Tráfico é fantasma da eleição na Colômbia

Num país como a Colômbia, no qual o narcotráfico permeia toda a sociedade e sustenta uma longa e sangrenta guerra civil, os dois principais candidatos na eleição presidencial do próximo domingo procuram se afastar das suspeitas que recaem sobre o passado de ambos.

O direitista Alvaro Uribe, que aparece como favorito nas últimas pesquisas, com 49,3% das intenções de voto, se viu nas últimas semanas acuado por acusações de supostos vínculos com o narcotráfico, o que ele nega com contundência.

Em uma biografia não autorizada de Uribe, lançada na semana passada, o jornalista americano Joseph Contreras, chefe do escritório de Miami da revista “Newsweek”, estabelece uma série de relações entre o candidato e o tráfico.

Contreras afirma que Uribe, como prefeito de Medellín, em 1982, teria tido contatos com o chefe do cartel de Medellín, Pablo Escobar, então deputado, para desenvolver um programa de habitação popular. Numa entrevista concedida a Contreras em março, Uribe afirma que o programa já existia quando ele assumiu o cargo e que a Procuradoria Geral o inocentou dessa acusação.

Em outra passagem, o jornalista afirma que, entre 1997 e 1998, a DEA (agência antinarcóticos dos EUA) confiscou 50 mil quilos de um produto químico utilizado para o refino da cocaína que teriam sido comprados por uma empresa em nome de Pedro Juan Moreno, na época seu chefe de gabinete no governo do Departamento (Estado) de Antioquia. O candidato diz que só tomou conhecimento do caso após deixar o cargo.

O principal adversário de Uribe, o liberal Horacio Serpa (centro), que tem 23% das intenções de voto, também tem em seu passado suspeitas de ligação com o narcotráfico.

Ele foi o principal coordenador da campanha à Presidência de Ernesto Samper (1994-1998), que, depois de eleito, foi acusado de ter recebido doações de narcotraficantes e escapou por pequena margem de um processo de impeachment no Congresso. Serpa e Samper argumentam que as doações foram feitas sem o conhecimento deles.

Tema sensível
O tema do tráfico é particularmente sensível na Colômbia, principalmente por conta do impacto que teve em alimentar a guerra civil no país. Com o desmantelamento dos grandes cartéis da droga, no começo dos anos 90, os grupos guerrilheiros passaram a se financiar com o refino e a venda de drogas, aumentando sua capacidade militar.

Por outro lado, os grupos paramilitares, criados para combater os rebeldes, nasceram dentro dos cartéis da droga. Fidel Castaño, criador do principal grupo paramilitar do país, as AUC (Autodefesas Unidas da Colômbia), era um dos sócios de Pablo Escobar no cartel de Medellín. Seu irmão, Carlos, já admitiu diversas vezes que o tráfico é a principal fonte de recursos do grupo.

“A capacidade de ação dos grupos rebeldes em ameaçar o Estado era muito reduzida até os anos 80, mas cresceu a partir do envolvimento com o narcotráfico”, afirma o jornalista Alonso Salazar, especialista no assunto. “A principal tarefa para o próximo governo será o combate às drogas, que é a base de todo o conflito no país”, diz.

As propostas dos principais candidatos em relação ao tema, porém, são consideradas pelo especialistas como insuficientes para combater o problema de forma efetiva. “Não há propostas reais dos candidatos”, afirma Sergio Uribe, membro da Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes, órgão ligado à ONU.

Uma das principais propostas de Alvaro Uribe é a concessão de subsídios aos camponeses para que substituam cultivos de coca por produtos legais, enquanto o foco da proposta de Serpa está no controle da lavagem de dinheiro pelos grupos ilegais.

“Uma política eficiente contra as drogas tem de englobar simultaneamente questões como violência, corrupção, lavagem de dinheiro, erradicação de cultivos, entre outras coisas”, afirma Sergio Uribe. “O problema do tráfico não é o que aparece na superfície, mas o que está enterrado.”

Fonte: Folha Online – Em Cima da Hora