40 quilos de merla em dois dias

Da estrutura rústica de um pequeno laboratório para o cardápio de 50% dos usuários de drogas do Distrito Federal. Em menos de 20 anos, a merla se identificou com a capital federal e tornou-se a segunda droga mais consumida da região, atrás apenas da maconha. Nesta semana, o alarme da expansão do consumo da merla soou alto. Em apenas dois dias, foram apreendidas 430 latas da droga, cerca de 40 quilos. É o equivalente a quase metade das apreensões feitas em 2003 – 83 quilos.

Os números, no entanto, oscilam. Em 2002, foram recolhidos 138 quilos, contra 77 quilos em 2001 pelas delegacias do DF. Tamanha variação se deve, principalmente, à estrutura caseira e discreta utilizada pelos traficantes na produção da droga. “Pode-se montar um laboratório sobre uma mesa. É batida em liquidificador mesmo”, conta o delegado-assistente da Delegacia de Tóxicos e Entorpecentes (DTE), Márcory Mohn.

Em 2003, a DTE conseguiu desmantelar quatro laboratórios de merla, todos em Ceilândia. Mas a cidade que se consolidou como pólo distribuidor da droga no DF criou tentáculos: cerca de 90% da merla comercializada em Goiás vêm de lá. Estados como Maranhão e Amazonas já fizeram apreensões da droga em seus territórios.

Nos últimos anos, a merla tem migrado para outras cidades do DF. As apreensões feitas nesse ano ocorreram em Planaltina e Sobradinho. Pequenas quantidades têm sido recolhidas em áreas de maior poder aquisitivo como Plano Piloto, Lago Sul, Lago Norte e Cruzeiro. Nos primeiros meses de 2002, por exemplo, mais de quatro quilos foram apreendidos nessas regiões. “Era um vício predominantemente das camadas mais baixas, mas tem atingido a classe alta”, conta Mohn.

Certa vez, o morador da Asa Sul Roberto (nome fictício) foi a Ceilândia sete vezes, em uma única noite, atrás de merla. Achava que fugiria da droga indo para Goiânia. Mas a droga já havia chegado por lá: descobriu que podia comprá-la em um bordel que freqüentava. Não houve como escapar. “Os traficantes já me mandavam ir atrás de tratamento. Eu assustava até mesmo quem vivia daquilo”, lembra.

Dependentes como Roberto movimentam um mercado de R$ 17 milhões, segundo dados da Polícia Civil. Gastam, em média, R$ 50 por latinha. O pequeno valor das porções – R$ 5, em média – é um dos principais atrativos da droga. É o preço de uma euforia que não dura mais de 20 minutos, e que pode escravizar a partir do terceiro cigarro

Fonte: Jornal de Brasília