Fumaça na matinê

A adesão teen ao cigarro se baseia no auto-engano: eles começam achando que não vão viciar e que podem largar quando quiserem 

Débora Yuri 

Assim que bate o sinal, eles correm para fora da escola. Com cara de alívio, em roda, tiram os maços das mochilas. A mais baixinha do grupo, Fernanda Seabra Cabral Flud, 16, usa seu isqueiro colorido para acender os cigarros dos três amigos. Todos adolescentes.

“Quando era pequena, eu via minha mãe fumando com tanta vontade que comecei a pensar: ´Deve ser tão bom!´”, conta a garota, tabagista desde os 11, um maço por dia. “Tudo é mais gostoso com o cigarro. Parece que eu tiro um peso das costas quando acendo um.”

Fernanda faz parte de uma geração que fuma cada vez mais, apesar do intenso bombardeio sofrido pelo tabaco nos últimos anos. O fumo é proibido nas escolas desde 1997, a propaganda foi banida da TV brasileira no ano passado e os malefícios do tabagismo estão em toda a imprensa, bocas e maços -e mesmo assim os teens parecem não se convencer.

Apenas no Brasil, 2,67 milhões de jovens são fumantes, 370 mil deles entre 10 a 14 anos, segundo o Inca (Instituto Nacional do Câncer). A instituição está conduzindo um grande estudo sobre o perfil do fumante brasileiro, que será divulgado apenas em 2003, mas nada indica que vá contrariar uma tendência verificada em outras pesquisas.

Em 1987, 26% dos estudantes paulistanos entre 10 e 18 anos já tinham fumado, de acordo com estudo do Cebrid (Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas), da Unifesp, em dez capitais brasileiras. Em 1997, esse número havia pulado para 31%. Em Curitiba e Porto Alegre, os aumentos foram astronômicos: de 18% para 41% e de 21% para 44%, respectivamente.

“O índice de jovens fumantes está aumentando nos países em desenvolvimento. Isso é nítido no Brasil, Argentina, Uruguai, Chile. Outra evidência do avanço da epidemia é que as meninas estão empatando com os rapazes no consumo”, afirmou Armando Peruga, 46, coordenador da Unidade de Tabaco, Álcool e Outras Drogas da OMS (Organização Mundial da Saúde), por telefone, de Washington (EUA).

A tendência é mais alarmante pela ameaça que representa no futuro: quanto mais cedo se começa a fumar, mais difícil deixar o cigarro. Pesquisas da OMS indicam que 90% dos fumantes brasileiros começaram entre 5 e 18 anos, sem perceber os efeitos viciantes da droga.

Foi-se o tempo em que um cigarro na mão era sinônimo de ser “bad boy” ou desajustado, uma imagem sedutora para os que sofriam os revezes das explosões hormonais. Hoje, a nicotina é mais democrática, atinge todas as tribos: playboys, patricinhas, a galera do fundão, “nerds” e skatistas. “O cigarro já pegou todo mundo”, diz Aldo Pelizzari, 16, fumante desde os 14, que está tentando parar por ordem médica -ele sofre de asma e já teve uma parada respiratória.

Também ficou no passado aquela fase em que astros e estrelas emprestavam a qualquer tragada uma aura de glamour. A atual geração de adolescentes não acha que o cigarro é legal porque vê Brad Pitts e Angelina Jolies acendendo Marlboros na tela. Quase todos afirmam que fumar “é ruim” e “é feio”.

“Existia um glamour muito grande no cinema, na TV. Tudo isso caiu por terra. Os adolescentes de hoje não associam o fumo a charme, seus motivos são outros”, afirma o pneumologista Sérgio Ricardo de Almeida Santos, 30, vice-coordenador do Prev-Fumo da Unifesp.

Para tentar descobrir quais são eles, a Revista percorreu portas de escola, bares e matinês de danceterias e conversou com 50 adolescentes. A maioria não sabe explicar direito por que fuma, mas acaba relacionando o vício à insegurança, frustração, nervosismo e ansiedade, e vê o cigarro como um antídoto aos problemas.

Nem a juventude malhada, que é a “cara” da geração saúde dos anos 90, escapa. Fabio Yamamoto Tintori, 17, pratica surfe, natação e luta marcial e exibe seus músculos delineados numa camisa regata na porta do colégio- mas é tabagista desde os 13. “Todo mundo começa para se sentir adulto e quando vai ver, o bicho já pegou. Eu fumo muito quando fico mal, nervoso. É como uma muleta”, diz, parando a entrevista para atender duas meninas bonitas que se aproximam pedindo cigarro.

Seu pai, o médico Francisco Archimede Tintori Neto, 50, tenta fazê-lo parar desde o início, mas acha melhor saber a verdade do que ter um filho fumando escondido. “Assim eu posso ver se ele está fumando muito, orientar, mandar reduzir”, explica.

