Adhemar revela: já foi refém da cocaína

Numa entrevista inusitada, sincera e exclusiva, o atacante do São Caetano conta que começou a usar drogas quando servia no Exército e que por pouco não morreu de tanto que se empolgou, já que só assim conseguia se sentir bem. Recuperado, hoje quer passar o recado de que essa vida não vale a pena

Com muita coragem, o atacante Adhemar, do São Caetano, concedeu ontem um depoimento exclusivo ao Jornal da Tarde, em que confessa seu envolvimento com drogas e álcool no início da carreira. Durante 30 minutos, revelou situações que quase o levaram à morte entre 1990 e 1993, época em já defendia o Estrela de Porto Feliz.

Demonstrando muita sinceridade, diz: “vou falar porque tenho um compromisso moral com os jovens e jogadores de futebol que estão começando. Sou um ex-viciado. Comecei usando lança-perfume, passei para a maconha e terminei cheirando cocaína. Conheci o lado obscuro da vida. Hoje, poderia não estar mais aqui, ou talvez doente em algum hospital.”

Adhemar conta que o primeiro contato com as drogas aconteceu quando tinha 18 anos. “Estava servindo o Exército em Tatuí, e algumas pessoas se aproximavam constantemente de mim, oferecendo um cigarrinho aqui, outro ali. Era muito jovem e aceitei. Foi o começo da perdição. Achava tudo normal, mas logo comecei a me sentir dependente. Tinha que usar todos os dias, era a única maneira de me sentir bem. Só que quando o efeito da droga passava eu entrava em depressão profunda.”

O atacante revela que jamais teve dificuldade para encontrar qualquer tipo de droga. “Os falsos amigos sempre estão por perto oferecendo. Quem não tiver personalidade para dizer “não” corre sérios riscos. O pior é que meus pais não sabiam da realidade. Só contei quando consegui parar com o vício.”

Para aumentar a sensação de prazer, Adhemar várias vezes consumiu drogas com os amigos em estradas escuras e sem saída na região de Tatuí e Itapetininga.

“A gente parava o carro no meio do mato e ficava cheirando cocaína. Eu morria de medo de que os policiais nos encontrassem, porque não teríamos nem como fugir. Ainda bem que isso jamais aconteceu. Estava com 20 anos e jogava como profissional no Estrela, mas meu preparo físico era o pior entre todos os atletas da equipe.”

Nem mesmo advertências dos dirigentes do clube, inconformados com seu rendimento em campo, tinham qualquer importância. “Uma vez, quase entrei em coma alcoólico após um treinamento. Consumia um engradado de cerveja por dia com facilidade. Estava sempre muito cansado, não estava nem aí para o que os outros falavam de mim. Dormia em praticamente todas as aulas do curso de artes plásticas que frequentava. No dia em que fui ameaçado de demissão dei risada na cara do dirigente.”

A situação de Adhemar começou a mudar por influência de um jogador do Estrela chamado Ita. “Um dia, eu estava no meu quarto na concentração quando ele se aproximou com uma Bíblia. Tentou me convencer de que apenas a religião e o encontro com Jesus Cristo me livrariam das drogas. Não acreditei. Lembro até hoje que peguei uma revista pornográfica e apresentei a ele como sendo a minha Bíblia.”

O fim da dependência só aconteceu em 1994, quando foi emprestado ao São José e passou a frequentar a Igreja Quadrangular com regularidade. “No começo não foi fácil, cochilava nos cultos e muitas vezes queria ir embora para os bares da cidade, mas já estava namorando a Aline e precisava de dinheiro para casar. Tomei a decisão de largar as drogas. Ainda bem que não precisei gastar um centavo com tratamentos.”
Hoje, Adhemar visita regularmente creches, orfanatos e casas de recuperação, com o objetivo de contar sua experiência. “Infelizmente, vi muitos jogadores bem melhores do que eu se perderem na carreira exatamente por abuso de drogas e noitadas. Quem precisar de ajuda pode vir me procurar.”

MARCELO ROZENBERG Jornal da Tarde