Expulsos pelo tráfico

Pesquisa mostra que a maioria dos meninos de rua do Rio não volta para casa porque está ameaçada de morte pelo crime organizado

Crianças perambulam pelas calçadas no Rio de Janeiro desde os anos 70. Foram as vítimas de um dos episódios mais chocantes da história da cidade, a chacina da Candelária, que em 23 de julho completará dez anos. São parte da paisagem do centro da cidade. Deviam, mas não causam mais espanto. Uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Inovações em Saúde Social-IBISS mostra que há um novo fenômeno nesse cenário cotidiano, o dos refugiados do tráfico. Há 30 anos, 48% das crianças que moravam nas calçadas estavam ali porque seus pais não tinham condições de pagar por uma casa. Hoje, a ameaça do tráfico, que nem sequer aparecia na lista dos motivos há cinco anos, é responsável por 27% dos casos. Meninos que moravam em áreas conturbadas, cujas famílias saíram de casa por medo de tiroteios, são 24% do total. Na soma, constata-se que mais da metade dos garotos jogados na sarjeta é vítima da violência na cidade.

Depois de seis meses de trabalho, o coordenador da pesquisa, o psiquiatra holandês Nanko Van, faz um diagnóstico brutal: “Acabou-se o tempo do menino coitadinho, que ficava pedindo dinheiro porque não tinha onde morar. Hoje eles estão mais violentos e levaram para as ruas a mesma divisão por facções que existe nos morros. Não é raro que uma briga acabe virando uma batalha de gangues. Até com armas de fogo”.

O estudo do IBISS revela pelo menos uma notícia boa. Em 1993, ano da chacina da Candelária, as estimativas apontavam 23 mil meninos nas ruas. Hoje, o número reduziu-se quase à metade: 12.500. “A diminuição é resultado de um trabalho do Juizado de Menores. A equipe localiza e devolve as crianças às famílias”, explica Van. “O problema é que os meninos condenados pelo tráfico não podem voltar.”

No grupo que vive na Cinelândia, no centro do Rio, há casos exemplares. Jerônimo tem 13 anos. As mãos parecem as de um velho, enrugadas pelo contato constante com os solventes que usa para se drogar. Com 11 anos, o menino magrelo trabalhava com a pistola na cintura vendendo drogas em Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Ganhava R$ 200 por semana e fez o circuito-padrão do novo-rico de boca-de-fumo: roupas de marca, tênis e maconha “a rodo”, como diz. Queria mais. Recebeu sua carga de drogas e, em vez de prestar contas com o gerente do tráfico, embolsou R$ 3 mil. Falou que tinha sido roubado.

Foi intimado a delatar o ladrão. “Disseram que iam pegar o cara e eu é que ia ter de matar, para ganhar respeito”, lembra. A pressão dos bandidos trouxe de volta o menino. Jerônimo chorou. Os traficantes desconfiaram da história. Começou a sessão de tortura. Com um canivete, abriram dois rasgos em seus braços. Era só o começo.

Apanhou até que veio a sentença: com um pedaço de ferro em brasa, queimaram-lhe a coxa direita em dois lugares. Feito gado, marcado como ladrão para a comunidade. Apesar da dor lancinante, não confessou. Sabia que isso lhe custaria a vida. “Por ser sujeito homem” de agüentar a dor, ganhou um prazo de dois dias para aparecer com o dinheiro. A mãe negou ajuda. “Tu não escolheu? Agora se vira”, disse. Ele se virou. Foi para a rua, onde vive há dois anos, cheirando tíner e roubando.

Outros cinco colegas de Jerônimo também estão jurados de morte. Eles têm entre 14 e 17 anos. Foram acusados de sumir com 200 trouxinhas de maconha e dois fuzis de um paiol do tráfico na Zona Norte do Rio. Expulsos do morro, chamaram a família. Nenhum parente os acompanhou. Dos cinco, dois são irmãos. Só um deles continua vendo a mãe. Manda um recado e ela o encontra, sempre no mesmo lugar. O outro não a perdoa. “Vai embora senão vão me matar também”, foi o que ela disse a J., de 16 anos. “Não sei dela e nem quero saber. Se um dia esbarrar com minha mãe eu finjo que nem vejo”, desabafa.

Na primeira noite nas ruas, eles arrombaram uma banca de jornais na Glória, na Zona Sul do Rio, e dormiram sentados no chão. Isso foi há dois anos. Hoje não têm tanto medo. Só invadem bancas quando chove. Andam sempre juntos. Drogam-se muito, o tempo todo. Usam tíner, que custa R$ 3 o tubinho ou R$ 26 o latão, um sonho de consumo. Tomam banho e comem em abrigos, mas não passam as noites por lá.

Apesar de sofrerem por causa do tráfico, posaram para fotos fazendo sinais com a mão formando a sigla CV, do Comando Vermelho. Foi essa facção que os expulsou de casa. “É isso aí, CV!”, gritavam, eufóricos. Autor do livro Crianças do Tráfico, o antropólogo britânico Luke Dowdney compreende o fascínio. “Eles estão em busca de status como qualquer um de nós. Ser ligado a uma facção do tráfico, para eles, proporciona isso. Quando um menino vira traficante, sabe que está sujeito a morrer ou ser expulso”, explica. “No tráfico, a regra é clara, sem interpretações e vale para todos.”

Status bem passageiro. O mesmo Jerônimo que antes desfilava com roupas de marca pelo morro agora tem um único bem: um short rasgado e pelo menos dois números acima do seu. Ao contar sua vida, ele chora ao falar da mãe, que o renegou. As lágrimas despertam a atenção dos outros meninos. Eles riem, fazem gozação. Chamam-no de “ladrão”.

Num salto rápido, Jerônimo abre com um soco o lábio de outro garoto. Engalfinham-se, juram-se de morte. Como se tivessem várias vidas para perder.

O PODER DO TRÁFICO
Respostas à pergunta “Por que você mora na rua?” – em %

1970

Órfãos

Violência na família

Crianças perdidas

Família pobre / para mendigar

Represália do tráfico

15

16

21

48

1988

Órfãos

Violência na família

Crianças perdidas

Família pobre / para mendigar

Represália do tráfico

9

43

6

42

2002

Órfãos

Violência na família

Nascido
na rua

Família pobre / para mendigar

Represália do tráfico

Violência nas favelas

1

24

7

17

27

24

Fonte: Revista Época