Nova droga faz primeira vítima no Brasil

Foi registrado oficialmente no país o primeiro caso de intoxicação aguda por 1,4 butanodiol (popularmente conhecida nos EUA como BD), um novo tipo de substância tóxica que, vendida como estimulante ou para proporcionar perda de peso e gordura, causa sérios danos à saúde.

A primeira vítima brasileira da droga -muito difundida nos Estados Unidos entre os frequentadores de academias de ginástica e clubbers- foi um rapaz de 22 anos, classe média alta, praticante de musculação e artes marciais, e que ingeriu a substância diluída com o objetivo de perder peso e ganhar massa muscular.

Seu caso será relatado pelo neurologista Célio Levyman, que o atendeu, em um alerta a ser publicado pela revista da Sociedade Brasileira de Pediatria e em um artigo científico que está sendo proposto à revista da Associação Paulista de Medicina.

Coma
O rapaz, cuja identidade o médico mantém em sigilo, chegou a uma unidade de pronto-atendimento do Hospital Albert Einstein, no final de fevereiro, depois de passar mal em casa -teve alteração de comportamento, superexcitação, vômito e tonturas.

Durante os primeiros exames, ele entrou em coma. Cerca de dez minutos depois, atingiu o patamar mais profundo da escala Glasgow (que mede a intensidade do coma): três pontos.

“Ele é um homem grande, musculoso e forte, tipo sarado, geração saúde. Tinha todos os sintomas aparentes de um coma alcoólico, mas não apresentava o odor característico”, diz Levyman, ex-conselheiro do Conselho Regional de Medicina e do Conselho Estadual de Entorpecentes.

Segundo Levyman, os familiares do rapaz afirmavam que ele não consumia nenhum tipo de droga. Mas um irmão acabou descobrindo que ele tomara 1,4 butanodiol, recomendado por alguém ligado à sua atividade esportiva.

Para estranheza dos médicos que o atendiam, do coma profundo o rapaz simplesmente acordou meia hora depois, como se nada tivesse acontecido. “Foi surpreendente. Ele acordou falante e um pouco excitado, mas logo voltou a cair. O coma acabou sendo revertido, mas ele teve de ficar na UTI e, depois, em observação.”

A substância que quase matou um rapaz saudável é motivo de alerta para as autoridades e entidades civis antidrogas dos EUA, onde duas mortes já foram registradas, assim como diversos casos de coma e intoxicação grave.
A droga está ocupando o espaço deixado por outra substância, o GHB, cuja produção foi proibida pelo governo Clinton em 1996.

Assim como o BD, o GHB era usado em bebidas e medicamentos para “queimar gorduras” e “aumentar a capacidade para atividades físicas”. Misturado ao álcool, o BD faz parte das “club drugs”, drogas utilizadas por frequentadores dos clubes noturnos, como ecstasy e anfetaminas.

Alertas
Entidades como o Nida (Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas), DEA (Agência Nacional Antidrogas) e FDA (agência reguladora de alimentos e medicamentos), assim como departamentos médicos de universidades, têm feito alertas quanto aos riscos causados pela substância.

Os informes científicos dão conta de que há risco de coma e morte, distúrbios no sistema nervoso central, problemas cardíacos e disfunção renal. Tudo indica que sua comercialização será proibida, mas há problemas técnicos a serem resolvidos antes.

Mesmo porque o 1,4 butanodiol não é um remédio, mas sim um solvente de utilização industrial. Combinado com poliuretano, por exemplo, resulta em material sintético de alta resistência. Como o utilizado em carrinhos bate-bate dos parques de diversão.

O problema é que, diluído em líquidos aromatizados e vendido como energético, ele é apresentado como um aliado “sem riscos” para frequentadores de academia.

“A pessoa tem apenas a sensação de que está com mais vigor físico”, diz Levyman, que também aponta efeitos da substância como depressor do sistema nervoso central. “Ela age de maneira similar ao Dormonid. E, como o Rohypinol, é associada ao álcool para quem quer “viajar”.”

Outro problema quanto ao controle da substância diz respeito à maneira como os produtos que a contêm são comercializados: preferencialmente pela internet.

Por ela é possível comprar os produtos comerciais que levam o BD (os mais conhecidos são Enliven, Weight Belt Cleaner e Revitalize Plus), bem como a substância em pó, para ser diluída.

Segundo Levyman, nenhuma das entidades brasileiras que estudam ou controlam tóxicos têm informações sobre o BD.

LUIZ CAVERSAN
da Folha de S.Paulo
Fonte: Folha Online