Droga causa lesão que não regride nem em 2 anos de abstinência

Campinas, SP – O uso contínuo de drogas causa lesões cerebrais que não regridem nem mesmo depois de dois anos de abstinência. A conclusão é de pesquisadores do Departamento de Medicina Nuclear da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que estão produzindo estudo com crianças e adolescentes usuários de entorpecentes. “Possivelmente, essas lesões são irreversíveis”, afirmou o pesquisador Rodrigo Rizzo.

Rizzo e Elba Etchebehere coordenaram os trabalhos, feitos com 16 dependentes químicos, com idades entre 12 e 18 anos, que usaram, por até sete anos, cola, cocaína, maconha e crack. Pacientes de uma clínica de reabilitação de Campinas, estavam em abstinência por períodos entre quatro meses e dois anos.

Os dependentes em tratamento foram submetidos a um exame chamado spect cerebral, uma espécie de tomografia que consegue determinar o fluxo sangüíneo e o funcionamento do tecido de todas as regiões do cérebro. Na imagem gerada pelo equipamento, é possível descobrir defeitos no fluxo e no tecido, inclusive os provocados pelo uso de drogas.

Segundo Rizzo, todos os pacientes apresentaram lesões em todas as áreas do cérebro, proporcionais ao tempo de uso de entorpecentes. Quanto maior o período de dependência, mais grave a lesão. O médico comentou que a área frontal do órgão, responsável pelas emoções, foi uma das mais atingidas.

A clínica de reabilitação, uma entidade assistencial com 120 pacientes, solicitou a pesquisa porque o corpo de psiquiatras percebeu que os dependentes manifestavam alteração das funções motoras, problemas de aprendizado e concentração. As pesquisas tiveram início há dois anos, e o pesquisador disse que devem estar concluídas no final deste mês.

As imagens dos cérebros dos dependentes estão sendo comparadas com a de não-dependentes para a elaboração de quadros estatísticos. “Ainda não é possível adiantar os resultados”, afirmou Rizzo. De acordo com ele, foram necessários dois anos porque cada exame foi avaliado individualmente.

O pesquisador disse que seria interessante acompanhar a evolução dos pacientes pesquisados, inclusive para observar se há alguma possibilidade de reversão dos defeitos cerebrais no caso dos que conseguirem se manter afastados do vício. Mas ele explicou que será muito difícil conseguir localizar e reunir novamente os pesquisados.

“Muitos abandonam o tratamento. Mas vamos tentar dar continuidade aos estudos”, disse Rizzo. Ele afirmou que não há recursos disponíveis para corrigir as lesões cerebrais provocadas por uso de entorpecentes. “O único caminho é a prevenção”, apontou. Afirmou ainda que não é possível apontar seqüelas, mas reconheceu que os pacientes poderão ter dificuldades no trabalho e na escola.

De acordo com o pesquisador, o equipamento utilizado para obter o spect cerebral, uma espécie de tomógrafo, está disponível apenas em hospitais de grande porte e particulares. É usado por psiquiatras e neurologistas para, entre outras coisas, avaliar demência e doenças como mal de Alzheimer.
Fonte: Agência Estado – Silvana Guaiume