Vício em drogas se fortalece por associação com contexto social

Situações de estresse aumentam dependência química, e comportamento das primeiras vezes de uso pode se tornar padrão

Rodrigo Pena Majella

Fotos: Stela Murgel

(Foto)Roberto Frussa Filho, professor da disciplina de Farmacologia e coordenador das pesquisas sobre a relação entre meio e dependência
O contexto social exerce uma forte influência sobre o vício em drogas. Recentes estudos da Unifesp indicam que a dependência química é sensível a associações psicológicas entre os efeitos das substâncias e o ambiente em que são usadas. Essas vinculações podem tornar uma pessoa mais suscetível ao vício, ativar-lhe o desejo de se drogar e até criar um padrão de comportamento nos momentos em que está sob o efeito da droga.

Os estudos, coordenados por Roberto Frussa Filho, professor da disciplina de Farmacologia, foram realizados com camundongos, animais que apresentam um útil paralelismo com o homem: o aumento que a administração repetida de drogas provoca na atividade motora desses modelos ocorre pelos mesmos mecanismos cerebrais que estão relacionados ao avanço da dependência química no ser humano. A progressiva “fissura” de um usuário pela droga corresponde cientificamente, portanto, ao aumento da movimentação do camundongo.

Já se sabe que doses repetidas de algumas drogas intensificam a movimentação dos animais e produzem maior dependência no homem. A novidade é que em determinadas situações o nível na atividade motora sobe mais.

Um dos experimentos, realizado pelo biomédico Rogério Bellot para a sua tese de doutorado, indica que crises nas relações sociais têm grande impacto sobre a vontade de usar drogas. Dois grupos de animais foram estudados com seguidas administrações de anfetamina: um permaneceu com os mesmos indivíduos; outro recebeu um animal novo a cada dose, criando uma situação de estresse social.

Resultado: ambos ficaram mais agitados, mas a inquietação foi bem maior no segundo grupo. Acredita-se que entre humanos o vício também seria potencializado por distúrbios sociais.

Outras experiências têm resultados semelhantes. Dados preliminares da pesquisa da doutoranda Nilza Pereira Araújo sugerem que o consumo com outros usuários causa uma dependência maior do que a utilização entre não-usuários e que quanto maior o número de consumidores em um mesmo grupo, mais fortalecido é o vício.

Comportamento-padrão

O contexto social das primeiras vezes de uso da droga pode ser determinante também no comportamento que o indivíduo apresentará sob o efeito da substância. Bellot percebeu isso analisando a reação de camundongos colocados sobre um disco de madeira em duas situações: no chão, com parede nas bordas; e elevado a certa altura, sem a proteção.

Quando colocados no disco com as paredes, os animais andaram próximos a elas; sem as paredes, sentiram-se inseguros e se moveram apenas na região central. Ao serem drogados com anfetamina nos mesmos ambientes em que estavam, seus movimentos se intensificaram, mas sempre com o mesmo comportamento.

Passados sete dias da primeira injeção de anfetamina, o animal que fora colocado no disco sem paredes recebeu uma nova dose e foi colocado no disco com proteção nas bordas. Apesar de estar num ambiente seguro, o camundongo reproduziu o comportamento da primeira vez em que recebera a substância. Andou no centro do disco, ignorando a segurança proporcionada pela proteção.

Os pesquisadores suspeitam de que um fenômeno semelhante possa ocorrer no homem. O uso da droga para uma finalidade específica em um contexto produz um comportamento que pode se reproduzir em uma situação completamente diferente de consumo. Exemplo: uma pessoa que usa cocaína para obter mais coragem em assaltos e fica mais agressiva quando dopada. Pela associação repetida entre a droga e o efeito que ela proporciona na execução do crime, a mesma agressividade ressurgiria em situações diferentes de uso, como em uma festa.

Os dados são indicações valiosas. “Mostram que boa parte do que tem sido feito com o usuário está no caminho certo, como tirá-lo do contexto de consumo da droga, levá-lo para lugares tranqüilos – onde não fique com muitas pessoas nem conviva com quem esteja usando drogas – e minimizar os conflitos sociais a que está exposto”, diz Frussa Filho.

Pesquisas realizadas com usuários apontam relações parecidas com as dos experimentos. Ana Regina Noto, pesquisadora do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), afirma que a dependência está muito ligada à função psicológica atribuída aos efeitos das substâncias: “No Vietnã, muitos soldados usavam opiáceos e ficaram dependentes. Mas vários pararam quando retornaram aos EUA, pois a droga perdera sua função”.

“O importante é conter a associação entre droga e ambiente, pois é ela que dá o ‘clique’ para a vontade e abre o caminho para a recaída, mesmo depois de muito tempo de abstinência”, afirma Rosana Camarini, pesquisadora do departamento de Biofísica. Em um trabalho realizado em 2000, ela verificou que uma substância impedia essa relação – mas apresentava muitos efeitos colaterais.
Fonte: Unifesp – Jornal da Paulista, Agosto 2002