O próprio Francisco já foi fumante inveterado na juventude, mas parou há 20 anos. “Não imponho regras ao Fabio, mas ele tem o respeito de não fumar na frente dos pais.”

Em bandos Jovens fumantes costumam andar em grupos… de jovens fumantes. Bastam cinco minutos na saída de qualquer colégio para entender: o cigarro os une, e na adolescência todos querem se encaixar. É o que os especialistas chamam de “contaminação do grupo”.

“Ser aceito é importante e eles imitam os amigos. Eles chegam numa festa, e o ato de acender um cigarro já é um alívio para a timidez”, explica João Paulo Lotufo, 47, pediatra e professor de pneumologia da Faculdade de Medicina da USP.

“Antes de entrar, às 6h50, já está todo mundo fumando aqui”, conta Felipe*, 15, às 12h30 de terça-feira, na lanchonete em frente ao seu colégio. “Pergunte a qualquer adulto por que ele fuma. É gostoso, não é? Para nós é a mesma coisa. Achamos que as coisas ruins nunca vão acontecer com a gente. Eu não consigo ver meu pulmão ficando preto.”

A adesão ao tabaco é facilitada por duas características dos adolescentes: eles subestimam a dependência e se iludem achando que podem parar de fumar quando quiserem.

Nada mais equivocado. Um estudo da Universidade de Massachusetts com 332 fumantes americanos de 12 e 13 anos, divulgado há poucos dias, mostra que as meninas ficam viciadas em apenas três semanas, contra um período de seis meses dos meninos.

“Isso é surpreendente, e não sabemos ainda as razões dessa diferença, mas estamos começando um outro estudo que vai durar cinco anos para tentar descobrir”, disse à Revista o coordenador da pesquisa, o médico Joseph DiFranza, 48.

No Brasil, as meninas estão tomando a dianteira. Pesquisa do Cebrid de 2001, com 8.589 jovens de 12 a 17 anos, mostrou que 16% delas já tinham fumado, contra 15% deles. E um estudo sobre o fumante do Rio de Janeiro, concluído este ano pelo Inca, avaliou que 10% dos teens de 15 a 19 anos fumam -12% do sexo feminino e 8%, do masculino.

A necessidade da mulher se afirmar e mostrar sua independência contribui para isso, acredita Tânia Cavalcante, 46, chefe da Divisão de Controle do Tabagismo do Inca. “A indústria tabagista está investindo muito nas mulheres, que representam alto poder de consumo e parecem menos influenciadas por campanhas negativas.”

Para o americano DiFranza, a melhor das prevenções contra os tabagistas juvenis é que seus pais não sejam fumantes. “Outro método eficaz é proibir o fumo dentro de casa. Isso desencoraja o jovem a fumar”, acredita.

Desencoraja, mas não faz milagres. Por causa do veto materno, Roberto Cury Brumatti, 17, só pode fumar no quintal. Sua mãe, a advogada e empresária Claret Aparecida Cury, 50, lembra que até tentou bater no filho, quando descobriu que ele fumava escondido. Não adiantou e hoje ela espalha cartazes antifumo pela casa. “Colei mensagens na geladeira, na porta do quarto dele, no banheiro. Odeio cigarro. Faço ginástica, só como coisas saudáveis, sou supervaidosa.”

Roberto fuma desde os 14, consome quase dois maços por dia e já foi suspenso por fumar na escola. “Não acho bonito fumar, mas é bom para dar risada, descontrair. Não tenho medo de doenças, todo mundo vai morrer um dia”, diz. Apesar da aversão, Claret preferiu deixar o filho decidir quando parar. “Ele tem a vida toda pela frente. Eu já vivi a minha muito bem, e quero viver assim por muito mais tempo ainda.”

Informação e conscientização são mesmo mais eficientes para tentar convencer os jovens fumantes (leia na pág. 13), dizem os especialistas. Já fumar em casa ou na frente dos filhos nunca, recomendam. 

Tânia Cavalcante condena o acesso fácil ao cigarro e seu preço baixo. “Aqui ninguém cumpre a lei, todo mundo vende cigarro para menor de 18 anos, embora seja proibido”, diz. De qualquer modo, o Inca é contra a colocação das tarjas “proibido para menores” nos maços, para não transformar o tabaco em fruto proibido. “Isso aumentaria o poder de sedução da droga sobre os adolescentes”, explica Tânia.

É outra coisa que não mudou muito: desde que o mundo é mundo, tudo o que um adolescente quer na vida é virar adulto.

* Os nomes assinalados foram trocados a pedido dos entrevistados 
Fonte: Revista da Folha /São Paulo/SP – Unifesp