Como nas guerras

O dia-a-dia de crianças e adolescentes que trabalham no tráfico de drogas é parecido com o dos que lutam em conflitos armados como os do Oriente Médio. É o que afirma o antropólogo inglês Luke Dowdney em “Crianças do tráfico — Um estudo de caso de crianças em violência armada organizada no Rio de Janeiro” (7 Letras). Pesquisador do Instituto de Estudos da Religião (Iser) e do Viva Rio, ele entrevistou 25 crianças e adolescentes de comunidades carentes do Rio para escrever o livro. “Todos começaram a trabalhar no tráfico com 12, 13 anos”, conta Dowdney.

O GLOBO: Como surgiu a idéia do livro?

LUKE DOWDNEY: Há três anos, participei de um seminário sobre crianças-soldados organizado pela ONU, na Itália. Lá eu disse que a vida das crianças que trabalham para o tráfico no Brasil tem mais a ver com a das que lutam em guerras do que com as das que fazem parte de gangues de rua. Mas as pessoas desconheciam a situação do país e minha exposição não foi bem aceita. Voltei para o Brasil e consegui recursos para fazer uma pesquisa que comprovasse o que eu disse. Ouvimos 25 crianças e jovens, com idades entre 12 e 23 anos. Todos começaram a trabalhar no tráfico com 12, 13 anos. Também conversamos com policiais, agentes sociais e moradores de comunidades carentes. Ouvimos cerca de 300 pessoas, no total. O resultado da pesquisa é o livro.

Qual é a relação entre os jovens do tráfico e os que lutam em guerras?

DOWDNEY: Não estamos em guerra no Brasil, mas eles vivem num sistema hierárquico. Os jovens que trabalham no tráfico recebem ordens e quem desobedece morre. Eles têm obrigações e horários. Como nas guerras, alguém dá as armas para eles.

O que os leva a trabalhar para o tráfico?

DOWDNEY: Quase todos os adolescentes que entrevistei são pobres, não conseguem entrar no mercado de trabalho ou tiveram empregos que pagavam mal. Ser do tráfico dá dinheiro. Outro problema é a ligação de pessoas próximas com o tráfico. Cerca de metade dos jovens entrevistados tinha parentes ligados ao tráfico. A maioria também tinha amigos no tráfico.

Eles usam drogas?

DOWDNEY: A maioria dos jovens entrevistados disse que fuma maconha para relaxar. Cocaína eles disseram que não usam durante o trabalho, porque os deixa paranóicos.

Eles pensam em abandonar o tráfico de drogas?

DOWDNEY: Metade dos jovens sim. Outros disseram que não pensavam no assunto, que já trabalhavam com o tráfico há muitos anos e não acreditavam ser possível mudar de vida. Outros queriam mesmo ser bandidos, o que acontece no mundo todo.

É possível deixar o tráfico?

DOWDNEY: Os jovens que não têm posições estratégicas e dívidas com os traficantes conseguem deixar sim.

Fonte: O Globo – Megazine