Uma guerra contra o ecstasy

NOVA YORK – Semana passada começaram a ser veiculados os primeiros anúncios na televisão americana sobre os perigos do ecstasy. Fora o álcool, cuja propaganda negativa geralmente é associada a dirigir automovéis em estado alcoólico e o compartilhar das agulhas infectadas pelos junkies heroinômanos (cuja campanha era mais preventiva e guiada contra a Aids), a fortíssima campanha televisiva sobre os perigos do ecstasy é a primeira na história a merecer tamanha atenção da saúde pública.
Por quê? Porque ecstasy não é uma droga. São várias. E essas variações são a causa e a conseqüência de um número de mortos sem precedentes e sem uma linha previsível de prevenção, uma vez que o paciente (ou vítima) entra no estado descrito pelo Surgeon General, o ministro da Saúde, como irreversible brain damage (dano mental irreversível). Esse dano irreversível pode ser a paralisia total do corpo ou um severo derrame cerebral que pode levar até a morte. Mas não se saberá até que uma geração inteira de cobaias passe pela primeira fase de estudos.

Álcool – Aparentemente nenhuma droga teve tamanha aceitação, tamanha penetração na sociedade, em qualquer época e em tão amplo leque de faixas etárias. Com seus preços acessíveis e uma ‘onda’ que dura um tempo generoso na equação custo-benefício, o ecstasy está sendo classificado pelo Surgeon General como uma calamidade. Não foi assim com o ácido, nem a cocaína, nem o crack e nem a heroína. O departamento de saúde nunca fez tamanho estardalhaço.

A não ser contra o álcool, é claro. No domingo retrasado, o programa CNN presents fez um longo e brilhante documentário sobre isso que não é considerado droga, mas é a droga mais letal de todas e é encontrada em qualquer bar. O álcool não é somente um destruidor daquele que o toma, mas da eventual família inteira do motorista alcoolizado. Mesmo assim, fatal como é, posso sair daqui a qualquer momento e entrar numa das três liquor stores ou sete bares aqui na esquina e comprar a quantidade que quiser de vodca ou qualquer outra bebida ‘pesada’.

Como entender o alerta do governo? Se o álcool mata mais, por que não vemos campanhas iguais sobre a bebida? Lobby? Indústria? Lucro? Claro que sim. Já não foi a mesma coisa com a indústria tabagista? O Congresso (e o senador Waxman, especificamente) não gastou milhões de dólares no processo contra as firmas de cigarro? E daí? O cigarro só ficou mais caro. As taxas estaduais altíssimas justificam o quê? E no caso do açúcar refinado, e da condenação pública por parte do EPA (Enviromental Protection Agency/Agência de Proteção ao Meio Ambiente) de 70% dos agricultores americanos por estarem abusando dos agrotóxicos? Deu em alguma coisa? Deu sim. Deu em muitas mortes de inocentes e muitas doenças e paralisias América afora.

No meu dicionário, esse paradoxo entre o que é ‘perigoso, porém legal’ contra aquilo que é ‘perigoso, porém clandestino’ é simplesmente uma questão jurídica, ou de tempo.

Mas, voltando ao ecstasy.

Essa ‘calamidade’, como o governo projetou, é uma projeção para o futuro e não tem ne nhum cunho moralista. A saúde pública está somente se manifestando depois de observar os casos por cinco anos seguidos, ajudada por uma equipe de laboratoristas e médicos, isenta de quaisquer moralismos.

Conversei com alguns neurologistas e todos estão de acordo: os danos deixados pelo ecstasy são profundos, principalmente porque suas seqüelas não são sentidas imediatamente. Ele não provoca rebordosas ou ressacas aparentes ou reconhecíveis.

A rebordosa é um sinal de alerta que o próprio corpo fornece para avisar sobre os excessos cometidos no dia anterior. Como o ecstasy não tem tais ‘dias seguintes’, o usuário acha que pode continuar num uso contínuo. E é justamente aí que reside o perigo: ‘Em questão de alguns anos, as tais “não rebordosas” se manifestarão de uma só vez’, diz o médico Terry Fonville. ‘E aí terá sido tarde demais. Os danos neurológicos, no campo mais desconhecido da medicina, terão sido terríveis.’

