Transtornos relacionados ao uso de substâncias: diferenças entre homens e mulheres e comorbidades psiquiátricas

Clínicos e pesquisadores têm demostrado um interesse cada vez maior em estudar características específicas e tratamentos diferenciados para mulheres usuárias de substâncias.

De acordo com os dados epidemiológicos:

– A prevalência ao longo da vida de transtornos pelo uso de substâncias em mulheres americanas é de 5 a 8 %.
– A idade de início para o uso de substâncias têm diminuído entre adolescentes do sexo feminino, o que aumenta o risco de dependência neste grupo.
– As mulheres são mais sensíveis que os homens aos efeitos fisiológicos do álcool e de outras drogas.
– A progressão entre o primeiro uso da substância, o aparecimento de problemas e a busca por tratamento é mais rápida em mulheres.
– As mulheres geralmente buscam tratamento em ambientes de atendimento médico primário e psiquiátrico geral, ao invés de serviços especializados no tratamento de usuários de drogas.
– A dependência em mulheres tem um importante impacto na gravidez, no neonato e como demonstrado mais atualmente, em toda a família.

Os autores deste artigo revisaram a literatura médica publicada em inglês desde 1990 a fim de se verificar as diferenças entre as comorbidades psiquiátricas presentes em mulheres e homens usuários de drogas e a significância clínica destas diferenças no tratamento.

1. Alcoolismo e comorbidades psiquiátricas
Importantes estudos realizados em amostras da população geral evidenciaram que as mulheres abusadoras de álcool apresentaram maiores índices de comorbidades psiquiátricas quando comparadas ao sexo masculino. As comorbidades mais encontradas em mulheres foram: transtornos ansiosos (fobia social, fobia simples e transtorno de estresse pós-traumático), transtornos do humor (depressão e mania) e dependência de drogas, enquanto que nos homens foi encontrado mais comportamento antisocial. Outro dado notado foi que as mulheres alcoolistas apresentavam um maior número de comorbidades que os homens.

Heltzer e colaboradores observaram altos índices de comorbidade psiquiátrica tanto para mulheres abusadoras quanto dependentes de álcool quando comparadas a homens com os mesmos diagnósticos. Neste estudo, as mulheres alcoolistas apresentaram índices de comorbidade mais elevados do que os homens para: depressão maior, transtornos fóbicos e ansiosos, mania, transtornos relacionados ao uso de drogas e esquizofrenia, por outro lado, os homens apresentaram maiores índices para transtorno obsessivo compulsivo, distimia e transtorno cognitivo; foram encontrados altos índices de comorbidade entre dependência de álcool e jogo patológico sem diferença entre os sexos.

Estudos revisados em amostras clínicas também demonstraram diferenças entre os sexos: as mulheres com transtornos pelo uso do álcool apresentaram maior comorbidade psiquiátrica com transtornos ansiosos, do humor e transtornos alimentares, enquanto que os homens apresentaram maior comorbidade para transtornos de personalidade antisocial e jogo patológico.

2. Drogas e comorbidades psiquiátricas
Dados encontrados no estudo de ECA (Epidemiological Catchment Area) demostraram que 76% dos homens e 65 % das mulheres com abuso ou dependência de drogas, incluindo o álcool, tiveram pelo menos um outro diagnóstico psiquiátrico ao longo da vida, ao excluir abuso e dependência do álcool. As mulheres demonstraram maiores índices de comorbidade para transtornos ansiosos e do humor como: depressão, mania, fobias, transtorno de estresse pós traumático, transtorno obsessivo compulsivo e transtorno do pânico. Os homens, por outro lado, apresentaram maiores índices de comorbidade para transtorno de personalidade antisocial e transtorno de déficit de atenção e hiperatividade.

3. Distinção entre o que é primário e secundário
A distinção entre o que é primário ou secundário pode ser definida pela relação temporal que há entre o início de transtornos distintos ou pela relação causal que há entre eles, contudo, no caso das comorbidades com transtornos relacionados ao uso de substâncias, um transtorno psiquiátrico que tem início após um longo período de abstinência da droga é considerado um transtorno independente.

Na maioria das vezes, o transtorno relacionado ao uso de substâncias em homens ocorre primariamente, quando secundário, o transtorno de conduta e o comportamento antissocial são os mais freqüentes. Ao contrário do sexo masculino, as mulheres com transtorno pelo uso de substâncias, geralmente o desenvolvem secundariamente a um transtorno depressivo e/ou ansioso.

3.1. Transtorno psiquiátrico prévio como fator de risco para o início de transtornos relacionados ao álcool
A comorbidade psiquiátrica representa um maior fator de risco para o desenvolvimento de transtornos relacionados ao uso do álcool. Dados extraídos do NCS (National Comorbidity Survey) sugeriram que a depressão é um fator de risco maior para o desenvolvimento de abuso ou dependência de álcool mais em mulheres do que nos homens, enquanto que o estudo ECA evidenciou que a depressão é um fator de risco para um aumento subsequente do uso do álcool principalmente em homens. O risco para o desenvolvimento de transtornos relacionados ao uso do álcool é maior em mulheres com história de agorafobia, depressão, abuso e dependência de drogas, em homens, o transtorno de personalidade antisocial foi o mais relacionado. O transtorno de estresse pós-traumático também foi considerado fator de risco para o desenvolvimento de transtorno pelo uso de álcool em mulheres particularmente quando atos violentos estão envolvidos.

Fonte: Álcool de Drogas sem Distorção