiveram ontem na 6 DP para obter informações, já que ele estava desaparecido desde sábado à noite. Ao saberem da morte, o grupo ficou inconsolável.

Fonte: O Globo – Rio