Brasileiro considera fácil o acesso a drogas

Pesquisa mostra que é generalizada a idéia de que o consumo de entorpecentes é nocivo, ponto enfatizado em campanhas oficiais 

Iuri Dantas

Pesquisa da Escola Paulista de Medicina mostra como os brasileiros consideram fácil ter acesso a drogas, principalmente maconha e cocaína.

Segundo o levantamento, encomendado pela Senad (Secretaria Nacional Antidrogas), 60,9% dos entrevistados consideram muito fácil conseguir maconha, sendo mais da metade desse total composto por jovens de 12 a 17 anos.

Em relação à cocaína, 45,8% disseram acreditar que é fácil obter a droga, e 36,1% apontaram a facilidade de comprar crack.

A heroína -entorpecente de efeito mais devastador presente na pesquisa- é vista como de fácil acesso por um em cada cinco brasileiros. Na região Sudeste, o índice chega a 25,6%.

Segundo José Carlos Galduroz, coordenador do Cebrid (Centro Brasileiro de Informações Sobre Drogas Psicotrópicas), entidade ligada à Escola Paulista de Medicina, a população está com medo, e há um sentimento de que o tráfico de drogas está muito próximo.

Essa proximidade, porém, não corresponde à realidade, segundo Galduroz. O argumento se justifica no fato de “apenas” 1% da população admitir que consome maconha. As outras drogas não apresentaram peso estatístico considerável.

Galduroz afirma também que o senso comum de que o Sudeste concentra a maior quantidade de usuários de drogas “cai por terra” com a pesquisa e que o problema dos entorpecentes é identificável em todo o território nacional.

Os dados da pesquisa mostram que os moradores do Sul e do Sudeste afirmam ter mais facilidade para obter as drogas mais pesadas, como crack, heroína e LSD. Em relação à maconha e à cocaína, a variação é pequena entre as regiões.

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A noção dos danos causados pelo uso contínuo de narcóticos, segundo o levantamento, já foi assimilado pela população -94,5% acham que há risco grave no consumo diário de álcool, maconha (95,8%) e crack ou cocaína (98,8%). Ou seja, o brasileiro já sabe que drogas são nocivas, ponto mais enfatizado na propaganda oficial contra entorpecentes adotada no país.

A informação vai ajudar a promover alterações na política nacional antidrogas. Segundo o secretário Paulo Roberto Uchôa, da Senad, novas peças publicitárias devem destacar os benefícios de não consumir entorpecentes.

Galduroz diz que os resultados contrariam o “imaginário popular” sobre o tema das drogas, por mostrar que “álcool e tabaco são o problema fundamental no país”, em vez de maconha e cocaína.

Entre os entrevistados, 4% admitiram já ter passado por algum tratamento devido ao consumo de drogas, ilícitas ou não.

A avaliação de Galduroz é que o número ainda é pequeno, basicamente, por uma deficiência do sistema de saúde de acolher os dependentes no momento certo. Em certos casos, diz Galduroz, são necessários dois ou três meses para conseguir uma consulta.

Um resultado preliminar da pesquisa foi divulgado em junho, revelando que mais de 9 milhões de brasileiros já haviam consumido alguma droga -seja ilícita ou permitida, como álcool e tabaco.

A pesquisa foi realizada de setembro a dezembro de 2001 e ouviu moradores das 107 cidades com mais de 200 mil habitantes em todo o país.
Fonte: Folha de São Paulo/SP – Unifesp