Drogas ganham espaço entre meninas

Sabrina tem 15 anos, duas tatuagens de henna, piercing na língua, unhas escuras e os cabelos pintados de vermelho-cereja. Na semana passada, ela e a mãe, que é assistente de fotografia, assistiam juntas à novela “O Clone”, na rede Globo.

Em uma das cenas, uma olhou para a outra assustada e, depois de segundos de imobilidade, ambas na gargalhada.

“Eu disse: “Mãe, olha só, o Lobato falando exatamente o que você me disse hoje!” E ela não conseguiu responder nada, de tanto que ria”, lembra Sabrina (nome fictício para preservar a identidade da entrevistada). A menina, que está no primeiro ano do ensino médio, começou a fumar maconha aos 12.

Na tela, o ex-viciado Lobato (Osmar Prado) falava sobre os perigos das drogas, enquanto cenas intercaladas mostravam a jovem Mel (Débora Falabella) sob o efeito da cocaína.

Quem torce o nariz para a jornada droga adentro retratada pela novela deve saber que Mel, assim como Sabrina, são figuras centrais dessa nova realidade: as meninas, dizem os especialistas, estão “barbarizando” mais do que os meninos.

Embora não existam levantamentos oficiais, a experiência dos consultórios revela que, nos últimos dois anos, o número de garotas envolvidas com drogas aumentou numa proporção bem maior do que entre os garotos.

“Antes, a gente via nos consultórios quatro rapazes para uma menina. Atualmente, são quatro para duas meninas”, afirma Dartiu Xavier da Silveira, chefe do Proad (Programa de Orientação e Atenção ao Dependente) da Universidade Federal de São Paulo.

Ronaldo Laranjeira, coordenador da Unidade de Álcool e Drogas da Unifesp, credita essa curva de ascensão feminina à mudança de comportamento delas. “As meninas agora desempenham papel igual ao dos rapazes, frequentam as mesmas baladas, têm a mesma liberdade de sair quando querem e de voltar tarde”, diz.

Elas não estão só mais livres, estão também começando mais cedo, segundo a terapeuta Lidia Aratangy, 60, professora da PUC-SP e autora de livros sobre educação juvenil. “A minha geração achava precoce garotas de 14 anos beberem e fumarem maconha. Hoje, nessa idade, já há meninas cheirando cocaína.”

Lidia diz que as anfetaminas, pílulas para cortar o apetite, ainda são o carro-chefe entre as garotas, mas a maconha e, principalmente, o álcool, estão ganhando espaço a passos largos.

Sabrina é exemplo de menina que começou bebendo. “Nas matinês, é difícil achar alguém que não esteja bêbado”, conta Alessandra Abbud, 15, que frequenta danceterias da Vila Olímpia.

Diferenças
Entre meninos e meninas há ainda outras diferenças. “Elas misturam mais substâncias que eles: álcool, cocaína, maconha, tranquilizantes, calmantes, remédios para emagrecer, e procuram tratamento em estado mais grave”, relata Sandra Schivoletto, 34, psiquiatra e coordenadora do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas da Faculdade de Medicina da USP.

Elas também vão mais ao fundo que eles. “As garotas apresentam mais quadros depressivos e tentativas de suicídio, enquanto os garotos têm mais distúrbios de comportamento e índice de repetência nas escolas”, conta.

Vantagem de ser mulher
Mas há lado bom que não devem ser esquecido. “É claro que é mais difícil para uma menina assumir que fuma maconha ou que bebe demais.

Mas, se ela descobre um canal, tem muito mais facilidade para se abrir, falar sobre o seu íntimo, confessar que está sofrendo”, explica a educadora Helena Becker Albertani, 58, que dá cursos de prevenção contra drogas em escolas de São Paulo.

Para quem já entrou no olho do furacão, não é fácil. Sabrina continua convivendo normalmente com sua turma. Mas, atendendo aos “sermões” da mãe, está pensando em procurar um psicólogo para tentar largar as substâncias. “Esse mês, já falei “não” umas 15 vezes.”
Fonte: Folha Online