Alunos da Estácio compram droga no Turano para usar antes e após aulas

Um teco antes da aula. É assim que há cinco anos o dia começava para X., de 22 anos, estudante de Comunicação Social da Universidade Estácio de Sá. Nos tempos vagos, pela manhã, ela chegava a consumir dez papelotes de cocaína.

— Entrava chapadona na aula — diz X., que garante ter parado há quatro meses quando consumia carreiras de cocaína até nos banheiros do campus. — Os professores nem ligavam. Eles sabem, acostumaram. Até zoam quando o aluno chega com os olhos muito vermelhos, perguntam se não podiam ter usado um colírio para disfarçar.

Como outros alunos da universidade, ela tem consciência de que faz parte do principal mercado consumidor da droga vendida no morro do Turano, que fica ao lado da Estácio de Sá. O relato de X. ilustra o resultado de uma pesquisa do Diretório Central de Estudantes (DCE) da universidade, que, no final do ano passado, atestou que 70% de cerca de 3.000 alunos entrevistados eram a favor da descriminalização da maconha. E um percentual superior a 50% foi ainda mais explícito: defendeu a legalização da droga.

Alunos apelidam área vizinha de Amsterdã

Alguns alunos chegam a chamar o quarteirão formado pelas duas ruas vizinhas (um beco que dá acesso ao morro e a Rua Aureliano Portugal ) de Amsterdã, numa referência à capital da Holanda, onde 800 cafés vendem maconha.

— É surreal. Eu lá fumando um baseado (cigarro de maconha), às duas da tarde, e mães passeando com os filhos no colo pra lá e pra cá. Por qualquer dez reais, o policial livra a tua cara do flagrante — garante S., de 19 anos.

A maioria dos estudantes nega que exista venda de drogas na universidade. O argumento é de que não há necessidade porque o entorpecente é vendido a poucos metros. O consumo é livre, dizem eles, e a compra, muitas vezes, feita em sistema de consórcio para baratear custos. Dificuldade só quando o “morro está babado”. Mas, nestas ocasiões, quando há operação policial, olheiros dos bandidos, que fazem prontidão nos acessos das bocas-de-fumo, alertam os clientes.

— No meu curso, de farmácia, os alunos chegavam a roubar clorofórmio, durante as aulas no laboratório, para cheirar — conta um outro estudante.

Por causa dessas e de outras histórias, a direção da universidade está cada vez mais rigorosa com a segurança. Desde o ano passado, o acesso dos alunos ao estacionamento que fica nos fundos do campus, atrás dos blocos F e G, foi proibido. Os estudantes que vão manipular substâncias de uso controlado como clorofórmio — que não pode ser vendido em farmácias — agora só têm acesso a uma quantidade limitada da substância e não podem entrar com mochila no laboratório onde se realizam as reações químicas que desprendem gases tóxicos.

— Se a gente pára de comprar, o negócio dos caras quebra. Não podemos ser hipócritas, protestar contra a falta de segurança e fazer fila no Turano para comprar cocaína — diz a universitária G., de 22 anos, que já foi usuária, mas que ontem à tarde debatia o problema com outros colegas viciados.

O coordenador-geral do DCE, Moisés Filho, vai organizar um ciclo de debates sobre drogas na Estácio:

— É claro que não podemos cobrir o sol com a peneira, mas o drogado não pode ser tratado como bandido.
Fonte: BOL – Brasil OnLine