Os depoimentos usados nos anúncios da televisão são todos verdadeiros. Todos são takes únicos de mães, amigos e irmãos de pessoas que morreram. Não há ensaio. Só o foco da câmera, a fotometragem da luz e o action do diretor. O resultado é uma propaganda chocante e emocionante dos 30 segundos resgatados e reduzidos durante a edição desses depoimentos.

Como o ecstasy não tem cheiro e tem forma de pílula como uma aspirina qualquer, a dor de cabeça para a polícia alfandegária é enorme. Não é como a cocaína (que os cachorros detectam pelo forte cheiro de acetona amargo) ou a heroína. A penetração do ecstasy é chamada aqui de flooding, ou seja, um transbordamento, equivalente à entrada do ácido, há décadas.

Tiques – Em contraponto, todos sabemos que os alarmes e as catástrofes pintadas por autoridades sobre drogas ilegais sempre foram exageradas e alarmantes. Falava-se horrores do LSD na minha adolescência. Falava-se em ‘viagens sem volta’, em pessoas que voavam dos décimos andares etc. Eu tomei ácido algumas vezes e simplesmente não fui ‘pego’ pela coisa. Não foi bom, não foi ruim, não foi nada. Olhando pra trás, nenhum dos meus amigos, todos hippies ou artistas e freaks em geral, sofreram degeneração moral ou venderam suas mães em troca de droga. Estão todos aí, vivos, trabalhando, produzindo.

Alguns, como Ozzy Osbourne, desenvolveram retardamentos engraçados, idiossincrasias estranhas, mas que não passsam de ‘tiques de personalidade’, coisas tidas como normais em qualquer sociedade. São os tais seres ‘exóticos’ que sempre existiram.

E sempre resta a pergunta sobre como a mente processa, quimicamente, a repressão àquela substância que você está ingerindo. Será que alguma lesão teria sido causada se não houvesse repressão? Não podemos usar o exemplo dos estranhos desvios da sexualidade, como prova de que a repressão é grande parte culpada nessa equação?

Ou será que os desvios de personalidade, que podem beirar a insanidade, resultaram somente do excesso do uso da droga? O constante medo e o desafio não fazem parte desse mapa psicológico?

Segundo alguns psiquiatras, é claro que fazem. Todo o behavior (comportamento) e todo o processamento químico do corpo seria diferente numa sociedade mais tolerante e menos hipócrita.

O ecstasy é um designer drug e alguns usuários acham que aquele carimbinho é feito especialmente para eles. Essa droga contém anfetaminas, morfinas e várias outras inas que, somadas, podem atrofiar canais cerebrais irreversivelmente. O ecstasy esquenta e esfria as meninges com uma rapidez incrível, e isso poderia ser a grande causadora dos danos neurológicos. É o tal rush de calor que o raver sente, aquelas ondas de calor que vêm espinha acima e explodem na cabeça. Um especialista comparou esse processo biológico a várias explosões num só prédio, com pequenos focos de incêndio e duchas de água fria da mangueira dos bombeiros, tudo em questão de segundos.

Barbarella – Quando eu experimentei ecstasy (acho que umas três vezes) não deu nada. Nada mesmo. Não dormi porque fiquei observando pessoas à minha volta virando verdadeiras pinturas de Picasso. ‘Deve estar ótimo aí dentro’, eu pensava. O tal ‘toque maravilhoso’ (que reduziu a experiência sexual ao tal toque da Barbarella e, portanto, diminuiu a incidência da Aids entre jovens ravers), eu nunca senti. Mas vi o pessoal sentindo.

O uso de algum paliativo sempre acompanhou a humanidade. Nunca foi diferente, nesses milhares de anos de civilização. Mas o governo americano, nessa campanha, não está tentando imprimir nenhum tom repressivo em sua severa advertência. Ao contrário, está usando a tática e técnica esclarecedora (e genial) de Timothy Leary: ‘Procure saber exatamente o que você está tomando. Seja consciente porque todas as drogas lidam exatamente com isso: com a sua consciência.’

De uma certa forma, é um incrível avanço o fato de Leary hoje ser um exemplo, ao invés de ser tratado como um marginal irrecuperável. Depois de tantas décadas experimentando e reportando suas experiências, é a consciência de Leary que chegou ao mainstream.

Fonte: Jornal do Brasil – Caderno B