À sombra da dependência do álcool

Encontrar artifícios para comprar bebida alcoólica não é exclusividade da personagem da atriz Vera Holtz na novela “Mulheres Apaixonadas”. É cada vez maior o número de mulheres dependentes de álcool. Há 10 anos atrás, a proporção era de 10 homens para 1 mulher, hoje chega a 10 homens para 7 mulheres alcoólatras. O preconceito leva as dependentes a consumirem bebida em casa. Com medo de serem apontadas como alcoólatras, há casos de mulheres que adquirem álcool etílico nos supermercados e o misturam com água para beber em casa.

A verificação é do psicólogo especialista em dependência química pela PUC, Antonio Olívio Rodrigues. “O álcool tem efeito mais danoso na mulher pela concentração de gordura no organismo e pelo fígado ser menor, entre outros fatores. A sobrevida da mulher alcoólatra também é menor. Geralmente, ela sente os efeitos da dependência cinco anos antes do homem”, afirma o psicólogo.

O tratamento adequado é aquele específico para mulheres. Uma das únicas unidades especializadas em alcoolismo feminino no Brasil fica no Hospital das Clínicas, em São Paulo, através de projeto desenvolvido pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). Em Ponta Grossa, há uma única casa de recuperação voltada para o acolhimento de mulheres adolescentes. Já o Hospital Psiquiátrico Franco da Rocha responde pelo atendimento masculino na unidade de dependentes químicos, com capacidade para 47 pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS).

Cruzadas – A Congregação Copiosa Redenção mantém três comunidades terapêuticas para mulheres no Sul do País. Duas estão no Paraná e uma no Rio Grande do Sul. A comunidade ‘Rosa Mística’, a 30 quilômetros da BR 376, sentido Ponta Grossa-Curitiba, atende 20 internas, com idades entre 13 e 19 anos. “Quase 90% são dependentes de drogas, mas normalmente acontece a dependência cruzada entre drogas e o álcool”, conta uma das coordenadoras da comunidade, a irmã Erinéia Anacleto.

A outra casa de recuperação paranaense fica em Maringá. Segundo a assistente social, a irmã Maria Lidevina Pontarollo, a Copiosa Redenção tem ainda unidades de recuperação para homens no distrito de Uvaia, em Ponta Grossa, Castro, Matinhos e Francisco Beltrão.

A dependência ao álcool não faz parte da maioria dos atendimentos do Conselho Municipal de Entorpecentes ( Comen ). “Isso não quer dizer que os casos não existem”, completa a assistente social do Comen , Valduíra Arcoverde Silva.

Os analistas percebem que o consumo de álcool entre meninos e meninas é paralelo. Uma pesquisa da Universidade Estadual Paulista mostra que até o início dos anos 90 de cada cinco jovens alcoólatras que procuravam ajuda médica, apenas um era do sexo feminino. Hoje, a média é de dois rapazes para uma garota.

Fonte: Diário dos Campos