Coquetel Explosivo

O fenômeno representado pelas drogas ilícitas e de abuso continua preocupante. Para muitos usuários de drogas, a busca do prazer não tem limites. Os previsíveis danos a terceiros não são cogitados, e os riscos pessoais à saúde física e mental contam pouco. O   "embalo" irracional parece valer mais do que a própria vida. Daí a importância das práticas sóciosanitárias européias redutoras de danos e de riscos. E também a disseminação adequada da informação, sem a demonização e o falso moralismo marcantes nas ações e na política americanizada adotada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

A última "onda" abusiva foi apelidada na Califórnia de "dopagem recreativa". Na Europa, especialmente nas casas noturnas do bairro londrino de Soho e nas discotecas romanas, fala-se em "coquetel explosivo". Esse coquetel é composto pela mistura de uma pílula de Viagra com uma droga sintética, do tipo psicoativa, ou seja, metanfetamina ou cocaína. Entre as metanfetaminas utilizadas estão o ecstasy, o nexus nova-iorquino e o crystal inglês.

Os usuários dessa combinação apregoam a descoberta da associação da "droga do amor" (Viagra) à "droga da discoteca" (ecstasy ou cocaína). Usado mais na forma líquida, o ecstasy atua no sistema nervoso central e torna mais rápida a atividade cerebral, quebrando inibições. Mais ainda, serve de estimulante sexual e aumenta a resistência física, permitindo dançar por muitas horas sem sentir cansaço. Por seu turno, o Viagra ativa a irrigação do pênis e facilita a ereção, instigada pelos contatos físicos nas pistas cheias. 

A mistura mencionada desvirtua o uso do Viagra, que passa a ser empregado por pessoas que dele não necessitam, mas desejam potencializar a sua performance. Vendido sob receita e, em regra, proibido aos cardíacos, o Viagra, como informam os médicos contribui para a retomada da vida sexual sadia, restabelecendo a função biológica. Por outro lado, as metanfetaminas e a cocaína acrescidas ao Viagra são drogas ilícitas e atuam no sistema nervoso central. 

Com o consumo do coquetel só lucram as organizações criminosas internacionais (OCI). Seus laboratórios falsificam Viagra na Índia, na Tailândia e em Mianmar. Além disso, as máfias limpam as farmácias de países onde a compra do Viagra independe de receita médica, como já aconteceu no México.

O Viagra falsificado nos laboratórios controlados pelas OCI chega aos centros consumidores com os nomes de Vaegro e Viagro. E esses nome são grafados para evitar falsificações grosseiras, sem efeito específico e causadoras de diarréia no consumidor. Apesar desse mercado manchado por contrafações e enganos, o comportamento do usuário aponta interesse no efeito, e não na procedência da droga. Nos laboratórios das OCI atuam químicos competentes, selecionados entre os desempregados do Leste Europeu. 

Na Inglaterra, os ingredientes do "coquetel explosivo" são vendidos por cerca de US$ 30, um preço equivalente ao praticado na China. No Japão, o valor de mercado é mais elevado e atinge os US$ 50. Os preços mais baixos são encontrados no Egito e na Arábia Saudita, em razão da menor demanda.

O consumo abusivo dessas drogas associadas, direcionado à busca de incomum performance sexual e ilimitada diversão, pode causar morte. Já foram detectadas lesões de retina, precedidas de imagens azuis e desfocadas.

Na Inglaterra, o Viagra entrou no coquetel para substituir o Popper, produto muito vendido em sex shops. O efeito do Popper é de pouca duração, e a descontração provocada ocasiona excitação sexual. O Popper ficou conhecido como a droga das saunas mistas.

Na americanizada política do ex-presidente FHC, nenhuma verba foi destinada à informação pela mídia, ou melhor, nem se cogitou de emergências e urgências, além do regular emprego desse canal nas várias formas de prevenção. E o observatório nacional sobre o fenômeno das drogas, projetado em maio de 1999, ainda não foi instalado. No projeto original, o observatório iria, entre outras funções, detectar os comportamentos de risco e fornecer orientação à população.

Em síntese, caberá ao presidente Lula refazer a política antidrogas e implementar projetos adequados à realidade brasileira. Tratar o fenômeno da demanda como questão policial e carregar na responsabilidade do usuário, sob o falso argumento que não haveria oferta sem demanda, representou um erro histórico e grosseiro do governo FHC.

Walter Fanganiello Maierovitch – 55, juiz aposentado do Tribunal de Alçada Criminal de São Paulo, é presidente do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais Giovanne Falcone. Foi secretário nacional antidrogas da Presidência da República (1999 – 2000).
Fonte: Folha de São Paulo – Tendências/Debates