Tráfico já recruta criança de 8 anos

Traficantes das favelas Primavera e Colina, na zona leste, empregam pelo menos 30 adolescentes na faixa etária entre 8 e 14 anos. O alvo preferido dos criminosos são crianças desinibidas que vendem balas nos semáforos. Seduzidos pelo pagamento de R$ 70 por dia, E. e T. foram parar na Febem

E.S.L. nasceu e cresceu em um Cingapura do Parque São Rafael, periferia da zona leste. Tem 13 anos, mas aparência de uma criança de oito.

Articulado e inteligente, abusava do próprio carisma para convencer o motorista a comprar as balas que vende no farol. Foi num dos faróis do bairro São Mateus que E. foi recrutado, há três semanas, para trabalhar como avião – atravessador de drogas – em uma das bocas-de-fumo da Favela Primavera, Jardim Vila Rica.

Em vez de adolescentes altos, encorpados e com armas – alvo preferido da polícia -, são garotos com o perfil de E. que estão sendo recrutados para compor a nova tropa de soldados do tráfico.

Policiais civis e militares do Jardim Vila Rica estimam que as favelas Primavera e Colina empregam pelo menos 30 adolescentes na faixa etária entre 8 e 14 anos, responsáveis pelo movimento de R$ 30 mil por semana.

Os mais novos, de 8 a 10, ocupam os cargos de olheiro e aviões. Ariscos, os aviões trabalham em dupla no sistema drive-thru. Um deles entrega a droga de um lado, enquanto o outro recolhe o dinheiro do outro, numa ação sincronizada. Os mais velhos ocupam diferentes funções: abastecedores, que se encarregam de levar a droga embalada para os aviões e de recolher o dinheiro, e seguranças.

Para convencer E. a fazer o trabalho perigoso não precisou muito. Bastou a oferta salarial de R$ 70 por dia – mais que o dobro do que o salário honesto e suado do pai, Mariano Amorim de Lima, de 44 anos. Como varredor noturno de rua, Mariano ganha cerca de R$ 700 mensais, incluindo adicional noturno, insalubridade, tíquete alimentação e vale-refeição.

Quando decidiu mudar de ofício, o filho caçula não contou nada para os pais.

A única pessoa que sabia de seu segredo era o vizinho evangélico T.B.Q., 14 anos, também selecionado para a missão.

Para as famílias, os dois garotos que saíam de casa às 8h e retornavam às 22h estavam ganhando trocados com a venda de dropes nos faróis e ônibus. Mas foi num beco fétido e úmido da Favela Primavera que os “soldados mirins” foram flagrados por policiais do 41º Distrito Policial (Vila Rica) com uma sacola com 26 trouxas de maconha e seis porções de haxixe no dia 30 de janeiro, uma quinta-feira à tarde.

Franzino, com 1,20m de altura, E. teria passado batido pelos policiais se não fosse o fato de estar correndo para escapar de uma viatura da Rota que se aproximou do lado contrário da “boca”. Quando os policiais viram o menino daquele tamanho só o abordaram por causa da atitude suspeita. Era a primeira vez que passava por uma revista, mas não titubeou. Ele mesmo levantou o casaco e entregou a sacola: “Tá tudo aqui, senhor.”

Ao serem detidos, E. e T. disseram à polícia que vendiam cerca de 360 trouxinhas de maconha e 12 bolinhas de haxixe por dia, o equivalente a R$ 1,8 mil só naquele lado do beco. Treinados pelos traficantes, eles disseram que não sabiam os nomes dos patrões e nem as características dos abastecedores dos pontos de vendas de droga. Os dois adolescentes foram encaminhados à Febem, onde permanecem internados.

“Mesmo pequenos, eles sabem que quem fala demais morre e que se forem pegos ficarão poucos dias na Febem. Eles entram num mundo de sonhos. Imaginam que se forem fiéis aos superiores vão alcançar o posto de gerente, que é aquele que chega de carro na boca e que toma conta do dinheiro”, diz Sílvio Bernardo de Oliveira, chefe dos investigadores do 41º DP.

Mão-de-obra mais barata

Para o delegado José Francisco Rodrigues Filho, os traficantes usam cada vez mais menores porque, além de eles serem inimputáveis, a mão-de-obra é mais barata: “É uma atitude covarde. A média de vida do traficante é de 25 anos.”

Para combater a corrupção e o aliciamento de menores para o tráfico, Rodrigues Filho e sua equipe de investigadores, há seis meses na região, estão mapeando pontos de venda de droga e criando um banco de dados com informações dos acusados. Nesse período, eles prenderam cerca de 50 traficantes em flagrante nas favelas de maior incidência de narcotráfico.

Outros 14 adolescentes, com idade entre 12 e 17, foram detidos por envolvimento com o tráfico.

O tráfico das duas favelas é supostamente controlado por Cícero Rodrigues de Melo, o Xerém – um traficante que começa a despontar no mercado da droga na zona leste e que já está na mira do Grupo Especial de Combate ao Crime Organizado (Gerco), do Departamento de Narcóticos e do Ministério Público.
Fonte: Jornal da Tarde