Novos avanços da droga

O Brasil está cada vez mais espremido. De um lado, as drogas naturais procedentes da Colômbia, do Peru, da Bolívia e do Paraguai. Do outro, as conseqüências decorrentes da narcotização do continente africano, com as elites detentoras do poder político corrompidas pelos narcodólares da criminalidade organizada. 

A máfia nigeriana está entre as três mais ativas no planeta, fornecendo drogas naturais e sintéticas. Encontra-se presente em 60 países e nas grandes metrópoles como Rio de Janeiro e São Paulo. Além disso, virados para o Brasil como a Nigéria estão os narcoestados de Gâmbia e Benin. Ainda na África Ocidental, temos os estados-cúmplices com o tráfico de drogas, como Senegal, Guiné Equatorial, Costa do Marfim e Gana. Para rematar, convém notar que a máfia nigeriana liga-se ao grande tráfico operado, na África Oriental, pelo Quênia, a Somália, países vizinhos da Ásia. 

O Brasil vem sendo inundado por cocaína e sua classe média recebe metanfetaminas, como o ecstasy, em drágeas e líquido. Nas grandes capitais européias, custa um euro uma cápsula de ecstasy e 20 euros um papelote de cocaína. No Brasil, a pastilha de ecstasy é vendida por 50 reais nas discotecas e a cocaína sai por quatro reais. 

Duas novas situações surgiram no mercado das drogas proibidas. A primeira veio com a Cannabis proveniente de sementes geneticamente modificadas: maconha transgênica. A segunda prende-se à consolidação das drogas sintéticas, tipo metanfetamina: ecstasy, flatlyner etc. Essas drogas são produzidas em laboratório e ativam os neurônios. Os consumidores ficam “ligados”. Ficou o ecstasy conhecido como a “droga da diversão”. 

O tráfico da maconha transgênica estaria sob controle das máfias albanesa e nigeriana. E os cultivos encontráveis na Albânia e nos tradicionais centros produtores africanos. Em breve, poderão estar no polígono pernambucano ou nos demais estados nordestinos, para onde o governo federal deixou migrar a maconha, após as operações Mandacaru e Moxotó-Pajeú. 

As drogas sintéticas substituíram a cocaína. São mais potentes como estimulantes do sistema nervoso central. Também desbancaram os narcóticos como o ópio e a heroína. Essas duas últimas são drogas depressoras e as pessoas ficam “desligadas”. 

Não tomaram as drogas sintéticas o lugar da maconha. A maconha corre em faixa própria. Mantém-se absoluta, já que seu uso não exclui o de outras drogas. A maconha não é estimulante como a cocaína. Nem depressora, como ópio e heroína. Tem particular efeito, deixando a mente perturbada. Com relação à Canna bis, pode-se perceber, ao longo dos anos, freqüentes tentativas para fortalecer o seu princípio ativo: tetraidrocanabinol (THC). 

Para aumentar o percentual do THC, atentou-se às condições climáticas e de solo. Na velha maconha dos anos 60, o teor do THC variava de 2% a 4%. Elaborou-se o haxixe, que elevou o THC para 15%. Depois veio o óleo de haxixe, que chegou a atingir 30%. 

Apareceu, ainda, o holandês “skunk”, obtido pelo sistema hidropônico, sem plantio em terra e com crescimento à base de lâmpadas halógenas, com 40% de THC. Agora, chegou a transgênica, que aumentou em 18% o percentual alucinógeno, garantindo esse efeito. Por outro lado, percebeu-se que a tendência e opção pelas drogas sintéticas, do tipo metanfetamina, é irreversível nos países do Primeiro Mundo. 

Nos EUA, caiu em 50% o consumo de cocaína e aumentou a demanda por ilegais drogas sintéticas. Idem, na Europa. Portanto, o consumo de drogas não caiu. Houve troca por droga sintética, mais potente. 

No Marmottan, centro francês de referência internacional, as mudanças foram percebidas. E lá as diferenças são logo verificadas, pois o Marmottan funciona sem agendamentos: basta chegar. 

Seu novo diretor, Marc Valleur, alertou: “A preferência agora recai sobre os sintéticos estimulantes, a exemplo do ecstasy e produtos como a ketamina (uso veterinário em cavalos), o ‘pcp’, o ‘dob’ e a pólvora dos anjos, que é a fenciclindina.” 

Nos países ricos multiplicaram-se as “cozinhas”, nome dado aos pequenos laboratórios clandestinos operados pelas máfias. 

Para se ter idéia, os americanos descobriram e fecharam 810 laboratórios no ano 2000. No ano passado, subiu para 7.502 o número de laboratórios lacrados. 

Para os laboratórios clandestinos, as máfias recrutaram os químicos desempregados do Leste da Europa. As drogas sintéticas são fáceis de fabricar, comercializar e vender. 

O grande estímulo para esse tráfico deveu-se ao fato de as polícias, no mundo inteiro, só conseguirem apreender de 5% a 10% das drogas sintéticas. 

Com as drogas sintéticas, as máfias vão-se livrando de problemas inerentes ao cultivo de drogas naturais e seminaturais, provenientes da América Latina e da Ásia. Tudo ficou mais barato. 

Enquanto isso, o governo do presidente FH encontra-se engessado numa canhestra política de enfrentamento ao fenômeno das drogas, de modelo americano. Nem percebe os aumentos de oferta/demanda e a precariedade do atendimento médico-terapêutico. 

Walter Fanganiello Maierovitch foi secretário nacional Antidrogas.
Fonte: O Globo – Opinião