Escola da droga

Pesquisa feita pela Unesco com 14 capitais mostra que iniciação a entorpecentes começa no colégio

Era para ser um dia como outro qualquer. O carioca A.E. acordou cedo e iniciou sua rotina matinal. Vestiu-se para ir à escola, tomou café e despediu-se da avó, com quem morava na zona sul do Rio de Janeiro. Ao sair, checou se o cigarro de maconha que costumava esconder na mochila estava lá. Antes de ir para a sala de aula de um dos colégios religiosos mais tradicionais da cidade, foi ao banheiro. Ali, deixou o baseado cair. Foi denunciado e expulso. O episódio ocorreu há três anos, quando A.E. tinha 12 anos. Hoje, ele faz parte de uma dupla estatística, ambas alarmantes. É um dos 92 mil jovens que fazem uso regular de drogas e um dos cerca de um milhão de estudantes brasileiros que admitem a existência de entorpecentes nas escolas. Os números estão no recente levantamento da Unesco, que mostra em detalhes estarrecedores essa triste realidade apresentada na pesquisa Drogas nas Escolas.

Foram recolhidas informações de 50.049 alunos da 5ª à 8ª série e do ensino médio de 14 capitais. Num total de 9.270 colégios públicos e privados, a pesquisa usou uma técnica conhecida como probabilística,
o que permitiu aos pesquisadores projetar o universo originalmente pesquisado para 3,7 milhões de alunos. Foram ouvidos ainda 3.099 professores e 10.225 pais de alunos. Com mais de 700 horas de entrevistas, o estudo gerou um calhamaço de 500 páginas e é o primeiro trabalho dessa natureza feito pela Unesco na América Latina. “Ilusão pensar que é o traficante quem oferece drogas nas escolas. São os próprios amigos do colégio que fazem esse papel”, analisa uma das coordenadoras da pesquisa, a socióloga carioca Mary Castro.

Foi exatamente isso o que aconteceu com A.E. Um colega da escola
de seu primo foi quem apertou o primeiro baseado para ele fumar. Do primeiro cigarro de maconha, aos 11 anos, o jovem evoluiu para o skank – uma espécie de maconha turbinada –, lança-perfume e cocaína. Esctasy, uma droga sintética que caiu no gosto de uma parcela considerável da juventude endinheirada, ele dispensa. Álcool e cigarros não o seduzem. Ao galgar a posição de usuário regular, A.E. começou a ficar sem dinheiro. Com a mesada curta, passou a roubar celulares na escola.
Não é incomum que o uso de drogas gere distúrbios de comportamento como o de A.E.: 92% dos alunos pesquisados afirmaram já ter cometido algum tipo de transgressão.

É no entorno dos colégios, mais do que dentro deles, que se constata a presença do tráfico e do consumo de drogas. “Não é o aluno quem vai atrás das drogas, é a droga que vai ao encontro dele”, analisa o psiquiatra paulista José Antônio Ribeiro da Silva. A Unesco confirma essa tese ao apontar os bares como os lugares onde, com maior frequência, são vendidas as drogas aos menores. Dentro das escolas, o banheiro é o lugar preferido para usar entorpecentes no horário de aulas. A maconha é disparadamente a droga ilícita mais consumida pelos estudantes. Tirando uma média das 14 capitais pesquisadas, concluiu-se que cerca de 92 mil alunos, de ambos os sexos, fumam maconha. Muitos dos usuários de hoje tiveram seu primeiro contato com os entorpecentes na sala de aula. A paulista A.P.O. fumou pela primeira vez aos 12 anos; um ano depois, usou cocaína e aos 14 anos já estava dependente. “Parei de estudar, já que era na escola que sempre voltava a usar drogas”, lembra ela, hoje com 24 anos.

Fonte: Revista Istoé