Não basta amar, é preciso cuidar!

Todos conhecemos a máxima “antes prevenir do que remediar”. E porque então não funciona como deveria? Muito se busca um entendimento para o descaso que existe na área das dependências químicas. Tem se a impressão que aquela negação (mecanismo de defesa) tão peculiar aos bebedores, contamina a todos – familiares, colegas, amigos, sociedade. Esta última, então, sentindo-se em total impotência cogita, muitas vezes, a liberalização das drogas. Com o desconhecimento da grande maioria de que, os países que o fizeram, o que conseguiram, foi conhecer seus usuários.

Os dados que emergiram do recente I Levantamento Domiciliar sobre o Uso de Drogas Psicotrópicas no Brasil – 2001, mostram a região sul com a maior prevalência, 12,8%, de dependentes de tabaco. O uso na vida de maconha, 8,4% e, de cocaína, 3,6%, são as maiores do Brasil. O Rio Grande do Sul, lidera. Fala-se no poder aquisitivo mais alto dos gaúchos que certamente não justifica o grande uso nas classes sociais de menor renda. E quem sabe pensamos também na permissividade da sociedade gaúcha? É sobejamente conhecido o papel da cultura e hábitos de uma sociedade para a prevalência de drogas que ela ostenta.

Certamente se dedicarmos um olhar a nós e nossos filhos, vamos relembrar as infrações de trânsito cometidas pelos adultos, o dirigir após beber, o permitir que o filho ou a filha dirijam enquanto menores e sem carteira, a liberdade total e sem controle no período de veraneio, como se a vida fosse acabar na volta às aulas. Muitos pais sentem-se desautorizados, constrangidos e, conseqüentemente, culpados a exercerem sua autoridade com os filhos porque abusam do álcool, ou porque fumam ou porque usam drogas ilícitas. Não se sentem bons modelos parentais para coibir os desvios de comportamento de seus filhos. Até quando vamos assistir com descaso e aceitar nossos jovens serem trazidos para casa alcoolizados, dizerem que baseado faz menos mal que o cigarro ou ficarem desidratados pelo ecstasy? Pais e filhos negam, fazem vistas grossas, ignoram as conseqüências e, quando se dão conta, para muitos, é tarde demais. O Instituto Nacional do Câncer – INCA projeta que 30% dos principais cânceres que se desenvolverão no decorrer deste ano, deve-se ao tabagismo. O câncer de pulmão deverá levar 16.230 pessoas a óbito. E as fábricas de cigarro em sua “responsabilidade social” não oferecem leitos hospitalares para os que dolorosamente sofrerão e morrerão pelos malefícios do fumo. E o que estamos esperando? E a máxima “antes prevenir do que remediar”? Deixando de lado as mais variadas razões porque, para inúmeras pessoas, ela não funciona, o esquecimento desta sapiência implica em ter que carregar para o resto da vida uma doença crônica, ou morrer por ela, que certamente poderia ter sido prevenida. E como prevenir? Quem sabe, como primeiro passo conversar com os filhos sobre suas vidas, acompanhar, participar na escola, por mais chato que pareça, conhecer seus amigos, supervisionar, ajudar e ensinar a superar as dificuldades. As crianças e os adolescentes gostam muito de ver os pais em “sua” escola, mesmo os que reclamam, sentem como interesse dos pais por eles. A prevenção inicia em casa. A família tem a primeira responsabilidade social com o futuro cidadão. E ser um bom modelo de identificação dos filhos mesmo que não seja por inteiro, porque a perfeição não existe, deve ser uma preocupação dos pais e é um dever, para que possam exigir que seus filhos cumpram com seus deveres. A busca de orientação e ajuda, quando necessárias, é fundamental. Então haverá redução da demanda, da violência, da criminalidade. E saber que há esperanças, sim, há bons resultados, sim. Os milhares de exemplos mostram isso. Basta ter a coragem de “não se entregar” e acreditar firmemente que Não Basta Amar, é Preciso Cuidar.
Gilda Pulcherio
Psiquiatra
Instituto de Prevenção e Pesquisa em Álcool e outras Dependências
Página Opinião – ZERO HORA, 06/08/2003