Ecstasy – A droga da classe média – Continuação

A pílula existe há quase tanto tempo quanto a cocaína e a maconha, mas em todo o mundo só foi consumida em larga escala nos últimos anos. Por quê? O psicólogo Murilo Battisti, que tratou do assunto numa tese de mestrado, atribui o fenômeno a uma série de mudanças culturais. Na década de 60 as drogas populares eram maconha e LSD, que levam a experiências contemplativas, que combinavam com a postura hippie de afastamento da sociedade de consumo. A cocaína, que produz sensação de poder, casava com os yuppies dos anos 80. O ecstasy, que promete apenas prazer, combina com a era dos singles, a cultura fashion e as raves. Por cortar o apetite, está em consonância com o apelo por magreza.

Muitos fatores conspiram para a difusão da droga, mas ela está longe de ser uma prioridade para a polícia. Primeiro, porque seu comércio, ao menos até o momento, não está ligado aos traficantes que dão tiros de AR-15 do alto dos morros. Segundo, porque os comerciantes da pílula vêm de um ambiente com o qual a polícia não tem intimidade. São universitários, de classe média, sustentados pelos pais e viajam para o Exterior para comprar ecstasy e revendê-lo. Fazem comércio de varejo, em pequenas quantidades, em festas e academias. “Já tentamos nos infiltrar nesse meio, mas esbarramos no problema da idade e das fontes. Os agentes não têm o perfil de quem vai às raves”, diz o delegado Carvalho dos Santos, da PF.

No início do mês, foi preso em São Paulo o DJ Pam Lê, de 25 anos, tido como um dos principais fornecedores de drogas sintéticas da cidade. Ele tinha em seu poder 1 quilo de maconha, e com uma de suas parceiras havia 1 quilo de cocaína. Ele pretendia viajar para a Espanha, onde trocaria o material – vendido muito mais caro no mercado europeu – por ecstasy, que vale mais aqui do que lá. É praticamente um replay da história do israelense Dror Shimon, de 36 anos, preso no Aeroporto do Rio em março com um travesseiro cheio de compridos. Ele havia acabado de trazer ecstasy da Europa, para onde levaria cocaína obtida por escambo. As duas prisões sugerem que o perfil dos traficantes da “bala” pode estar mudando, a caminho de uma profissionalização. A cocaína começou assim.

GENTE COMO A GENTE
Segundo a Polícia Federal, o perfil do traficante de ecstasy é de jovem de classe média

– Jovem de classe média
– Tem entre 20 e 27 anos
– Trafica para poder consumir as pílulas
– Em geral, cursa universidade
– Não trabalha. É sustentado pela família, que não sabe do tráfico
– Figura fácil em boates e festas com música eletrônica, onde estão os consumidores
– Viaja muito. Compra as pílulas em Amsterdã, Madri e Londres e volta ao Brasil com a droga na mala

Fonte: Revista Época