Álcool e cafeína causam morte de célula nervosa

Pesquisa de iniciação científica aponta que altas doses da combinação das substâncias antecipa a chamada apoptose, mecanismo celular de auto-destruição programada

Rodrigo Pena Majela

Quem costuma misturar bebidas alcoólicas e energéticos tem mais um motivo para ser cauteloso. Pesquisa da Unifesp mostra que o etanol acelera a morte programada de células do sistema nervoso central e que esse efeito é potencializado pela cafeína (um dos principais componentes dos energéticos).
Os resultados do estudo, apresentado no 10º Congresso de Iniciação Científica da universidade, oferecem mais algumas pistas sobre os fatores que provocam o envelhecimento precoce e o aparecimento de doenças neurodegenerativas.
Stela Murgel

A cafeína está presente nos energéticos, 
bebida que virou moda entre os jovens 

Os pesquisadores verificaram que, em doses altas, o etanol e a cafeína atuam sobre um mecanismo natural pelo qual as células se auto-destroem, a apoptose. Em condições normais, essa morte de células resulta de estímulos específicos que correspondem a uma “programação”, inscrita no código genético. Ela desempenha um papel fundamental para os seres vivos: realiza a renovação celular e previne contra a proliferação de células defeituosas.

As altas concentrações de etanol e cafeína, no entanto, quebram o “planejamento”, fazendo com que as células morram antes do previsto. A novidade é que esse efeito se torna ainda maior quando as duas substâncias estão combinadas.
“Eu sabia que o álcool está associado a várias doenças e que a cafeína é agressiva. Pensei: e se juntarmos os dois? É o caso do indivíduo que sai para se divertir e toma uísque com energético”, conta o autor do trabalho, o estudante de 3o ano de biomedicina Lucas dos Santos Machado. “O que percebemos no experimento é que há um aumento significativo na apoptose.”

Ainda não é possível afirmar se o dano ocorre na mesma proporção em uma pessoa – as experiências foram realizadas com ratos. Mesmo assim, os dados são mais um convite à moderação com as bebidas.

PERDA COGNITIVA
A pesquisa analisou astrócitos, que são células conectadas a neurônios, intimamente relacionadas à transmissão dos estímulos nervosos. A morte desses agentes pode prejudicar as atividades motoras e cog- nitivas, porque nem sempre a apoptose é seguida de renovação celular. A substituição depende do tipo de tecido, da idade da pessoa e de determinações genéticas.

A apoptose está relacionada ainda a doenças degenerativas do sistema nervoso central, como os males de Alzheimer e Huntington. A aceleração da apoptose pelo álcool e pela cafeína pode ajudar a desencadeá-las.

“O álcool é deletério, cria dependência, produz sérios problemas sociais e pode induzir à morte celular”, diz Soraya Smaili, orientadora da pesquisa e professora do Departamento de Farmacologia.

O que ocorre dentro da célula que tem sua morte adiantada também poderá vir a ser uma das chaves para futuros tratamentos. Estudos sugerem que a apoptose provocada pelo álcool e pela cafeína ocorre por um acúmulo excessivo de cálcio no interior das células. Bloqueadores de cálcio poderiam impedir a morte celular pre- coce. Agora, os cientistas pretendem descobrir qual a concentração de álcool e cafeína que começa a induzir à morte celular.