Primeira vez no grupo de apoio

Basta observar um pouco e já se nota: pessoas subindo as escadas devagar, com olhar desconfiado, olhando para todos os lados. Normalmente, entram na recepção com passos curtos e indecisos. Com certeza, aí, está um “primeira vez”. O grupo atento que o espera logo trata de “quebrar o gelo”, estende-lhe a mão, sorriso largo e a inevitável pergunta: “primeira vez?”.

Como resposta, um sim envergonhado, que é ouvido com indiferença, pois não importa mais, já que agora ela chegou ao lugar certo. Quase antes do final do aperto de mãos, a pessoa já é encaminhada ao livro destinado aos “primeira vez”, assina, deixa o telefone e recebe seu crachá. Pronto, já se tornou João, Maria, Marcelo, Roberto, membro novo de família numerosa, fato que é lembrado pela fala do coordenador, que afirma para todos os outros membros, que hoje ela é a pessoa mais importante daquela reunião.

Logo lhe explicam a função dos cartõezinhos coloridos. Envergonhada, pega o amarelo, fato que não passa despercebido pelos coordenadores, mas não importa, já é um começo. Passa á outra sala, maio, várias cadeiras dispostas em fila e lá aguarda sem entender muito o que está acontecendo, só observa outras pessoas, diferentes dela, que conversam, tomam cafezinho ou chá, comem biscoito, parecem felizes.

Às 20 horas em ponto, uma outra pessoa, que depois ela vai saber que é um coordenador, inicia a reunião com uma pergunta “como vai você?” ao que os outros respondem: “cada vez melhor”. “Que dia é hoje? O primeiro dia da minha nova vida”, dizem! A reunião é seguida por avisos de horários sobre cursos, sobre o destino da sacolinha e, depois, disso, temos uma pequena palestra. Surpreendentemente, o tempo passou voando, interessante, assuntos que lhes dizem respeito, diferente daquelas longas noites de angústia e espera do ente querido.

Uma outra pessoa, com voz potente, quase autoritária, mas também amiga, prestativa, determina a abertura da porta para os que não conseguiram chegar no horário e pede que os coordenadores chamem seus grupos. Logo perguntam quem está ali pela primeira vez, ela levanta a mão timidamente, mas já tem um olhar mais confiante, ela é encaminhada à primeira reunião junto com outras pessoas e vê que os outros também têm os mesmos problemas, uns até problemas muito maiores que os dela. Isto a reconforta de certa maneira, ouvindo e falando do seu problema, vem a sensação de alívio, diferentemente das outras pessoas com quem ela tentou uma conversa sigilosa, ninguém ali se mostrou surpreso ou indignado, com medo ou quis culpá-la. Isso a reconfortou muito. Foi-lhe dada como meta da semana a leitura do livro do AE. Rapidamente, a reunião chega ao fim, e ela, milagrosamente, se sente bem, reconfortada, entre amigos, principalmente depois de fazer a oração da serenidade, que também já tinha sido feita no início.

Volta um pouco ansiosa para casa, com as esperanças renovadas, um pouco excitada por ter visto gente que estava conseguindo o que ela tanto queria. A semana passa lenta, o fim de semana, como sempre, lhe dá medo, traz problemas, mas segunda-feira, quinze para as oito da noite, lá está ela, confiante, olhar decidido, subindo apressadamente as escadas para se encontrar com seus novos amigos e aprender a agir, confiar, ter fé, porque, agora, ela sente que encontrou sua família, graças a Deus.

Orlando Aprigliano Neto – coordenador de Santo Amaro
Colaboração de Vera Gelas, coordenadora de AE em Marília.