Zona Leste: 72 pontos de droga

Com um disque-denúncia próprio e 24 cachorros farejadores e de patrulhamento, os únicos que fazem esse trabalho na cidade, policiais do 28º BPMM conseguiram mapear 72 pontos de tráfico de drogas. Localizados em Cidade Tiradentes, Parque do Carmo e parte de Guaianases, na Zona Leste, os locais são constantemente monitorados e identificados com adesivos.

Os cartazes fixados pelos policiais informam: “Este local está cadastrado pela Força Tática do 28º Batalhão como ponto de tráfico de drogas e será monitorado pelo Departamento de Cães Farejadores do Canil Sudeste”. O material ainda informa o telefone do disque-denúncia local que é chamado de Fale com a Gente.

Os adesivos são colados principalmente em orelhões e postes. A escolha não é por acaso. Os policiais descobriram que muitos dos telefones públicos da Cidade Tiradentes – onde vivem cerca de 300 mil pessoas – são desviados pelos traficantes. Os telefones se transformam dentro dos apartamentos em centrais telefônicas que são usadas como disque-drogas.

Os bandidos arrancam os adesivos – mas os mesmos são pregados novamente durante as patrulhas. O trabalho é feito por 81 policiais, que além dos cachorros, contam com 23 viaturas e 16 motos. Eles patrulham uma área de 72 quilômetros quadrados onde moram cerca de 700 mil pessoas.

O trabalho pioneiro da Força Tática do 28º BPMM, que teve início há quatro anos, tem conseguido intimidar os traficantes e reduzir os índices de violência, de acordo com a polícia. Há oito anos, o número de mortos – só na Cidade Tiradentes – era de cerca de 30 ao mês. Atualmente, a média é de quatro. “E o mais importante é que temos a confiança da comunidade”, afirmou o capitão Gilberto Hernandes Júnior, de 36 anos, idealizador do projeto.

A confiança é tanta, que algumas das pessoas que ligam para o disque-denúncia chegam a se identificar e deixar o próprio telefone para que os policiais retornem a ligação e obtenham mais dados sobre a atuação dos traficantes.

Cães e drogas

A base do trabalho de Hernandes são os cachorros. Além de treinados para farejar drogas, os animais fazem o patrulhamento. Com ordens dos policiais com os quais trabalham, os cães intimidam e cercam os suspeitos. Os cães conseguem ainda descobrir a droga em locais mais bem escondidos pelos criminosos. “O objetivo do traficante é sempre dificultar o encontro do entorpecente o máximo possível. Ele consegue até esconder do policial mas não do faro do cão”.

Em uma dessas ocorrências, um suspeito insistia que dentro de seu apartamento – onde funcionava uma central telefônica – não havia drogas. Os cachorros se mostravam inquietos dentro da residência, até que o farejador Murphy, um labrador, apontou o sofá. Dentro do móvel, estava escondido meio quilo de maconha. “Os policiais não teriam encontrado e não poderia ter sido feito o flagrante.”

Em sua avaliação, os cachorros também provocam uma sensação de segurança e credibilidade na população. “Inconscientemente, os moradores associam o cão do policial a seus próprios animais domésticos e se sentem seguros.” Uma prova disso, segundo ele, é que os policiais e os cachorros nunca foram maltratados por ninguém da comunidade. “Muito pelo contrário, as pessoas pedem para acariciar os animais, perguntam seus nomes e contam sobre os cães que têm.”

A soldado Bianca Carneiro Vaiano, de 24 anos há quase cinco anos na corporação, disse que se sente mais segura em trabalhar com a pastora alemã Hagata. Segundo a policial, ela e a colega de trabalho já conseguiram fazer flagrante em oito homens ao mesmo tempo. “Se não estivéssemos com a cachorra teria sido muito difícil. Os cães exercem uma influência psicológica tão grande nos bandidos que eles não reagem.”

Para monitorar os pontos identificados como tráfico de drogas, que são dinâmicos aumentando ou diminuindo de acordo com as circunstâncias, Hernandes faz o treinamento dos cachorros nesses locais. É uma estratégia para confundir os bandidos. “Os traficantes não sabem se os cães estão em treinamento ou operação e ficam confusos. Como resultado, é raro voltarmos sem drogas.”

O monitoramento com adesivos também é uma maneira indireta de orientar as famílias. “Muitas vezes, os pais ficam sabendo pelos adesivos que os locais freqüentados pelos filhos são pontos de tráfico e se previnem.”

Fonte: Jornal da Tarde