Dos brasileiros, 11,6% com mais de 12 anos já usaram drogas

Por Darlan Alvarenga

SÃO PAULO – O consumo de drogas entre menores de 14 anos também é um assunto novo no meio científico e estatístico. A psicóloga Vera Da Ros, assessora técnica do Programa das Nações Unidas para o Controle Internacional das Drogas (UNDCP) destaca que não há estatísticas ou pesquisas nacionais e internacionais que diagnostiquem ou enfoquem especificamente o consumo de drogas entre menores de 14 anos.

“Os levantamentos estatísticos e as pesquisas costumam abordar o consumo a partir dos 15 anos”, diz. “Embora estejamos vendo o fenômeno nos consultórios e nos programas de tratamento, ainda não foi feita uma coleta de dados que diagnostique o problema em termos quantitativos.” Ela afirma que as pesquisas disponíveis apontam que 35,8% dos norte-americanos e 11,6% dos brasileiros com 12 anos ou mais já usaram algum tipo de droga, exceto álcool e tabaco. “Esses levantamentos, no entanto, não tabularam o uso específico entre os menores de 14 anos”, diz.

Embora não enfoque a questão do consumo entre menores de 14 anos, pesquisa de 1997 do Centro Brasileiro de Informações de Drogas (CEBRID) com alunos das redes estaduais de dez capitais do País revelou que 12,4% das crianças entre 10 e 12 anos já tiveram algum contato com drogas, exceto álcool e tabaco.

Dos alunos que declararam já ter tido algum contato com drogas, no entanto, apenas 0,8% disse já ter experimentado maconha, 0,2%, cocaína e 0,2%, alucinógenos. Segundo a pesquisa, a droga mais consumida por essa faixa etária são os solventes (8,6%), seguido pelas anfetaminas 1,2%. Outros cerca de 3% já tiveram contato com medicamentos como calmantes, estimulantes de apetite e xaropes.

Álcool e tabaco

Já o consumo de álcool e tabaco se revela alto nessa faixa etária. Das cerca de 588 crianças entrevistadas, 9,1% disseram que já tiveram contato com tabaco e 53,2%, com álcool. “Isso significa que mais da metade das crianças entre 10 e 12 anos já experimentou álcool. E quase sempre isso ocorre dentro de casa e com o aval dos pais, em reuniões familiares ou em festas”, diz a psicóloga Ana Regina Noto, pesquisadora do Cebrid.

“Vitor”, de 15 anos, internado por uso de cocaína e maconha, começou a fumar cigarro e beber aos 9 anos. “Nas festas de casamento e aniversário, o meu pai pegava uma garrafa para mim e dava escondido, sem que minha mãe visse.”

Segundo a pesquisadora do Cebrid, se existe alguma porta de entrada para as drogas, ela está no tabaco e no álcool. “Isso não significa que aquele que experimenta essas drogas vá avançar para outras, mas é difícil encontrar um usuário que não tenha antes fumado cigarro ou consumido álcool”, afirma Ana Regina. Ela explica que os solventes costumam ser as drogas mais utilizadas por essa faixa etária por serem menos controladas e consideradas mais leves em comparação à cocaína e à maconha.

Novas drogas

A cada dia, novas substâncias químicas vendidas licitamente e utilizadas pela indústria são descobertas pelos jovens. Algumas são inaladas ou ingeridas em sua composição original. Outras, fabricadas de forma caseira. Como estão “camufladas” em diversos produtos, os entorpecentes passam muitas vezes despercebidos.

O gás butano, altamente tóxico, é encontrado em isqueiros e cornetas vendidas em bancas e lojas de brinquedos. Já o líquido B-25 é vendido em um tubo de plástico branco, sem rótulo. Até artigos aparentemente inofensivos – como fitas cassete e de vídeo, pilhas e radiografias – os jovens conseguem retirar drogas perigosas.

O que assusta especialistas, pais e educadores é o fato algumas substâncias serem lícitas, coisas que os adolescentes compram e usam sem ter noção exata dos riscos que representam. Por serem drogas lícitas, os jovens acabam colocando-as na mesma categoria do álcool, muitas vezes aceito pelos pais”, afirma a psicóloga Selma Bordim, do Programa de Álcool e Drogas do Hospital Albert Einstein.

Segundo a psicóloga Ana Regina Noto, a relação das crianças e adolescentes com as chamadas drogas lícitas é diferente, pois os garotos se sentem mais seguros. “A aquisição dessas drogas é mais fácil, as crianças não precisam da boca ou do traficante, basta ir no comércio da esquina”, diz.
Fonte: Último Segundo