Homicídio responde por 60% das mortes no crack

As mortes causadas pelo crack no Brasil podem estar sendo provocadas muito menos pelo efeito destrutivo da droga no organismo do que pelo degradado contexto social do seu consumo. Um estudo realizado na Unifesp verificou que aproximadamente 60% dos dependentes analisados morreram assassinados, compondo um índice oito vezes superior à taxa geral de mortes na cidade de São Paulo e sem paralelo com outros entorpecentes.

“Como é um mercado ilegal, sem normatização, criam-se mecanismos informais para regulamentá-lo: as balas”, explica o psiquiatra Marcelo Ribeiro de Araújo, que avaliou a mortalidade dos usuários de crack por meio do acompanhamento de 131 dependentes da droga internados entre 1992 e 1994 na Clínica de Desintoxicação em Álcool e Drogas do Hospital Geral de Taipas, no Jaraguá, bairro periférico da zona norte da capital paulista. Os pacientes ou seus familiares foram entrevistados em 1996 e 1999, e a pesquisa foi formalizada numa dissertação de mestrado.

O total de mortes verificado em cinco anos, 17,6%, já é alarmante. Contudo, quando se têm em vista as políticas de combate às drogas, é ainda mais preocupante o fato de os homicídios presidirem 56,5% dos óbitos, a overdose ser a responsável por menos de 10% das mortes e a Aids atingir a segunda colocação como “causa mortis” (26,1%). Essa composição, sobretudo a taxa de incidência de assassinatos, é inédita para todos os estudos realizados sobre narcóticos.

As baixas entre os pacientes do hospital produziram uma média equivalente a 35,1 mortes por mil habitantes ao ano. Aplicando o resultado para a parcela da população paulistana com o mesmo perfil de sexo e idade, chega-se a um total de 24,9 óbitos por mil moradores de São Paulo, cidade que registrava mortalidade média anual de 3,3 em cada mil habitantes na época do estudo. Esse excesso indica 7,6 usuários de crack mortos (por homicídio ou Aids em mais de 80% dos casos) para cada paulistano que morre por ano.

Segundo Ribeiro, a exclusão social é a principal responsável por essa matemática. A prevalência do assassinato se daria por causa da concentração do consumo nas áreas onde o Estado é mais ausente, sobretudo a periferia, e do relativamente recente aparecimento do crack. 

Embora muitas vezes o crack seja associado à figura do assassino, o trabalho mostra que o usuário faz parte de um grupo com grande probabilidade de integrar o crescente contingente dos assassinados. Os dados sugerem que os dependentes podem estar inflando os números das vítimas de homicídio. “Não tenho nenhuma dúvida disso. Se não for oferecida maior diversidade de serviço público de atendimento aos usuários, essas pessoas continuarão a morrer ou a ir para a prisão”, afirma Ronaldo Laranjeira, professor do Departamento de Psiquiatria da Unifesp e orientador da dissertação de mestrado de Ribeiro.

Soluções

Pelas circunstâncias das mortes dos pacientes analisados em seu estudo, Ribeiro afirma que não basta tentar impedir o ingresso de novos jovens na dependência ou insistir na busca da abstinência. Para reverter o quadro apresentado pelos pesquisadores, haveria a necessidade de pensar na prevenção num sentido mais amplo, levando em conta o caos social que envolve a vida do dependente.

Segundo Ribeiro, seria preciso ainda conceber medidas de redução de danos para aqueles que se opõem a abandonar o vício. Essas iniciativas, cuja intenção principal é evitar a morte do indivíduo, devem ser balizadas pelo resgate da cidadania.

“Fazemos uma pesquisa e sempre chegamos ao mesmo ponto: a exclusão social precisa ser combatida”, declara o psiquiatra. Para o médico, é possível obter bons resultados a curto prazo e minimizar os danos causados pelo abuso de drogas. A estratégia estaria em revitalizar locais de integração, como escolas, igrejas e centros comunitários, para tornar esses ambientes mais atraentes do que aqueles onde os assassinatos usualmente ocorrem. “Já dá pa-ra fazer isso com o que há disponível.”

O psiquiatra Auro Lescher, coordenador do Projeto Quixote (programa ligado à Unifesp que oferece assistência e atividades de cultura e lazer a jovens em situação de risco social), afirma que o problema do crack é estrutural, relacionado às condições de vida. “Costumamos dizer aqui que criança prefere empinar pipa a pipar pedra. Essa idéia também vale para os mais velhos.

Rodrigo Pena Majella
Universidade Federal de São Paulo (Unifesp/EPM) 
Jornal da Paulista Ano 15 – N° 164 Fevereiro de 2002