Ecstasy – A droga da classe média – Continuação

Parte do sucesso do ecstasy é baseada na tese de que a droga seria inofensiva, porque não gera dependência química. Bobagem. “Ela causa dependência psíquica, o que muitas vezes pode ser mais difícil de tratar”, explica a psiquiatra Vania Novelli Domingues, especialista em tratamento de viciados. O MDMA, princípio componente ativo da droga, provoca forte descarga de serotonina, o neurotransmissor responsável pela sensação de prazer e bem-estar. Após quatro a seis horas, o nível de serotonina baixa para próximo de zero, o que nas primeiras vezes provoca uma espécie de “baixo-astral”, e a longo prazo pode evoluir para um quadro clínico de depressão. Isso faz com que o usuário volte a recorrer à droga freqüentemente para evitar o desconforto. “Ele quer sempre mais”, diz a psiquiatra Maria Thereza Aquino, do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Atenção ao Uso de Drogas do Estado do Rio de Janeiro (Nepad). Difícil é explicar isso aos dependentes. O psiquiatra Arthur Guerra, do Hospital das Clínicas de São Paulo, diz que há uma diferença de atitude entre os usuários que trouxeram as primeiras pílulas para o Brasil e os internados hoje. “Antes o sujeito chegava cheio de dúvidas, preocupado, queria informações. Agora eles agem com desprezo e dizem que não dependem da droga”, diz.

Criado em laboratório em 1914, o ecstasy é parente das anfetaminas, drogas presentes em vários remédios para emagrecer e usadas pelos caminhoneiros para permanecer acordados durante as madrugadas. Nos anos 60, médicos imaginaram que ele poderia ser usado para o tratamento de depressão, mas hoje o consenso dos especialistas é justamente o oposto. Uma pesquisa de dois anos feita por psicólogos da London Metropolitan University, divulgada em março, revelou que pessoas que usam o alucinógeno, mesmo que eventualmente, têm quatro vezes mais chances de ter depressão que aquelas que consomem outros tipos de droga.

Há controvérsias sobre a extensão do estrago que o ecstasy produz no cérebro a longo prazo. Alguns cientistas acham que ele pode deflagrar até quadros de esquizofrenia. Outros dizem que as pesquisas não são conclusivas. Os riscos imediatos, porém, são bem conhecidos. A droga afeta o mecanismo de controle da temperatura corporal, superaquecendo o organismo. O calor em excesso destrói enzimas do sangue e pode provocar convulsões e paradas cardíacas. “Os consumidores ficam facilmente com 39 a 40 graus de temperatura, como se estivessem com febre”, diz Maria Thereza Aquino, do Nepad. “Começam a dançar e pular, aquecendo o corpo ainda mais.” Daí vem a maior parte das mortes entre os usuários. No Reino Unido, onde as raves são verdadeiras instituições, 202 pessoas morreram nos últimos seis anos pelo consumo da “bala”. A situação é tão crítica que a prefeitura de Londres baixou uma portaria determinando que as casas noturnas distribuam água gratuitamente aos freqüentadores, além de manter um atendimento médico de plantão.

No Brasil, há o registro oficial de um único óbito, em 2002: uma estudante de psicologia de 23 anos morreu de edema pulmonar agudo horas depois de tomar a droga numa festa. O edema que matou a jovem foi provocado por excesso de ingestão de água, combinado à baixa eliminação de líquidos, efeito comum em consumidores da substância – ao contrário da cerveja, o ecstasy reduz a vontade de ir ao banheiro.

Fonte: Revista Época