Bebia para imitar meus pais

Depois de ser alcoólatra e viciado, jovem funda associação para dependentes

“Já não conseguia fazer mais nada quando procurei ajuda. Meu único objetivo era chegar ao fim da tarde para poder começar a beber e a me drogar”. A declaração é de Marcelo da Rocha, 30 anos, hoje presidente da Associação dos Dependentes Químicos em Recuperação, uma entidade fundada em dezembro do ano passado que tem como objetivos recuperar a cidadania dos dependentes químicos.
Marcelo conta que começou a beber em casa, quando tinha apenas 13 anos. “Meus pais sempre beberam e, na televisão, todos tomavam um drinque para relaxar. Passei a beber para imitá-los”, lembra. Ele ressalta que a influência exercida pela sociedade contribuiu muito para sua dependência química. “Me lembro que uma vez tive uma dor de dente e todos falavam que se eu tomasse cachaça com limão a dor passaria. Isso foi um fato muito marcante”.

Aos 15 anos, a bebida já era presença constante nas festas que freqüentava e nos encontros com os amigos. “A primeira coisa que procurava quando chegava em um lugar era a bebida. À medida que o tempo passava, eu bebia mais e mais e não conseguia me divertir se não fosse desta forma”, conta Marcelo.

Ele lembra que, na época, seus pais reclamavam que ele estava abusando do álcool. “Eles não gostavam do meu comportamento, mas também não achavam que era nada reprovável. Além disso, meu pai não tinha moral para falar nada, pois ele também bebia muito. Por ser uma droga lícita, o álcool cria um abismo enorme”.

Marcelo revela que chegou a beber por nove horas seguidas, envolvendo-se em brigas e confusões. Aos 18 anos, começou a fazer uso de cocaína. “Eu cheirava porque aquilo me dava resistência para beber ainda mais. Me tornei uma pessoa agressiva, emocionalmente desequilibrada”. O inferno vivido por Marcelo durou mais cinco anos, quando ele decidiu procurar ajuda.

Há sete anos em tratamento, Marcelo já participou do AA, foi internado cinco vezes em clínicas de recuperação de drogados e até hoje freqüenta o Conselho Estadual Anti-Drogas (Cead) e o Núcleo de Estudos e Pesquisas em Atenção ao Uso de Drogas (Nepad). (F.M.)
Fonte: JB OnLine