Droga: prazer que vicia

IPA – Sabemos que problemas psicológicos e familiares predispõem o jovem a drogadição, mas o que se tem falado muito é mesmo adolescentes que estão bem e vivem em famílias equilibradas correm o risco da dependência. O quanto isso é verdade, e quais os principais fatores que de fato predispõem a farmacodependência?

Tiba – A maconha, por exemplo, vicia seus usuários conforme a quantidade e o tempo de uso. Nas sinapses neuronais, o encaixe de THC em receptores específicos libera a opiopeptina causando prazer ao usuário. O que vicia é este prazer que estimula o “circuito da recompensa”, levando o usuário a querer repetir o uso. Quanto mais se estimula este circuito, tanto maior será a probabilidade o vício se estabelecer. Esta probabilidade é maior quando há predisposição genética, ou seja, casos de drogadição na família. Mas também tem maior propensão ao vício aqueles adolescentes que não aprenderam a suportar frustrações e sofrimentos, que são imediatistas, impulsivos, exagerados, que passam facilmente dos limites perseguindo aquilo que lhes interessa. Problemas familiares também podem colaborar para que o adolescente continue a usar drogas. Mas os jovens, ao experimentar drogas, não pensam que estejam fugindo de problemas pessoais ou familiares. Nem tampouco pensam que poderão viciar-se.

IPA – Por que tantos pais desconhecem o envolvimento dos filhos com as drogas?

Tiba – Em primeiro lugar, porque os pais educam seus filhos como se estes fossem a continuação dos seus umbigos. Acreditam que seus filhos são extensões de si mesmos, que seu comportamento resulta somente da educação recebida, e que seus filhos não mentem. Em segundo lugar, porque os filhos disfarçam o uso da droga através de muitos recursos. Em meu último livro, Anjos Caídos, descrevi uma dezena de disfarces, sete comportamentos suspeitos e mais de vinte respostas típicas que os adolescentes usam para convencer seus pais que não estão usando maconha.

IPA – Qual o momento de se buscar ajuda quando pais ou professores suspeitam que o adolescente está envolvido com drogas?

Tiba – Quando se suspeita que um jovem esteja usando drogas, ou mesmo andando em companhia de quem sabidamente usa drogas, está na hora de os pais tomarem atitudes. Antes de tudo, o melhor é procurar orientação com quem já conhece o “caminho das pedras”. Pode ser um parente, um grupo de auto-ajuda, um professor, um profissional de saúde. Mais que a rapidez em se tomar à atitude, é importante tomar a atitude adequada. Atitudes impulsivas podem mais atrapalhar que ajudar. Se o uso da droga continua, é preciso buscar a ajuda de um profissional. Só o amor não resolve estas situações, pois nem sempre foi por falta de amor que o filho passou a usar drogas.

IPA – Brigas entre irmãos é o inferno de muitas famílias. Como os pais devem agir para atenuar a situação?

Tiba – O que provoca briga entre os irmãos são os pais que pretendem educar os filhos por igual. Se fazem algo para um filho, sentem-se na obrigação de fazer também para os outros. Cada filho é diferente dos outros, e cada um tem a sua individualidade. Uns precisam de mais limites que outros. Esta tentativa de homogeneizar os filhos é como se os pais tivessem a ilusão de que todos têm a mesma idade e a mesma personalidade. No caso de idade, seria infantilizar o mais velho ao mesmo tempo em que se adultiza o mais novo, cobrando e dando para os dois filhos as mesmas obrigações e regalias, esquecendo a regra fundamental: o mais velho tem mais direitos mais em compensação tem mais obrigações. Os irmãos brigam porque se sentem no mesmo direito, sem querer arcar com as responsabilidades.

IPA – Os filhos se tornam mais distantes durante a adolescência, se voltam mais para a turma, e muitos pais sofrem com isso. Como eles podem entender melhor essa fase da vida dos seus filhos, como podem ficar mais seguros de que tudo está bem?

Tiba – É entender que os adolescentes já têm pensamentos próprios, são fisicamente quase adultos e estão em busca da própria identidade social. Não é o prover econômico que dá poder de mando aos pais. Esta é a fase das combinações, encarando as situações do cotidiano na base de coerência, constância e conseqüência. Abraço dado, abraço recebido: isto é troca. Os pais costumam dar um carro ao filho quando este entra na faculdade. O filho larga a faculdade e continua com o carro. A atitude educativa mais apropriada seria: largou a faculdade, perde o carro. A melhor maneira de os pais estarem seguros com os filhos é receber em casa a turma dos filhos e se possível ter bom relacionamento com os pais dos amigos dos filhos. Quanto mais uma turma excluir os adultos, mais os seus integrantes podem sofrer o que chamo de “embriaguez relacional”. Em turma, os jovens influenciam-se mutuamente e acabam fazendo o que sozinhos não fariam. Exemplo típico é o caso da queima do índio, em Brasília. Se os pais suspeitarem que a turma do filho está usando drogas, pouco adianta proibir o filho de sair com a turma. O importante é cuidar da turma em vez de olhar somente pelo filho. É a educação em rede.

Entrevista Boletim do IPA Instituto paulista de adolescência – Edição nº 1 – Agosto de 1999 – Publicação “pais & teens”