Estresse é fator de complicação para os dependentes de drogas

Ratos submetidos a formas diferentes de estresse estão ajudando cientistas a entender as dificuldades que os dependentes de droga enfrentam quando decidem abandonar o vício. Além da habitual síndrome de abstinência, pessoas submetidas a situações de grande carga emocional estão mais predispostas a sofrer recaídas.

“O estresse aumenta o efeito da cocaína, a chamada sensibilização”, diz Cleópatra da Silva Planeta, professora de Farmacologia da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Araraquara, que coordena uma equipe de pesquisadores da Unesp e da Universidade de São Paulo (USP) no estudo da farmacodependência.

A sensibilização é caracterizada pela sensação mais aguda da droga, mesmo que ela seja administrada sempre na mesma quantidade. “Esse mecanismo pode estar relacionado ao desenvolvimento da dependência”, explica Cleópatra, que também desenvolve estudos relacionando estresse e nicotina.

Para estudar como o estresse contribui para a dependência de anfetaminas, como a cocaína, na adolescência e na idade adulta, ela submeteu cobaias de diferentes idades a momentos estressantes – separação das mães no período de amamentação neonatal, imobilização diária e choque nas patas. Alguns eventos eram previsíveis e outros, não.

A conclusão é que o efeito da cocaína é maior nos animais que sofreram de forma previsível na idade adulta e nos adolescentes submetidos ao estresse previsível e imprevisível. Os ratinhos separados da mãe no período neonatal sentem a droga de forma mais aguda na adolescência, mas a sensação desaparece na fase adulta.

“O estresse também é um dos fatores que levam o indivíduo a experimentar a droga como ponto de fuga”, diz Roberto De Lucia, professor do Departamento de Farmacologia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP e um dos colaboradores da pesquisa.

Para Cleópatra, entender os mecanismos que envolvem o consumo de drogas permitirá interferir no processo de dependência. “Mostrar como o estresse, que é algo abstrato, age no sistema nervoso central pode mudar a forma como a sociedade encara o dependente”, disse.

O trabalho foi publicado no início desse ano pela revista americana “Behavior Brain Research”.